Em mais um movimento de sua agenda comercial agressiva, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou na terça-feira (22) um “acordo enorme” com o Japão, que prevê uma tarifa de 15% sobre produtos japoneses — abaixo dos 24% anunciados em abril, mas ainda acima da taxa provisória de 10% que vigorava.
Trump celebrou a abertura do mercado japonês para carros, arroz e outros produtos americanos, e afirmou que o Japão investirá mais de US$ 500 bilhões na economia dos EUA.
Em sua rede social, a Truth Social, Trump escreveu: “Acabamos de concluir um acordo enorme com o Japão, talvez o maior acordo já feito. O Japão investirá, sob minha direção, US$ 550 bilhões nos Estados Unidos, que receberão 90% dos lucros. Esse acordo criará centenas de milhares de empregos — nunca houve nada parecido. Talvez o mais importante: o Japão abrirá seu país ao comércio, incluindo carros e caminhões, arroz e certos produtos agrícolas, entre outras coisas. O Japão pagará tarifas recíprocas de 15% aos Estados Unidos. Este é um momento muito empolgante para os Estados Unidos da América, especialmente pelo fato de que continuaremos a ter um ótimo relacionamento com o Japão. Obrigado por sua atenção a este assunto!”

Após o anúncio, as ações da Toyota dispararam mais de 14% na bolsa de Tóquio nesta quarta-feira (23). Os papéis da companhia também são listados na bolsa de Londres, onde subiam mais de 6% perto das 09h, e na Bolsa de Valores de Nova York (NYSE, na sigla em inglês), na qual operava com um avanço de mais de 12% no pré-mercado.
A medida, no entanto, foi recebida com ceticismo por analistas. O Nobel de Economia Paul Krugman publicou uma análise dura contra o pacto, argumentando que o acordo, longe de resolver os problemas do comércio americano, pode agravá-los. “Ele vai aumentar, não reduzir, o déficit comercial dos EUA”, escreveu.
Krugman afirma que há uma relação direta entre o ingresso de capital estrangeiro e o déficit da balança comercial. “Não é uma teoria. É contabilidade básica. Mais investimento estrangeiro significa, necessariamente, um déficit maior.” Segundo ele, a entrada de capital japonês fortalecerá o dólar, tornando os produtos americanos menos competitivos.
Capitalismo de compadrio e choque de preços
Outro ponto criticado por Krugman é a possibilidade de que Trump influencie diretamente os investimentos japoneses nos EUA. “Estamos acelerando rumo a um capitalismo de compadrio”, disse.
Para o economista, o sucesso nos negócios passaria a depender cada vez mais de proximidade política com o governo, e não da qualidade ou competitividade das empresas.
O Nobel também alertou para os impactos sobre os consumidores. Apesar de alguns analistas apontarem que os preços ao consumidor não subiram significativamente até agora, Krugman afirma que isso se deve ao estoque antecipado de produtos antes da entrada em vigor das tarifas — e que essa margem está se esgotando. “As empresas têm absorvido o custo para não perder mercado. Mas se a tarifa de 15% persistir mesmo após o acordo, essa estratégia deixará de ser viável. O inverno da inflação está chegando.”
Acordos regionais e pressão global
Além do Japão, os EUA também anunciaram pactos semelhantes com Indonésia e Filipinas, que aceitaram abrir seus mercados e reduzir tarifas sobre produtos americanos em troca de alívio parcial nas taxas aplicadas por Washington.
A estratégia, no entanto, tem provocado desconforto entre países afetados por tarifas mais altas — como o Brasil, que enfrenta uma sobretaxa de 50% e ainda tenta negociar uma saída diplomática antes de 1º de agosto.