Por Raphael Sanz – Sul 21
As campanhas eleitorais começam oficialmente no próximo domingo (16) em todo o país, mas em alguns estados os principais candidatos aos governos estaduais já se encontraram em debates televisivos e embates de pré-campanha. É o caso de Santa Catarina, que na noite do último sábado (8) pôde acompanhar pelas telas da NDTV (filial local da Record) um primeiro encontro entre alguns dos candidatos.
Por um lado, o debate ficou marcado pelas ausências. Seja a do atual governador Jorginho Mello (PL), que tenta reeleição, seja de quatro candidaturas cujos partidos não alcançam o nível mínimo de representação social e política para estarem presentes: Brunno Andrade (PCO), Laís Chaud (UP), Marcus Sodré (PSTU) e Marcelo Brigadeiro (Missão). No fim das contas, menos da metade dos candidatos se apresentou ao público nessa primeira oportunidade.
Por outro lado, é possível entender a partir da ausência do governador e das três presenças – Gelson Merísio (PSB), João Rodrigues (PSD) e Ralf Zimmer (PRD/Solidariedade) – a dinâmica em que se encontram os principais grupos políticos catarinenses em 2026 e como se dividem entre os partidos.
Jorginho Mello (PL) é o grande favorito a vencer as eleições e ser reconduzido ao cargo em outubro. Já lidera as pesquisas. A mais recente, do Instituto Catarinense de Pesquisas (IPC), foi divulgada há quase um mês e o mandatário teve 53,3% das intenções de votos. Seu principal adversário, João Rodrigues, tem 26,2% e a tarefa de levar o pleito para o segundo turno. Gelson Merísio, candidato da esquerda, obteve 8,6% das intenções de votos.
Na pesquisa espontânea a diferença caiu: 42,7% para Jorginho e 18,5% para Rodrigues. Não houve mais pesquisas divulgadas uma vez que três outras consultas foram suspensas pela Justiça Eleitoral após ações protocoladas pelo PSD. A pesquisa do Instituto Veritá foi suspensa em 11 de junho porque listava sete cidades do Maranhão na sua amostragem. Segundo o instituto houve um equívoco no arquivo enviado à Justiça Eleitoral. Outras pesquisas suspensas foram a da Futura Inteligência com a 100% Cidades, em 12 de junho, e uma do Instituto Mapa, contratada pela Jovem Pan News, em 27 de julho.
No entanto, apesar da liderança aparentemente folgada, o jogo não está ganho para o governador. Diferente das últimas eleições, ele perdeu importantes apoios nesse ano que acabaram migrando e construindo a viabilidade de João Rodrigues (PSD), seu principal adversário. Ambos disputam a liderança da direita catarinense, enquanto Ralf Zimmer corre por fora nessa mesma contenda.
Por outro lado, a esquerda aposta numa figura menos ligada ao próprio campo a fim de unificar o que chama de “campo democrático” – Gélson Merísio inclusive tem uma trajetória mais próxima do centro e da direita do que do lulismo.
Segundo fontes ouvidas pela reportagem, a ideia era não incluir o PT na majoritária para evitar desgaste com setores antipetistas da sociedade, com o partido presente nas candidaturas ao Senado. Além disso, a campanha aposta numa retórica que busca nacionalizar a disputa com o mote de recolocar Santa Catarina no Brasil, uma vez que a última gestão teria trabalhado em sentido contrário, especialmente na sua reconhecida má relação com o Governo Federal.

Castelo de cartas
Quatro anos atrás, após ganhar notoriedade entre eleitores de direita de todo o país por conta da sua participação na CPI da Covid19, Jorginho Mello se candidatou ao governo e foi para o segundo turno contra Décio Lima (PT). A união da direita catarinense em torno da sua figura aconteceu quase que por osmose. Ele conseguiu os apoios dos principais grupos políticos catarinenses representados pelos candidatos que ficaram pelo caminho: o PP do senador Esperidião Amin, além do Republicanos e do MDB que compunham a chapa do então governador Carlos Moisés.
Uma vez eleito com mais de 70% dos votos, Jorginho teve habilidade política o suficiente para manter os apoiadores contentes na sua base, com ampla oferta de indicações a secretarias e cargos no primeiro escalão do Estado. Só que essa articulação não sobreviveria até a montagem da chapa para as eleições deste ano.
A primeira baixa foi do MDB, partido com o maior número de filiados no Estado. Os emedebistas esperavam ocupar a posição de vice na chapa do governador, uma vez que o mesmo já teria feito sinalizações públicas nesse sentido. Mas Jorginho preferiu anunciar Adriano Silva, ex-prefeito de Joinville do Partido Novo, gerando a publicação de uma carta aberta do deputado federal Carlos Chiodini, presidente do MDB-SC, expondo o desconforto da sigla.

“Isso não é estratégia. Isso é apequenamento. É preciso dizer com todas as letras: o MDB não nasceu para ser figurante. Não nasceu para aceitar migalhas. Não nasceu para ser linha auxiliar de um governo que não nos respeita, não na minha gestão como presidente”, escreveu Chiodini no documento divulgado durante evento de Jorginho com prefeitos emedebistas que mantinham seus apoios ao governador.
As chapas estaduais têm duas pontas: o vice-governador e os candidatos ao Senado. E se numa ponta Jorginho perdeu o apoio do maior partido catarinense, na outra ponta deixou escapar outro importante aliado, o PP do senador Esperidião Amin.

Amin esperava ser o principal nome na disputa pelas duas vagas catarinenses ao Senado. Sua busca pela reeleição junto ao mandatário era vista como praticamente encaminhada levando em conta as sinalizações prévias do governador. No entanto, tudo mudou quando o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) exigiu que seu segundo filho, o fluminense Carlos Bolsonaro, fosse um dos candidatos. Ao acatar a demanda, Jorginho empurrou Esperidião Amin a disputar uma segunda vaga com Caroline de Toni, deputada federal que recebe amplo apoio do agronegócio e do eleitorado local – foi a mais votada em 2022.
Ninguém queria ficar de fora da disputa. Bolsonaro tentou manter De Toni na sua cadeira de deputada, mas a parlamentar ameaçou deixar o partido quando ouviu de Valdemar Costa Neto que não seria a escolhida. A disputa saiu da imprensa e ficou restrita aos meios internos do PL. Algumas semanas depois, o partido anunciou Carlos e Caroline como candidatos, preterindo Amin.

Quem é o bolsonarista mais “raiz”?
A política não permite certas brechas. E a dificuldade em equilibrar seus apoios fez Jorginho Mello abrir espaço para o seu principal adversário construir uma candidatura com alguma chance de vitória. João Rodrigues era prefeito de Chapecó até abril, quando deixou o cargo para concorrer ao governo, e um dos políticos mais experientes do PSD catarinense. Apoiado por setores do agronegócio local, já teve inúmeros mandatos como vereador, deputado federal e estadual. Na prefeitura, foi eleito em 2020 e reeleito em 2024, mas já tinha sido prefeito de Pinhalzinho no início do século. Além disso, também fez carreira como radialista, o que explica sua desenvoltura no debate do último final de semana.
Rodrigues não perdeu tempo. Ao ver as brechas se abrindo, rapidamente chamou o MDB para conversar e articulou as entradas de Carlos Chiodini como seu vice e Antídio Lunelli para uma das vagas ao Senado – a outra vaga, é claro, seria de Esperidião Amin. Lunelli é um nome importante do MDB local. Embora menos conhecido nacionalmente, foi prefeito de Jaraguá do Sul por dois mandatos (2016-2022) e o terceiro deputado estadual mais votado naquele ano. O único revés para Rodrigues nessa composição foi o do prefeito de Florianópolis, Topázio Neto, que manteve o apoio a Jorginho e então deixou o PSD.
A principal disputa entre Jorginho Mello e João Rodrigues é sobre quem será o nome da direita e do bolsonarismo em Santa Catarina no próximo período. Se por um lado o governador deixou escapar os apoios dos setores que lhe garantiram ampla vitória, por outro lado, a adesão a Carlos Bolsonaro e a composição com o Novo indicam a disputa pela direita. Rodrigues, por sua vez, sabe que tem chances com os novos apoios, mas que ainda está longe de equilibrar a balança, então reforça uma retórica que aproxima Jorginho da esquerda e se coloca como alguém consolidado na direita catarinense.

“Analise bem: eu, Jorginho Mello e Gelson Merísio, em tese seríamos todos do mesmo grupo político. Só que o xadrez se mexeu e só eu fiquei onde estou. O Jorginho, em 2014, era cabo eleitoral da Dilma. Participou do governo, indicou cargos comissionados, era membro do governo da presidente Dilma – e eu, adversário. Fui um dos líderes do PSD no impeachment, contrariando a orientação do presidente nacional do partido, o Gilberto Kassab, porque eu tinha um entendimento à época de que isso era o melhor. Naquela época o Jorginho estava com a Dilma – e depois apoiou o impeachment, é verdade – e Merísio era bolsonarista. Agora o cenário muda: Jorginho vira bolsonarista e Merísio vira lulista. O jogo se mexeu, mas eu permaneço onde estou”, declarou João Rodrigues dias atrás à Rádio Clube FM, de Blumenau.
A coligação Santa Catarina Acima de Tudo, de João Rodrigues, é formada por PSD, MDB, União Brasil e PP. O nome da coligação, em clara alusão ao lema de Jair Bolsonaro em 2018 (Brasil Acima de Tudo), dá a linha da disputa pela cabeça da direita catarinense. Entre os apoiadores interestaduais também é possível notar o racha: Ronaldo Caiado e Gilberto Kassab estiveram no lançamento da chapa no início do mês. Jorginho, por sua vez, lançou sua chapa com a presença de Flávio Bolsonaro e em coligação do PL com Podemos, Republicanos, Novo, Federação PSDB-Cidadania e Democracia Cristã.
Ainda na disputa pelas rédeas do bolsonarismo, Ralf Zimmer (PRD) é quem corre por fora. Defensor público do Estado que ganhou notoriedade em 2020 como um dos autores do pedido de impeachment contra o ex-governador Carlos Moisés, agora se candidata ao mesmo cargo com um discurso anticorrupção e de fiscalização das contas públicas que lembra figuras do lavajatismo. Ainda novo no cenário político e com apoios de menor prestígio que seus adversários, não deve ter muitas chances nesse ano.
Ainda assim, durante o debate do último sábado, foi notória a tentativa de Zimmer em disputar os espólios do bolsonarismo com Rodrigues. Em dado momento, o candidato do PSD chegou a chamar o adversário de “papagaio do Jorginho”, gerando uma discussão momentânea.
Esquerda tenta driblar antipetismo
Gelson Merísio, hoje no PSB, é um empresário do Oeste catarinense com uma trajetória política que inicia muito próxima do que convencionou-se chamar centrão e também de setores conservadores, como apontou seu adversário João Rodrigues na entrevista referenciada acima. Sua aproximação com as esquerdas é relativamente recente.
Merísio foi vereador em Xanxerê entre 1998 e 2005, ano em que assumiu mandato como deputado estadual para o qual foi reeleito três vezes (2006, 2010 e 2014). Nas eleições de 2018, concorreu ao governo de Santa Catarina pelo PSD e avançou ao segundo turno, no qual saiu derrotado por Carlos Moisés, à época no PSL de Bolsonaro. Em 2022, iniciou sua aproximação da esquerda quando foi chamado para coordenar a campanha de Décio Lima (PT), que conseguiu chegar ao segundo turno. Sua filiação recente ao PSB completa a transição ideológica do candidato.

Merísio teve habilidade em unir os principais setores da esquerda local na construção da chapa. Como vice, Ângela Albino, importante quadro do PDT local, que soma no seu currículo um mandato como vereadora de Florianópolis e algumas campanhas para os cargos de prefeita da Capital e deputada federal e estadual. Entre os seus candidatos ao Senado estão o próprio Décio Lima (PT) e Afrânio Boppré (PSOL), economista e vereador de Florianópolis desde 2013.
“Com a sinceridade do meu coração, estou me sentindo em casa, estou me sentindo acolhido. Estou feliz por ter aceitado a missão que foi incumbida pelo presidente Lula”, declarou Merísio durante o lançamento da sua candidatura. Na mesma ocasião, ele reconheceu sua proximidade histórica com a centro-direita, mas disse que hoje vê que as políticas lulistas seriam “as que mais contribuem para reduzir as desigualdades e fazer o país crescer”.
A principal aposta da frente de esquerda é reunir aquilo que entende como “campo democrático”, ou seja, todos os setores que ficaram de fora do campo de direita – já absorvido pelo bolsonarismo no Estado. “UP, PCO e PSTU não se alinharam e agora fazem a oposição da oposição”, resumiu a fonte ouvida pela reportagem.
Por fim, dado o apoio do presidente Lula, uma das táticas de campanha que parecem já estar desenhadas é a da nacionalização da disputa. Isso parte de uma crítica ao atual governador que não mantém boa relação com o Governo Federal e de uma percepção de que a imagem de Santa Catarina ganhou contornos muito negativos diante do resto do Brasil nos últimos períodos.