Depois de adiamento, UE vê apoio suficiente para acordo com Mercosul

A principal oposição segue vindo da França. Alemanha, Espanha e países nórdicos se posicionam a favor da ratificação do acordo
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A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, afirmou nesta sexta-feira (19) que existe apoio suficiente entre os Estados-membros da União Europeia para viabilizar a aprovação do acordo comercial com o Mercosul. Apesar do sinal positivo, a assinatura do tratado foi adiada e não deve mais ocorrer neste fim de semana, como inicialmente previsto.

Na quinta-feira (18), a líder do Executivo europeu informou às autoridades que o acordo não será assinado no sábado (20). A decisão foi confirmada por fontes diplomáticas e repercutida por agências internacionais. Após o anúncio, von der Leyen declarou a jornalistas que a Comissão entrou em contato com os países do Mercosul e concordou em postergar “ligeiramente” a formalização do pacto, destacando confiança na existência de uma maioria favorável à sua conclusão.

Segundo interlocutores envolvidos nas negociações, a expectativa agora é que o processo avance apenas em janeiro, o que levou agentes políticos e econômicos a revisarem suas projeções sobre o cronograma do tratado.

A Comissão Europeia pretendia concluir o acordo ainda nesta semana, o que resultaria na criação da maior área de livre comércio do mundo. O plano, no entanto, foi alterado após a Itália se alinhar à França ao pedir mais tempo de discussão e a adoção de mecanismos adicionais de proteção ao setor agrícola.

De forma geral, o acordo entre União Europeia e Mercosul prevê a redução gradual ou eliminação de tarifas de importação e exportação, além do estabelecimento de regras comuns para comércio de produtos industriais e agrícolas, investimentos e padrões regulatórios. As negociações, que se arrastam há cerca de 25 anos, ganharam novo fôlego com o início da reunião do Conselho Europeu, em Bruxelas, realizada entre quinta e sexta-feira.

França lidera resistência a acordo com Mercosul

A principal oposição ao tratado dentro da União Europeia segue vindo da França. O presidente Emmanuel Macron afirmou que o país não apoiará o acordo sem a inclusão de salvaguardas adicionais para proteger os agricultores franceses.

Segundo Macron, o texto atual não atende às demandas do setor agrícola, que teme concorrência com produtos sul-americanos mais baratos e produzidos sob regras ambientais diferentes das europeias. O presidente francês também deixou claro que se oporá a qualquer tentativa de acelerar a aprovação do pacto sem ajustes.

Em sentido oposto, Alemanha, Espanha e países nórdicos se posicionam a favor da ratificação do acordo. O chanceler alemão, Friedrich Merz, e o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, defendem que o tratado, firmado politicamente no ano passado, avance como forma de fortalecer a posição comercial da União Europeia.

Esses países avaliam que o acordo pode ajudar a mitigar os impactos de tarifas impostas pelos Estados Unidos e reduzir a dependência europeia da China, ampliando o acesso a mercados e a matérias-primas estratégicas.

A Itália segue como um ponto de incerteza. A primeira-ministra Giorgia Meloni afirmou que o país pode apoiar o acordo, desde que as preocupações levantadas pelos agricultores italianos sejam devidamente atendidas.

Segundo Meloni, o governo está disposto a assinar o tratado assim que houver respostas claras às demandas do setor agrícola, algo que depende de decisões da Comissão Europeia e poderia ser resolvido rapidamente.

Do lado sul-americano, o governo brasileiro mantém um tom otimista. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que conversou com Giorgia Meloni, que teria reiterado não ser contrária ao acordo, mas reconhecido dificuldades políticas internas.

De acordo com Lula, a premiê italiana demonstrou confiança de que conseguirá convencer os agricultores a apoiar o tratado. Para o presidente brasileiro, o impasse pode ser resolvido em poucas semanas.

Como funciona a aprovação do acordo com Mercosul

A decisão final passa pelo Conselho Europeu, responsável por autorizar formalmente a Comissão Europeia a ratificar o tratado. Diferentemente do Parlamento, o Conselho exige maioria qualificada: o apoio de ao menos 15 dos 27 países do bloco, que representem 65% da população da União Europeia.

É justamente nessa etapa que se concentra o maior risco político para o avanço do acordo. Embora o debate público esteja focado no agronegócio, o tratado é mais amplo e inclui setores como indústria, serviços, investimentos, propriedade intelectual e cadeias produtivas — o que explica o apoio de parte significativa do empresariado europeu.

Com o adiamento, a expectativa de uma viagem de Ursula von der Leyen ao Brasil para formalizar o acordo ainda neste ano foi descartada, empurrando a decisão final para 2026.

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