Cinco das principais empresas do mercado mundial de apostas online perderam, juntas, cerca de R$ 228 bilhões em valor de mercado no período de um ano, segundo levantamento da Folha de S.Paulo. O movimento ocorre em meio ao aumento da pressão regulatória sobre o setor em diferentes países.
O cálculo considera três grandes grupos de apostas e duas empresas especializadas no fornecimento de dados e probabilidades para o setor. Todas possuem operações relacionadas ao mercado brasileiro.
Entre os fatores que pressionam as companhias estão aumentos de impostos nos Estados Unidos e no Reino Unido, mudanças regulatórias em diferentes mercados e resultados financeiros abaixo das expectativas em algumas operações. No Brasil, o setor também enfrenta incertezas diante da possibilidade de novas restrições defendidas pelo governo federal.
Flutter concentra maior perda
A maior queda em valor de mercado entre as empresas analisadas ocorreu com a Flutter Entertainment, grupo responsável por marcas como FanDuel, Betfair e Betnacional.
A companhia perdeu aproximadamente US$ 34 bilhões em valor de mercado no período analisado pela Folha, equivalente a cerca de R$ 178 bilhões na cotação utilizada pelo jornal.
As ações da empresa também acumulam forte queda em 2026. O desempenho ocorre em meio a dificuldades enfrentadas principalmente pela FanDuel, uma das principais plataformas de apostas esportivas dos Estados Unidos.
A companhia atribuiu parte da piora dos resultados da operação americana a resultados esportivos desfavoráveis para a banca, aumento da carga tributária em estados americanos e maior concorrência no mercado.
Outro revés ocorreu na Índia, onde a Flutter operava por meio da Junglee Games. Restrições impostas pelo governo indiano ao mercado de apostas online afetaram as operações da companhia no país.
No Brasil, a Betnacional, controlada pelo grupo, mantém contratos de patrocínio com clubes de futebol, entre eles Cruzeiro e Sport.
Entain perdeu R$ 17,7 bilhões
A Entain, grupo britânico responsável por marcas como Sportingbet, também registrou forte desvalorização. Segundo o levantamento, a companhia perdeu cerca de US$ 3,4 bilhões, aproximadamente R$ 17,7 bilhões, em valor de mercado no período de um ano.
O balanço oficial da empresa mostra que a Entain encerrou 2025 com prejuízo líquido de £ 680,5 milhões. O resultado foi afetado por uma baixa contábil de £ 488 milhões relacionada ao aumento da tributação sobre jogos de azar anunciado no Reino Unido.
Apesar do prejuízo contábil, a receita do grupo cresceu 3% em 2025, enquanto o Ebitda, indicador utilizado para medir a geração operacional de caixa, avançou 7%, para £ 1,16 bilhão.
A estrutura financeira da companhia também permanece sob atenção. A dívida líquida ajustada chegou a £ 3,644 bilhões no fim de 2025, equivalente a 3,1 vezes o Ebitda.
No primeiro semestre deste ano, a Entain registrou receita de £ 2,51 bilhões, crescimento de 7% em relação ao mesmo período de 2025. O Ebitda, entretanto, recuou 2%, para £ 479,3 milhões.
Betsson registra queda no lucro
A sueca Betsson, que também atua no mercado brasileiro, perdeu cerca de US$ 960 milhões em valor de mercado no período analisado pela Folha.
Os resultados mais recentes da empresa mostram que a receita continuou crescendo, mas a rentabilidade diminuiu.
No segundo trimestre de 2026, a Betsson registrou receita recorde de € 310,2 milhões, crescimento de 2% na comparação anual. O lucro líquido, porém, caiu de € 49,2 milhões para € 30,4 milhões, uma redução de aproximadamente 38%.
O Ebitda recuou 31%, de € 84,1 milhões para € 58,5 milhões, enquanto a margem do indicador caiu de 27,7% para 18,8%. Segundo a própria companhia, o desempenho foi afetado, entre outros fatores, pela menor receita de sua operação voltada a outras empresas.
A América Latina, por outro lado, permanece como uma região de expansão para a Betsson. A receita obtida na região cresceu 32% no segundo trimestre e atingiu nível recorde, tornando-se a maior região de atuação do grupo.
Fornecedoras de dados também são pressionadas
A queda das empresas de apostas também alcançou companhias que fornecem serviços para as plataformas, como Sportradar e Genius Sports.
Essas empresas atuam, entre outras atividades, no fornecimento de dados esportivos e tecnologias utilizadas para calcular as chamadas odds, que determinam quanto uma aposta pode pagar de acordo com determinado resultado.
Mesmo com crescimento de receitas, despesas relacionadas a direitos esportivos, aquisição de empresas e incorporação de novas tecnologias têm pressionado a rentabilidade dessas companhias.
A Sportradar também enfrentou turbulências no mercado depois da divulgação de acusações de que teria prestado serviços a operadores não licenciados em países submetidos a sanções internacionais. As alegações resultaram em disputas judiciais envolvendo acionistas.
Já a Genius Sports reportou prejuízo por ação acima das projeções do mercado no segundo trimestre de 2026, em um resultado afetado por despesas financeiras e custos associados a aquisições recentes.
Pressão regulatória cresce em diferentes países
A desvalorização ocorre em um momento de endurecimento das regras para o mercado de apostas em diferentes partes do mundo.
No Reino Unido, mudanças tributárias anunciadas pelo governo elevaram os custos das empresas do setor. A Premier League também passou a proibir, a partir da temporada 2026/27, que casas de apostas ocupem o espaço principal na parte frontal das camisas dos clubes, após um período de transição acertado pelas equipes.
Nos Estados Unidos, estados como Illinois e Nova Jersey aumentaram a tributação sobre determinadas modalidades de apostas, ampliando os custos de operação das empresas.
No Brasil, a incerteza regulatória também aumentou. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem defendido publicamente novas restrições ao setor e chegou a afirmar que pretende acabar com as bets. O formato das medidas, entretanto, ainda é objeto de discussão dentro do governo.
A combinação de tributação maior, mudanças nas regras e resultados financeiros mais fracos em algumas operações aumentou a percepção de risco em torno de empresas que passaram por forte expansão nos últimos anos. Para companhias com negócios distribuídos por diversos países, decisões regulatórias tomadas individualmente por governos passaram a ter impacto cada vez maior sobre as projeções de receita e lucro.