O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou nesta segunda-feira (20), em Hanôver (Alemanha), que a entrada em vigor do Acordo Mercosul–União Europeia, prevista para 1º de maio, marca uma nova fase na integração entre os dois blocos. Após reunião com o chanceler alemão, Friedrich Merz, Lula classificou o acordo como um símbolo do compromisso conjunto com o multilateralismo, a prosperidade compartilhada e regras comerciais equilibradas.
Segundo o presidente, o tratado ultrapassa a lógica do livre comércio ao incorporar diretrizes voltadas à proteção de trabalhadores, direitos humanos e meio ambiente. A avaliação é de que o acordo estabelece um modelo mais amplo de cooperação econômica e política entre as regiões.
“Por isso o Acordo Mercosul-União Europeia é tão importante e foi tão defendido por Brasil e Alemanha. Depois de 25 anos de negociações, nossas regiões disseram sim à integração para criar uma zona de livre comércio que reúne 720 milhões de pessoas e que soma um PIB de 22 trilhões de dólares”, explicou Lula
Parceria ampliada e agendas estratégicas
Durante a visita oficial à Alemanha, Lula participou de eventos como a Feira Industrial de Hanôver, o Encontro Econômico Brasil-Alemanha e reuniões intergovernamentais de alto nível. Os encontros resultaram em avanços em áreas consideradas estratégicas, incluindo defesa, inteligência artificial, economia circular, infraestrutura sustentável e energias renováveis.
Os entendimentos também reforçam a coordenação bilateral em temas globais, como a defesa do multilateralismo e a transição ecológica, em um contexto internacional marcado por incertezas.
A Alemanha é atualmente a maior economia da Europa e uma das principais parceiras comerciais do Brasil. O fluxo bilateral gira em torno de US$ 21 bilhões anuais, com estoque de investimentos alemães no país superior a US$ 40 bilhões, consolidando uma relação econômica considerada estratégica por ambos os governos.
Acordo histórico e diversificação econômica
O presidente destacou o caráter histórico do acordo, negociado ao longo de 25 anos, e ressaltou seu potencial para diversificar relações comerciais e aumentar a resiliência econômica. A zona de livre comércio formada reúne cerca de 720 milhões de pessoas e um PIB estimado em US$ 22 trilhões.
O chanceler Friedrich Merz também enfatizou o papel de Brasil e Alemanha como defensores da integração e afirmou que o acordo deve impulsionar a cooperação em setores como tecnologia, agricultura e energia. Segundo ele, medidas adicionais estão sendo adotadas para fortalecer vínculos econômicos, incluindo a retomada de negociações para evitar a dupla tributação.
“Fizemos parte daquele grupo que realmente insistiu que o acordo entrasse em vigor, então foi um êxito em comum. Entrando em vigor, vai fomentar cada vez mais a nossa cooperação na área de tecnologia, inteligência artificial, economia circular, agricultura, energia”, disse o chanceler alemão.
Regras comerciais e críticas ao unilateralismo
Em seu discurso, Lula defendeu a adoção de regras comerciais justas e criticou medidas que, segundo ele, podem comprometer o equilíbrio do acordo. O presidente alertou para o risco de práticas unilaterais, especialmente no contexto de políticas ambientais e industriais, defendendo maior alinhamento com normas multilaterais.
“É legítimo impulsionar políticas de descarbonização, preservação ambiental e desenvolvimento industrial. Mas não é correto adotar métricas que não são fidedignas à realidade, nem compatíveis com regras multilaterais. Não há como vencer o unilateralismo com mais unilateralismo”, disse Lula.
Cooperação em defesa, energia e inovação
Os dois países firmaram acordos que ampliam a cooperação em áreas como tecnologias quânticas, bioeconomia, eficiência energética e pesquisa climática e oceânica. Na área de defesa, Lula citou o avanço na construção de fragatas da classe Tamandaré e negociações para aquisição de novas unidades.
Na agenda energética, o presidente defendeu a diversificação das matrizes e criticou resistências ao uso de biocombustíveis na Europa, apontando o etanol e o biodiesel como alternativas viáveis para a descarbonização do transporte.
Clima e financiamento ambiental
A pauta ambiental ocupou lugar central nas discussões. Lula reafirmou o compromisso do Brasil de zerar o desmatamento até 2030 e destacou a redução recente dos índices na Amazônia e no Cerrado. Também mencionou a cooperação com a Alemanha no Fundo Amazônia.
“Alemanha e Brasil têm consciência de que o amanhã depende do cuidado com o planeta. Se o Rio de Janeiro foi o berço da Convenção das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, Bonn [cidade Alemã] é a casa, ao abrigar seu Secretariado”, enfatizou.
O presidente informou ainda que a Alemanha confirmou novos aportes em iniciativas climáticas, incluindo contribuições para o Fundo Clima e o Fundo Florestas Tropicais para Sempre, com foco na preservação ambiental e no financiamento de soluções sustentáveis.
Soberania digital e saúde
Na área tecnológica, Lula destacou a convergência entre Brasil e Alemanha na promoção da soberania digital, com investimentos em infraestrutura, inteligência artificial e regulação de plataformas. O objetivo, segundo ele, é reduzir a dependência de empresas estrangeiras e fortalecer capacidades locais.
No campo da saúde, o Brasil manifestou interesse em ampliar a cooperação para implantação de hospitais inteligentes, com foco na eficiência do sistema público.
Multilateralismo em xeque
Ao final, Lula alertou para o enfraquecimento do multilateralismo e defendeu reformas em instituições internacionais, como o Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU). Segundo o presidente, a cooperação entre países como Brasil e Alemanha é fundamental para enfrentar desafios globais e promover o desenvolvimento sustentável.