A escalada do conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã provocou um choque imediato nos preços do petróleo, surpreendendo mercados e governos ao redor do mundo. No caso do Brasil, porém, a reação foi menos intensa do que em outras economias — um movimento atribuído à combinação entre política energética e o peso dos biocombustíveis. A análise está em reportagem da revista The Economist, intitulada “Brasil tem uma arma secreta contra o choques do petróleo”.
“Poucos países estavam preparados para o choque do petróleo provocado pela guerra de Israel e dos Estados Unidos contra o Irã. O Brasil estava. Ao longo do último meio século, o gigante agrícola construiu a indústria de biocombustíveis mais sofisticada do mundo”, começa o texto.
A publicação aponta que o país entrou na crise em posição relativamente mais preparada, apoiado por uma das indústrias de biocombustíveis mais desenvolvidas do mundo. Esse diferencial ajudou a reduzir a exposição direta às oscilações do mercado internacional de combustíveis fósseis.
O papel da Petrobras na contenção de preços é citado pela reportagem como relevante, especialmente na absorção parcial dos custos externos. Ainda assim, o fator decisivo para limitar os impactos foi a competitividade dos combustíveis renováveis no mercado interno.
O texto cita ainda que o Brasil ocupa hoje a posição de segundo maior produtor mundial de etanol e terceiro de biodiesel. Além disso, cerca de 75% da frota de veículos leves do país é composta por modelos flex, capazes de operar com gasolina ou etanol. Esse perfil reduz a dependência de combustíveis importados e oferece maior resiliência em momentos de volatilidade.
Na prática, embora os preços tenham subido desde o início do conflito, o aumento foi mais moderado do que em outras economias. No Brasil, a alta variou entre 10% e 20%, enquanto nos Estados Unidos os reajustes chegaram a oscilar entre 30% e 40%.
Pressões persistem sobre a economia
Apesar do impacto relativamente contido, os efeitos da alta global já começam a se disseminar internamente. O diesel, em particular, tornou-se ponto de atenção por seu papel central na logística nacional, baseada majoritariamente no transporte rodoviário.
A elevação do combustível chegou a levantar temores de paralisações no setor de transporte, posteriormente descartados. Ainda assim, o encarecimento do diesel tende a gerar efeitos indiretos sobre a inflação, ao pressionar custos de frete e, consequentemente, os preços de bens de consumo.
Estratégia de longo prazo e limitações
Especialistas do setor destacam que o atual cenário reforça a importância de políticas históricas voltadas à diversificação energética. A aposta brasileira em biocombustíveis remonta ao Proálcool, criado após a crise do petróleo de 1973, e ganhou novo impulso com a introdução dos veículos flex, a partir de 2003.
A agenda também encontra respaldo político. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva é apontado como defensor do setor, enxergando nos biocombustíveis uma ferramenta para fortalecer a soberania energética, reduzir emissões e estimular a produção agrícola.
Ainda assim, há limites para essa proteção, conforme pontua a reportagem. A alta do petróleo influencia indiretamente toda a cadeia energética e produtiva. Caso o etanol se torne mais competitivo e sua demanda cresça, os preços também tendem a subir. Além disso, o encarecimento do gás natural impacta fertilizantes, elevando custos na produção agrícola.
Nesse contexto, embora os biocombustíveis não eliminem os efeitos de choques externos, funcionam como um importante colchão de amortecimento — e, em cenários de crise internacional, podem até abrir oportunidades para o setor brasileiro.