O avanço da inteligência artificial no setor financeiro tem acelerado a oferta de crédito digital no Brasil, mas também desperta preocupações sobre o aumento do endividamento, especialmente entre os jovens.
Dados do Banco Central mostram que o número de pessoas entre 18 e 29 anos com acesso a crédito praticamente dobrou nos últimos oito anos, passando de 13,7 milhões para 27,6 milhões. Ao mesmo tempo, a inadimplência segue elevada nessa faixa etária. Atualmente, cerca de 9,3 milhões de brasileiros entre 18 e 25 anos possuem dívidas em atraso e nome negativado, segundo dados da Serasa. No total, mais de 83 milhões de pessoas enfrentavam essa situação em abril.
A expansão do crédito digital acompanha a crescente adoção de inteligência artificial por bancos digitais e fintechs. Pesquisa da consultoria PwC aponta que 67% das instituições financeiras digitais já utilizam IA em processos de automação e operações internas, enquanto 52% empregam a tecnologia no desenvolvimento de novos produtos e serviços.
A utilização dessas ferramentas permite análises mais rápidas do perfil dos clientes, agilizando a aprovação de crédito e a definição de limites financeiros.
Segundo especialistas, embora a tecnologia contribua para ampliar o acesso a serviços financeiros, ela também pode aumentar a exposição dos consumidores a ofertas de crédito e estimular decisões impulsivas de consumo.
Redes sociais ampliam exposição a ofertas financeiras
Estudos sobre comportamento digital indicam que a geração Z é a mais presente nas redes sociais, ambiente em que algoritmos analisam hábitos de navegação e direcionam anúncios personalizados.
Para especialistas em economia e educação financeira, a combinação entre inteligência artificial, publicidade segmentada e facilidade de contratação de serviços financeiros cria um cenário em que consumidores são constantemente expostos a ofertas de crédito, financiamentos e outros produtos financeiros.
Além da facilidade de acesso ao crédito, especialistas apontam que a falta de conhecimento sobre juros, financiamento e planejamento financeiro contribui para o aumento da inadimplência entre os jovens.
De acordo com dados da Serasa, fatores como desemprego, empréstimo do nome para terceiros e baixa educação financeira estão entre as principais causas do endividamento.
O problema se torna ainda mais relevante no caso do cartão de crédito. Quando o consumidor não paga integralmente a fatura, o saldo restante entra no crédito rotativo, modalidade que possui algumas das taxas de juros mais elevadas do mercado. Em maio, a taxa média mensal do rotativo do cartão chegou a 14,9%, segundo o Banco Central.
Tecnologia também pode ajudar na educação financeira
Apesar dos riscos, especialistas destacam que a própria tecnologia pode contribuir para ampliar o acesso à informação financeira.
Ferramentas digitais, aplicativos de controle de gastos e conteúdos educativos disponíveis online facilitam o aprendizado sobre orçamento, investimentos e uso consciente do crédito.
Ainda assim, pesquisadores alertam que o ambiente digital atual favorece o consumo constante e reduz o tempo de reflexão antes de uma compra ou contratação financeira.
Para estudiosos do comportamento do consumidor, o desafio está em equilibrar a conveniência proporcionada pela tecnologia com práticas de educação financeira capazes de preparar os usuários para lidar com um mercado cada vez mais digitalizado e acessível.