O presidente Donald Trump voltou a tensionar a já delicada relação comercial entre Estados Unidos e China ao ameaçar, na segunda-feira (25), impor uma tarifa de 200% — ou “algo parecido” — sobre ímãs importados do país asiático. A declaração, feita em meio à disputa tecnológica entre as duas maiores economias do mundo, reacende o foco sobre as chamadas terras raras, elementos estratégicos para setores de alta tecnologia.
A China, principal produtora global desses materiais, restringiu em abril a exportação de vários itens, incluindo ímãs, em resposta ao aumento de tarifas imposto por Washington. O movimento expõe a dependência ocidental desses materiais, essenciais para a fabricação de smartphones, veículos elétricos, turbinas eólicas e armamentos de precisão.
Ímãs de alto desempenho, por exemplo, são fabricados com ligas que contêm neodímio, samário e, em algumas aplicações, disprósio — todos elementos do grupo das terras raras. A concentração das reservas globais na China e no Brasil reforça o caráter estratégico desses recursos.
EUA X China: acordos frágeis e ameaças mútuas
A ameaça de Trump ocorre apesar de recentes acordos para amenizar a guerra tarifária iniciada durante sua gestão. No início de agosto, Pequim prorrogou por 90 dias a suspensão de tarifas adicionais sobre produtos norte-americanos, em resposta à ordem executiva de Trump que renovou uma trégua tarifária.
Na prática, os países mantiveram o acordo firmado em maio, que previa:
- Redução das tarifas dos EUA sobre importações chinesas de 145% para 30%;
- Queda nas taxas da China sobre produtos americanos de 125% para 10%.
No entanto, a estabilidade durou pouco. Duas semanas após o anúncio da prorrogação, Trump acusou a China de violar o pacto. Em nota, o governo chinês pediu que os EUA suspendam medidas “discriminatórias” e preservem o consenso alcançado em negociações em Genebra.
Custo econômico da política tarifária
Apesar das críticas, Trump defende o tarifaço como estratégia para reduzir o déficit comercial dos EUA. Um relatório do Congressional Budget Office (CBO), órgão independente ligado ao Congresso americano, aponta que as medidas devem gerar uma economia de até US$ 4 trilhões nas contas públicas até 2035.
Desse total, US$ 3,3 trilhões viriam da redução do déficit primário, enquanto US$ 700 bilhões resultariam da diminuição de gastos com juros da dívida pública. As projeções superam estimativas anteriores divulgadas em junho.
No entanto, o impacto positivo nas contas públicas vem acompanhado de uma desaceleração da economia. O CBO alerta que tarifas mais altas estão encarecendo bens de consumo e de capital, o que reduz investimentos, produtividade e o poder de compra de empresas e famílias. A tarifa efetiva média sobre importações, segundo o órgão, está 18 pontos percentuais acima do nível de 2024.
Uma disputa que ultrapassa a economia
Mais do que uma guerra comercial, o embate entre EUA e China reflete uma disputa por hegemonia tecnológica e industrial. O controle sobre os insumos do futuro — como os ímãs de terras raras — é hoje um dos principais campos de batalha geoeconômicos do século 21.