Durante participação no ICL Notícias 1ª edição, a ex-juíza federal Luciana Bauer, que atuou na 17ª Vara Federal de Curitiba (PR), comentou que o envolvimento do narcotraficante espanhol Oliver Ortiz de Zarate Martin por detrás da operação de compra do Banco Master, de Daniel Vorcaro, escancara como a máfia atua de forma estruturada no sistema financeiro.
“Hoje, a máfia não vive sem o sistema financeiro. Casos clássicos na Sicília mostram que o crime evoluiu da família para grandes corporações financeiras”, diz.
“Foi descoberto que se conseguiu comprar o Banco Master com dinheiro vindo de um esquema mafioso transnacional”, pontua, em referência à reportagem exclusiva do ICL Notícias, que revela a ligação do narcotraficante espanhol na compra da instituição liquidada pelo Banco Central em novembro passado.
Segundo a ex-juíza, essa ligação ficou explícita na operação Carbono Oculto, capitaneada pela Polícia Federal, que mostrou lavagem de dinheiro de facções criminosas em fintechs. Além disso, grandes criminosos estão entre “elites, em bairros nobres e com contas em fintechs”.
“A máfia moderna depende do sistema financeiro para expandir seu alcance”, enfatiza.
Quem é Ortiz
Condenado por lavagem de dinheiro e tráfico internacional de drogas em 2013, Ortiz foi notificado pela Polícia Federal sobre sua deportação do Brasil, mas seu paradeiro desde 2019 é desconhecido.
A ex-juíza ressaltou que tratados internacionais, como a Convenção de Palermo, permitem integração entre países e órgãos como a Interpol, mas criminosos com acesso a paraísos fiscais dificultam a ação da Justiça.
“Esses mafiosos hoje contam com vários paraísos fiscais em que mantêm dinheiro, mesmo sendo presos, o que dificulta a investigação”, diz.
Ela explicou que, mesmo com suspeitos residindo fora do Brasil, acordos internacionais permitem que sejam alcançados judicialmente.
Luciana destacou que a coordenação entre juízes, promotores e órgãos de inteligência do Ministério da Justiça é fundamental para viabilizar a aplicação da lei penal.
“Alguns deles são muito difíceis de serem mapeados, mas o nosso sistema, capitaneado pelo Ministério da Justiça, agrega juízes e promotores para viabilizar a aplicação da lei penal.”
Fintechs: oportunidades e riscos
Segundo Bauer, a ascensão das fintechs e das criptomoedas abriu portas para a inclusão financeira, mas também criou brechas para a criminalidade financeira.
“Antes, poucos bancos concentravam operações, dificultando a atuação de mafiosos. Com o avanço das fintechs, houve maior acesso ao sistema financeiro, mas também facilidades para lavagem de dinheiro”, diz.
Apesar disso, o sistema de inteligência brasileiro está preparado para rastrear transações suspeitas e desmantelar esquemas internacionais.
“O advento das fintechs reativou a máfia financeira no Brasil. Mas a Polícia Federal e o Banco Central têm capacidade para investigar e mapear essas ramificações”, observa.
Brasil como referência internacional
Luciana destaca que o Brasil é considerado um modelo no combate à máfia, tráfico e crimes financeiros, incluindo:
- Formação de juízes, promotores e equipes de inteligência integradas a tratados internacionais.
- Participação em convenções globais, como a Convenção de Palermo.
- Aplicação de legislações e mecanismos de compliance financeiro alinhados a padrões internacionais.
“O Brasil é um case de sucesso em integrar tratados internacionais e combater a máfia transnacional. Esse aspecto, infelizmente, não é amplamente divulgado”, lamenta.
Veja a entrevista completa de Luciana Bauer no vídeo abaixo: