Por Gabriel Gomes
Uma parcela expressiva dos brasileiros defende uma atuação maior do Estado na economia, com participação no desenvolvimento do país, controle de setores estratégicos e intervenção em questões que afetam diretamente o custo de vida. É o que aponta a pesquisa “Percepções da Economia Brasileira”, realizada pela Ipsos para o Global Fund for a New Economy (GFNE).
O levantamento mostra que 59% defendem que empresas consideradas estratégicas permaneçam sob controle estatal, enquanto 66% apoiam a atuação do governo sobre os preços dos combustíveis. Além disso, 47% preferem um governo forte, capaz de investir no desenvolvimento de longo prazo e orientar o crescimento econômico.
Para o economista-chefe do GFNE, Pedro Rossi, os resultados permitem falar em uma preferência por uma presença maior do poder público na economia e, principalmente, mostram que essa posição não está restrita a um campo político.
“É algo que atravessa o espectro político, não é uma questão de ser de esquerda ou de direita. Várias das perguntas que a gente fez mostram que a pauta econômica, por vezes, fura a polarização”, afirmou Rossi ao ICL Notícias.
Segundo o economista, o conjunto dos resultados aponta para uma rejeição à agenda de menor participação estatal. “Há várias pautas econômicas que furam a polarização, e o brasileiro rejeita o neoliberalismo e quer um Estado mais intervencionista. São essas as mensagens”, acrescentou.

Os resultados aparecem em um cenário de percepção crítica sobre o funcionamento da economia. Para 58% dos entrevistados, o sistema econômico brasileiro beneficia principalmente os ricos e poderosos. A avaliação aparece como um dos pontos de convergência entre diferentes grupos políticos.

‘Sentimento antissistêmico’
Rossi relaciona esse resultado a uma insatisfação mais ampla com o funcionamento do sistema econômico. “Acho que há um sentimento antissistêmico que está na economia também. Essa ideia de que ‘isso não me beneficia, beneficia o outro’. Acho que isso é um fenômeno que vem da crise do neoliberalismo”, disse.
Para o economista, essa insatisfação ajuda a explicar a procura por uma atuação estatal voltada a problemas concretos do cotidiano. “As pessoas estão insatisfeitas e buscam superar uma ideologia neoliberal. Buscam um Estado que não necessariamente é o Estado de esquerda, mas é um Estado que ataca e destrava a vida das pessoas, ataca os preços essenciais, reduz os custos de bens básicos, como aluguel, transporte, creche, essas coisas ligadas ao custo de vida.”
A pesquisa aponta maior apoio à taxação de grandes fortunas e à redução da influência do mercado financeiro sobre as decisões do governo. Para 53%, o governo deveria aumentar os impostos sobre grandes fortunas para financiar investimentos públicos, enquanto 27% são contrários à medida. Outros 16% não souberam responder e 5% preferiram não se posicionar.
O levantamento também mostra que 56% defendem que o governo priorize o que considera melhor para os brasileiros, independentemente das recomendações dos mercados financeiros, contra 24% que avaliam que o governo deve seguir as orientações do mercado. Já a política fiscal divide os entrevistados: 43% defendem limites mais flexíveis para permitir maiores investimentos em saúde e educação, enquanto 40% preferem regras mais rígidas para controlar os gastos e evitar o aumento da dívida.

A pesquisa ouviu 2 mil brasileiros com 18 anos ou mais, das classes A, B e C, entre 22 de junho e 16 de julho de 2026. As entrevistas foram realizadas por meio de painel online da Ipsos.
Fim da escala 6×1 tem apoio de 73%
Segundo a pesquisa, 73% apoiam o fim da escala 6×1, com jornada semanal de 40 horas e sem redução de salário. O apoio à mudança ultrapassa as divisões políticas. Mesmo entre entrevistados que se opõem ao governo, 60% são favoráveis à proposta, indicando que a redução da jornada encontra respaldo para além da base governista.
Para Rossi, o resultado deve ser entendido também a partir da qualidade dos postos de trabalho disponíveis no país. “As pessoas têm emprego. O Brasil está com a taxa de desemprego muito baixa. A questão é a qualidade do emprego. Se a pessoa vai trabalhar no sábado, não vai trabalhar no sábado, aí entra a 6×1. Se a pessoa tem uma renda decente”, afirmou.
O economista avalia que resultados como o da escala 6×1 ajudam a mostrar por que determinadas pautas econômicas conseguem ultrapassar a divisão entre apoiadores e opositores do governo Lula.
“Fura a polarização e mostra que as pessoas querem uma participação do Estado que melhore a vida delas, que baixe a taxa de juros, que ajude com o programa das dívidas, que melhore o trabalho, que interfira nos preços. Então, acho que há uma demanda revitalizada por um Estado mais atuante”, concluiu.

Isenção do IR também recebe apoio
A nova regra do Imposto de Renda tem alto grau de conhecimento e é considerada relevante pela maioria dos entrevistados. Segundo a pesquisa, 81% afirmam já conhecer a isenção do IR para rendimentos tributáveis mensais de até R$ 5 mil, enquanto 19% dizem não conhecer a medida. Apesar disso, apenas 39% afirmam que a mudança se aplica a eles ou a alguém de sua residência; 49% dizem que não, 9% não sabem e 3% preferiram não responder.
Mesmo entre uma parcela que não é diretamente beneficiada, a medida recebe avaliação positiva: 69% consideram a nova regra importante ou muito importante. Outros 16% se dizem indiferentes, enquanto apenas 9% classificam a mudança como pouco ou nada importante e 7% não sabem ou não responderam.

Custo de vida é principal preocupação
O custo de vida é a principal preocupação dos brasileiros que têm uma percepção negativa da economia do país. Entre os entrevistados que deram notas de 1 a 4 para a situação econômica brasileira, 63% afirmaram que os preços e o custo de vida estão altos demais.
Os impostos aparecem logo depois, citados por 57% desse grupo. Outros 47% afirmam que salários e renda familiar não são suficientes para cobrir os gastos, enquanto 32% demonstram preocupação com a dívida pública e os gastos do governo. As taxas de juros e o custo do crédito foram mencionados por 28%, e a falta de empregos de qualidade, por 17%.

Os números ajudam a explicar outro resultado do levantamento: os brasileiros enxergam de maneira mais favorável as próprias finanças do que a situação econômica do país. Enquanto 42% avaliam positivamente sua situação financeira pessoal, 31% fazem a mesma avaliação da economia brasileira. No sentido contrário, 42% enxergam negativamente a situação econômica nacional, contra 32% que consideram ruins as próprias finanças.
A renda também interfere nessa percepção. Segundo a Ipsos, quanto maiores a faixa de renda e a classe social dos entrevistados, maior é a avaliação positiva tanto da situação financeira pessoal quanto da economia brasileira. Nas faixas mais altas, também aumenta a distância entre a avaliação das próprias finanças e a percepção sobre o país.

Percepção da economia varia conforme posição política
O levantamento aponta ainda uma forte relação entre a avaliação da economia e a aprovação do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Entre os que aprovam o governo, 59% avaliam positivamente a situação econômica do Brasil. O percentual cai para 14% entre aqueles que desaprovam a gestão. Já a situação financeira pessoal é considerada positiva por 55% dos que aprovam Lula e por 35% dos que desaprovam.
A diferença também aparece quando os entrevistados são separados pelo histórico eleitoral. A pesquisa considera como eleitores “consistentes pró-PT” aqueles que disseram ter votado em Fernando Haddad em 2018 e em Lula em 2022. Já os “consistentes contra o PT” são os que declararam voto em Jair Bolsonaro nas duas eleições.
Entre os entrevistados que avaliam negativamente a economia, os problemas destacados variam conforme esse histórico. Eleitores consistentes pró-PT apontam principalmente custo de vida e insuficiência dos salários, enquanto aqueles que votaram contra o partido dão maior peso aos impostos e à dívida pública.