O governo brasileiro avalia que o tarifaço imposto pelos Estados Unidos sobre produtos nacionais tende a aumentar o déficit comercial entre os dois países. A análise é do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), que acompanha de perto o impacto do chamado tarifaço.
Durante evento da Amcham Brasil nesta terça-feira (25), o vice-presidente Geraldo Alckmin reforçou que o Brasil pretende acelerar as negociações com os EUA. Segundo ele, os números do comércio bilateral mostram que as sanções não têm justificativa econômica.
Além disso, Alckmin demonstrou preocupação com a lentidão do Congresso na análise de duas propostas essenciais para apoiar empresas prejudicadas pelas tarifas adicionais.
Ao longo de 2024, as exportações brasileiras para os EUA recuaram 4%, apesar da antecipação de embarques para evitar prejuízos maiores. Já as importações de produtos norte-americanos cresceram mais de 11%, ampliando o desequilíbrio na balança comercial.
Embora os Estados Unidos tenham imposto tarifas adicionais sobre itens brasileiros, 8 dos 10 produtos que vendem para o Brasil entram com tarifa zero, o que mantém a média tarifária americana em apenas 2,7%.
“Eles só têm superávit com três países do G20, Reino Unido, Austrália e Brasil —e isso vem crescendo. Embora tenha caído a nossa exportação para os Estados Unidos, a importação cresceu mais de 11% este ano. Então não há justificativa para estas tarifas, e o trabalho vai ser redobrado agora”, disse Alckmin.
Negociações além do tarifaço
O vice-presidente mencionou também outras frentes de diálogo com o governo americano, incluindo investimentos em data centers, big techs e exploração de terras raras. Esses temas, segundo ele, podem ajudar a destravar avanços diplomáticos e comerciais.
Entre as iniciativas em espera está o PLP que cria o Reintegra Especial, oferecendo crédito de 3,1% sobre o valor exportado — ou 6,1% no caso de micro e pequenas empresas. A medida reduziria o impacto das tarifas e valeria para 2025 e 2026, mas só entrará em vigor se aprovada pelo Congresso.
Tatiana Prazeres, secretária de Comércio Exterior, alertou que quanto mais tempo o projeto demora para ser votado, menor será o benefício disponível para o setor exportador.
Representantes do Itamaraty também comentaram a investigação aberta pelos EUA contra o Brasil no âmbito da seção 301 — uma das maiores já conduzidas pelos americanos. O processo inclui temas como meio ambiente, agricultura e serviços financeiros.
A fase de envio de informações já foi concluída pelo governo e pela iniciativa privada brasileira. Agora, a continuidade depende da marcação de reuniões pelo lado americano.
Mudanças recentes aliviam parte das tensões
Na última semana, o presidente Donald Trump revogou tarifas de 40% sobre alguns produtos agrícolas, além de suspender uma tarifa de 10% que afetava itens como carne e café. Mesmo assim, uma parcela relevante das exportações brasileiras segue sob sobretaxa.
De acordo com a Amcham, os EUA são o destino de quase metade das exportações brasileiras de alta tecnologia e representam o terceiro maior mercado para o agronegócio. Além disso, são o país que mais gera empregos e paga melhores salários dentro da pauta exportadora brasileira.
Apesar das medidas recentes, o presidente-executivo da entidade, Abrão Neto, afirma que ainda há um longo caminho nas negociações. Para ele, o clima político entre os dois países melhorou significativamente, abrindo espaço para avanços, mas ainda há tarifas pesadas sobre produtos industriais brasileiros.