A combinação entre arrocho econômico, perda do poder de compra e corte de subsídios levou a inadimplência das famílias na Argentina ao seu maior nível em 16 anos. Segundo dados do Banco Central do país, a taxa de calote nos empréstimos familiares saltou de 2,8%, no fim de 2023, para 12,8% em junho deste ano. O avanço da dívida atinge quase seis milhões de pessoas, cerca de um terço de todos os tomadores de crédito do país, que acumulam atrasos superiores a 90 dias no pagamento de suas obrigações financeiras.
Para sobreviver ao custo de vida elevado e à falta de renda fixa, a população tem recorrido em massa aos empréstimos oferecidos por fintechs e pelas próprias plataformas digitais de serviços. O volume de operações dessas empresas cresceu 20 vezes nos últimos anos, alcançando 10 milhões de contratos individuais. O facilitador digital, contudo, cobra um preço alto: aplicativos de entrega e carteiras virtuais aplicam taxas de juros anuais que variam de 131% a 170%, alimentando uma espiral de endividamento permanente entre motoristas, entregadores e jovens sem acesso ao sistema bancário tradicional.
O fenômeno ocorre em meio às reformas promovidas pelo presidente Javier Milei. Se por um lado a desacelerou da inflação permitiu ao setor financeiro expandir a oferta de crédito privado, por outro, os fortes cortes de gastos públicos e a remoção de subsídios estaduais espremeram os orçamentos domésticos. Com juros reais extremamente altos e rendimentos defasados, os devedores enfrentam dificuldades inéditas para quitar dívidas que antes eram corroídas pela hiperinflação.
Protestos por alívio fiscal e resistência da Casa Rosada
A escalada do calote provocou manifestações no centro de Buenos Aires, onde grupos de devedores e sindicatos passaram a exigir medidas de socorro financeiro e renegociação de dívidas com o apoio do Estado. Entidades do setor bancário, como a Associação de Bancos Públicos e Privados da Argentina (ABAPPRA), também pressionam o Banco Central local a flexibilizar regras de classificação de risco para evitar um travamento ainda maior na concessão de novos financiamentos.
Apesar da pressão social e do alerta de consultorias sobre o risco político que a precarização do trabalho e o consumo fraco podem representar para a governabilidade de Milei até as eleições de 2027, a Casa Rosada tem recusado intervenções no mercado. O governo argentino classifica o salto na inadimplência como um ajuste temporário e uma questão estritamente privada entre credores e tomadores de empréstimo dentro da nova dinâmica de livre mercado.