O Produto Interno Bruto (PIB), principal indicador usado globalmente para medir o progresso econômico, há décadas é alvo de críticas por sua incapacidade de refletir dimensões mais amplas do bem-estar humano. Embora registre a produção e o consumo de bens e serviços, o índice não considera impactos ambientais, desigualdade social ou qualidade de vida.
Na prática, o PIB pode crescer mesmo em contextos de degradação ambiental, aumento da pobreza ou fragilização de direitos básicos, o que alimenta debates sobre a necessidade de métricas mais abrangentes.
O debate ganhou novo impulso com a criação, pela Organização das Nações Unidas (ONU), de um grupo de especialistas encarregado de desenvolver indicadores que complementem — e não substituam — o PIB.
Intitulado “Contando o que Conta: Uma Bússola de Progresso para as Pessoas e o Planeta”, o relatório responde a um mandato dos Estados-membros da ONU no âmbito do Pacto pelo Futuro para desenvolver um arcabouço de indicadores de aplicação universal que complementam e vão além do PIB. O arcabouço foi apresentado na última assembleia geral sobre o tema, realizada em maio.
O resultado do trabalho é um painel com 31 métricas globais, organizadas em quatro grandes eixos: paz e direitos humanos, sustentabilidade ambiental, qualidade de vida e desigualdade. O conjunto inclui desde percepções de segurança em comunidades até indicadores de concentração de riqueza e mortalidade relacionada a conflitos.
Segundo o secretário-geral da ONU, António Guterres, a proposta busca corrigir uma limitação estrutural do modelo atual. “O PIB é o indicador mais utilizado para medir o progresso econômico e o bem-estar. Continuará a ser um indicador importante. Mas não pode ser o único. Por definição, o Produto Interno Bruto oferece uma imagem clara e concisa da produção de um país baseada no mercado. Sua abrangência é deliberadamente restrita. Mas está sendo utilizado atualmente de uma maneira que seus formuladores nunca tiveram a intenção.”
Já a copresidente do Grupo de Especialistas de Alto Nível, Nora Lustig, disse que “o PIB ignora a desigualdade e a pobreza. Ele não capta a degradação ambiental. Ele não considera dimensões não monetárias do bem-estar, como saúde, educação e paz”.
Um painel mais enxuto e operacional
O novo sistema foi apresentado como uma alternativa mais concisa a estruturas anteriores de monitoramento global, como os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). A proposta é oferecer um conjunto de indicadores mais direto e aplicável para orientar políticas públicas.
O relatório também defende que os dados possam ser incorporados gradualmente por governos, permitindo maior comparabilidade internacional e uso prático na formulação de decisões econômicas e sociais.
Divergências sobre formato e aplicação
Apesar do avanço institucional, a proposta enfrenta resistência. Parte dos países e representantes internacionais demonstra preocupação com a possibilidade de fragmentação de métricas e aumento da complexidade na coleta de dados, especialmente em nações com menor capacidade estatística.
O relatório agora será discutido pelos Estados-membros da ONU, que devem avaliar formas de implementação e possíveis usos institucionais do novo painel.
A proposta busca consolidar uma visão mais ampla de progresso global, incorporando dimensões sociais, ambientais e institucionais ao lado da produção econômica. Ainda assim, especialistas da própria comissão reconhecem que transformar o conjunto de indicadores em referência universal será um dos principais desafios.
A ONU aposta em um processo gradual de adoção, baseado no engajamento de diferentes países e na adaptação dos indicadores às realidades nacionais, sem um modelo único obrigatório.
Estrutura do Painel de Indicadores
Baseado diretamente na Carta das Nações Unidas, o painel propõe indicadores específicos organizados em quatro pilares essenciais para o bem-estar sustentável e equitativo:
- Bem-estar humano e planetário: abrange saúde, educação, trabalho e segurança, além da qualidade das infraestruturas, das instituições civis e das condições ambientais vitais.
- Equidade e inclusão: reconhece a equidade como pilar da paz e da coesão social, rejeitando a pobreza e as disparidades regionais como inevitabilidades.
- Sustentabilidade e resiliência: foca na preservação de ativos nacionais, como o conhecimento e a natureza, para garantir o progresso futuro diante de crises climáticas.
- Valores fundamentais: métricas enraizadas nos direitos humanos, na paz e no respeito pelo planeta como bases de todo o desenvolvimento.