Endividamento das famílias atinge 49,3% da renda, mas inadimplência fica estável

Patamar atual está entre os mais elevados desde novembro de 2022, segundo o Banco Central
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O relatório de Estatísticas Monetárias e de Crédito, divulgado nesta sexta-feira (26) pelo Banco Central, mostra que as famílias brasileiras estão mais endividadas e enfrentam um custo cada vez maior para acessar crédito, cenário que tem reduzido a disposição para contratar novos empréstimos. Os dados indicam que o endividamento das famílias chegou a 49,3% da renda anual, enquanto o comprometimento mensal da renda com o pagamento de dívidas alcançou 29,4%. Por outro lado, a inadimplência permanece relativamente estável.

O patamar atual está entre os mais elevados desde novembro de 2022, período ainda marcado pelos efeitos econômicos da pandemia da Covid-19. Naquele mês, o endividamento havia atingido 49,4% da renda anual, nível praticamente igual ao observado agora, o que reforça a persistência da pressão sobre o orçamento das famílias.

O indicador do Banco Central considera todas as dívidas contraídas junto ao sistema financeiro, incluindo financiamentos imobiliários e de veículos, empréstimos pessoais, crédito consignado e uso do cartão de crédito. Na prática, isso significa que quase metade da renda anual das famílias brasileiras está comprometida com obrigações financeiras, limitando a capacidade de consumo e de contratação de novos créditos.

O principal vilão do endividamento alto são os juros. Com a taxa Selic em 15% ao ano, a taxa média de juros cobrada pelos bancos em operações com recursos livres subiu para 46,7% ao ano em novembro, o maior patamar desde abril de 2017. Apenas em 2025, o avanço acumulado já chega a seis pontos percentuais, evidenciando o impacto direto da política monetária restritiva adotada pelo Banco Central para conter a inflação.

Os dados do BC mostram que o encarecimento do crédito tem sido desproporcionalmente maior para as pessoas físicas. Em novembro, a taxa média de juros para esse segmento atingiu 59,4% ao ano, o maior nível desde 2017. Em contraste, os juros cobrados das empresas recuaram levemente para 24,5% ao ano, sinalizando maior seletividade e menor risco percebido nesse segmento.

Apesar do cenário mais restritivo, a inadimplência permanece relativamente estável no curto prazo. Os atrasos superiores a 90 dias corresponderam a 3,8% da carteira total de crédito, embora apresentem alta na comparação anual. No caso das famílias, a inadimplência no crédito livre alcançou 6,3%, refletindo a crescente pressão financeira sobre os consumidores.

Crescimento do crédito perde intensidade

Apesar desse aperto, o volume total de crédito às famílias continuou em expansão. Em novembro, o crédito ampliado às pessoas físicas somou R$ 4,7 trilhões, o equivalente a 37,2% do PIB (Produto Interno Bruto). O avanço sugere que parte dos consumidores ainda recorre ao crédito para sustentar o consumo ou reorganizar dívidas antigas, mesmo em um ambiente de condições financeiras mais restritivas.

Esse crescimento, no entanto, vem perdendo intensidade. O estoque total de crédito do Sistema Financeiro Nacional avançou 9,5% em 12 meses, abaixo do ritmo registrado anteriormente, de 10,2%. A desaceleração indica maior cautela tanto de consumidores quanto de empresas.

Entre as empresas, o movimento é ainda mais contido. O crédito ampliado às companhias chegou a R$ 6,8 trilhões, o equivalente a 53,8% do PIB, mas praticamente não registrou crescimento no mês. Em 12 meses, a alta foi de 4,8%, sustentada principalmente pela emissão de títulos de dívida, o que sugere a busca por fontes alternativas ao crédito bancário tradicional.

Novas concessões

A retração no apetite por crédito fica mais evidente ao se observar o volume de novas concessões. Em novembro, os novos empréstimos somaram R$ 637,5 bilhões, queda de 6,6% em relação ao mês anterior. Mesmo após ajustes estatísticos, houve recuo tanto nas operações com famílias quanto com empresas, sinalizando enfraquecimento da demanda por crédito novo.

O principal fator por trás desse movimento é o custo elevado dos financiamentos. A taxa média de juros das novas operações ficou em 31,9% ao ano. Para as famílias, a média foi ainda maior, de 37,0% ao ano. No crédito livre — que inclui modalidades como crédito pessoal e cartão de crédito — os juros atingiram 59,4% ao ano, com aumentos mais intensos no crédito não consignado e no cartão parcelado.

 

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