Investigação contra Jerome Powell expõe tensão entre Casa Branca e BC dos EUA

Analistas veem independência do banco central sob risco
ouça este conteúdo
00:00 / 00:00
1x

Procuradores federais dos Estados Unidos abriram uma investigação criminal contra o presidente do Federal Reserve (Fed), Jerome Powell, em razão das obras de reforma da sede do banco central, em Washington. A informação foi revelada pelo The New York Times no domingo (11) e posteriormente confirmada pelo próprio Powell, em declaração oficial divulgada no site do Fed.

O inquérito é conduzido pelo escritório da Procuradoria dos EUA no Distrito de Colúmbia e apura se Powell teria mentido ao Congresso sobre o escopo e os custos das renovações. A autorização para a abertura da investigação partiu de Jeanine Pirro, procuradora nomeada para o cargo pelo presidente Donald Trump no ano passado e ex-apresentadora da Fox News.

Os procuradores já entraram em contato com a equipe de Powell para solicitar documentos relacionados à obra. Procurada, a Casa Branca não respondeu imediatamente aos pedidos de comentário.

A reforma envolve dois edifícios históricos do Fed em Washington. O custo estimado do projeto subiu de US$ 1,9 bilhão, em 2023, para US$ 2,5 bilhões, segundo documentos orçamentários recentes.

De acordo com o orçamento de 2025 do banco central, o aumento decorre principalmente da alta nos custos dos setores mecânico, elétrico e hidráulico, em razão de licitações mais caras.

Resposta de Powell e acusações de intimidação

Em pronunciamento, Jerome Powell afirmou ter “profundo respeito pelo Estado de Direito” e disse que ninguém, “certamente não o presidente do Federal Reserve”, está acima da lei. Ao mesmo tempo, classificou a investigação como uma ação “sem precedentes”, que deve ser analisada dentro de um contexto mais amplo de “ameaças e pressão contínua” por parte do governo.

Segundo Powell, a reforma dos prédios e o papel de supervisão do Congresso estariam sendo usados como pretexto. Para ele, a verdadeira motivação seria o descontentamento da Casa Branca com a condução da política monetária.

“A ameaça de acusações criminais é uma consequência do fato de o Federal Reserve definir as taxas de juros com base em nossa melhor avaliação do que será melhor para o público, em vez de seguir as preferências do presidente”, afirmou.

O presidente do Fed alertou que o episódio coloca em jogo a própria independência da instituição. “A questão central é se o Fed conseguirá continuar a definir as taxas de juros com base em evidências e nas condições econômicas, ou se a política monetária será dirigida por pressão política ou intimidação”, disse.

Conflito antigo e cenário político

Donald Trump tem feito críticas recorrentes a Powell desde antes mesmo de assumir a presidência. O republicano já o chamou de “incompetente”, “burro” e “idiota”, além de afirmar publicamente que “adoraria” demiti-lo.

Em julho, a pressão aumentou após Russell Vought, diretor do Escritório de Administração e Orçamento da Casa Branca, enviar uma carta a Powell relatando a “extrema preocupação” do presidente com a gestão do Fed e com o que chamou de “reforma ostentosa” da sede do banco central.

No domingo, Trump afirmou não ter qualquer ligação com a investigação e voltou a criticar o dirigente. “Eu não sei nada sobre isso, mas ele certamente não é muito bom no Fed, e não é muito bom em construir edifícios”, disse em entrevista à NBC News.

O presidente também negou que o inquérito tenha relação com a política de juros, embora defenda cortes mais agressivos do que os adotados recentemente pelo Fed.

Atualmente, a taxa básica de juros nos EUA está entre 3,5% e 3,75%. Trump pressiona por uma redução para cerca de 1,5%, argumentando que os juros elevados dificultam o acesso ao crédito imobiliário e freiam a atividade econômica.

O mandato de Jerome Powell como presidente do Federal Reserve termina em maio de 2026. Trump já declarou que escolheu um sucessor, embora não tenha revelado o nome; Kevin Hassett, diretor do Conselho Econômico Nacional, figura entre os cotados. Powell, por sua vez, afirmou que não pretende deixar o cargo antes do fim do mandato.

Carregar Comentários
Assine nosso boletim econômico
Receba gratuitamente os principais destaques e indicadores da economia e do mercado financeiro.