Por Paulo Pereira*
A euforia e as expectativas de vitória do peronismo têm razão de ser. Nas eleições legislativas estaduais em Buenos Aires, realizadas em 7 de setembro, a coalizão peronista venceu com uma vantagem de 13 pontos — um resultado que consolidou a liderança do governador Axel Kicillof e confirmou o acerto de sua estratégia ao desdobrar o calendário eleitoral das nacionais. Agora, porém, o país inteiro volta às urnas no próximo domingo (26): cerca de 36 milhões de argentinos estão convocados a escolher 127 novos deputados nacionais e 24 senadores, em uma disputa crucial para o futuro do governo de Javier Milei e para o equilíbrio de forças no Congresso.
O resultado será decisivo para o futuro de Milei: se o La Libertad Avanza e o PRO do ex-presidente Mauricio Macri, coligados em nove distritos, perderem terreno, o discurso de ruptura com a “casta política” poderá revelar seus próprios limites. A promessa de demolir o establishment pode transformar-se em vulnerabilidade, abrindo espaço para uma paralisia institucional que aprofunde a crise econômica e social do país levada adiante pela política de motosserra do presidente libertário. No fundo, o que se disputa é a capacidade de sobrevivência de um governo que fez do confronto e da antipolítica sua identidade e que hoje também se inscreve em um tabuleiro de tensões geopolíticas.
Nas últimas semanas, os Estados Unidos anunciaram um pacote de apoio financeiro de até US$ 20 bilhões à Argentina, ampliável para US$ 40 bilhões, em operações de swap cambial e mecanismos de liquidez, sob o argumento de estabilizar a economia. O próprio Milei admitiu que o empréstimo “é uma questão de geopolítica”, e Donald Trump — que apadrinhou politicamente o presidente argentino — foi ainda mais explícito: declarou que o apoio de Washington dependerá do resultado das eleições legislativas. Em outras palavras, a Casa Branca e o trumpismo apostam na vitória de Milei como peça estratégica de sua influência sobre o Cone Sul.
Enquanto o mundo volta os olhos para Buenos Aires e para as eleições legislativas que definirão o destino de Javier Milei, talvez o movimento político mais interessante da Argentina esteja acontecendo longe da capital. Em meio à crise de identidade e à perda de espaço do peronismo que, desgastado e fragmentado, vê emergir novas lideranças vindas de fora de suas estruturas tradicionais, começam a despontar sinais de uma renovação política mais profunda no interior do país.
Um dos epicentros dessa transformação é Santa Fe, o terceiro maior colégio eleitoral da Argentina e coração produtivo do país, terra de soja, indústria e cooperativas, mas também marcada pela desigualdade e pela violência urbana. Foi lá que Milei conquistou 62,8% dos votos no segundo turno de 2023, apoiado por um aliado de peso: o governador Maximiliano Pullaro, que tenta sustentar o projeto libertário a partir de sua própria base de poder. Sua esposa, Gisela Scaglia, é hoje a principal candidata da direita à Câmara dos Deputados.
Mas o cálculo político de Milei e de Pullaro pode ser abalado por uma reviravolta. O peronismo, mesmo em crise, conseguiu construir em Santa Fe uma lista de unidade liderada por Caren Tepp, tendo Agustín Rossi, ex-ministro da Defesa no governo de Cristina Kirchner, ex-chefe de gabinete do governo Alberto Fernández e figura clássica da política rosarina, em segundo lugar na lista da Fuerza Patria. A decisão de Rossi de ceder a cabeça de lista não foi simples: pressionado por um cenário adverso e pelo risco de derrota, o peronismo acabou reconhecendo em Tepp a única liderança capaz de mobilizar o eleitorado e enfrentar, com chances reais, tanto a extrema direita de Javier Milei quanto a direita provincial ligada a Pullaro.
A trajetória de Tepp, forjada nas lutas sociais e estudantis, sintetiza o que resta de vitalidade no campo popular argentino em tempos de crise de representatividade. Sua candidatura expressa uma aposta geracional e simbólica na renovação, e já mostrou força nas urnas: foi sob essa mesma lógica de renovação que Juan Monteverde, casado com Tepp, derrotou o governo municipal e provincial nas eleições de junho. Se confirmar seu avanço, sua ascensão pode se tornar o fenômeno mais transformador da política argentina em 2025
A política que nasceu das ruas
Aos 37 anos, Tepp representa um tipo de liderança que Buenos Aires ainda não entendeu. Formada em Relações Internacionais, militante estudantil e feminista, ela ajudou a fundar o Ciudad Futura, um partido de esquerda conectado com as demandas deste tempo, feminismo, meio ambiente, economia solidária e democracia direta e que nasceu das periferias de Rosário no início da década passada. Mais do que um partido, o Ciudad Futura é um experimento social e político que mistura cooperativas, projetos culturais, hortas urbanas, economia solidária e uma rede de ativismo local.
Em vez de disputar espaço nas estruturas tradicionais, como o tradicional Partido Socialista que governou o Estado ou o peronismo que tem figuras de expressão nacional na cidade, o grupo construiu o seu próprio campo de poder. Transformou terrenos abandonados em centros comunitários, ocupou a política municipal com práticas horizontais e, pouco a pouco, foi elegendo vereadores e legisladores provinciais. Tepp foi uma das primeiras vereadoras do movimento e, desde então, sua atuação se destacou pela capacidade de traduzir pautas sociais em políticas públicas concretas.
Sua campanha atual não se parece com as dos grandes partidos. Sem padrinhos políticos, financiadores de peso e sobrenomes do poder, ela percorre o interior em caravanas, organiza assembleias populares e aposta numa comunicação de proximidade. A estética da campanha mistura cultura popular, feminismo e esperança — um contraste radical com o discurso agressivo e tecnocrático de Milei.
Um voto, três derrotas
O que torna a eleição em Santa Fe particularmente simbólica é que uma eventual vitória de Caren Tepp representaria três derrotas simultâneas: a do peronismo tradicional, a da direita provincial e a da extrema direita nacional.
O peronismo de Agustín Rossi tenta resistir, mas envelheceu — e é justamente por isso que Santa Fe pode se converter no laboratório de uma nova política argentina. Do outro lado, a direita de Maximiliano Pullaro governa o estado, controla boa parte das prefeituras e dos meios de comunicação locais. É a chamada direita “moderada”, que hoje funciona como sustentação política para Javier Milei, tentando equilibrar o discurso do ajuste fiscal com uma aparência de institucionalidade. A candidatura de Tepp ameaça diretamente essa hegemonia, especialmente em Rosário, onde a violência urbana e o narcotráfico transformaram-se em temas centrais do debate público.
E, acima de todos, está Milei, que vê em Santa Fe um campo de teste para sua capacidade de expansão territorial. Uma derrota ali significaria mais do que perder cadeiras: seria perder o controle simbólico sobre o interior produtivo — uma das bases de sua retórica antipolítica.
O laboratório de uma nova política
A força de Caren Tepp não nasce apenas da rejeição aos velhos partidos, mas da construção paciente de uma nova gramática política, que o movimento Ciudad Futura desenvolve há mais de uma década. É uma política que vai além das urnas — enraizada na vida comunitária.
Em Rosário, o movimento administra centros culturais, promove experiências de urbanismo social e articula uma rede de economia solidária que conecta produtores locais, artistas e trabalhadores informais. Trata-se de uma política feita de baixo para cima — literalmente — que agora tenta transbordar para o Congresso nacional.
Sua candidatura incomoda porque desafia os alicerces da política profissional. Tepp fala em “governar com o povo” não como slogan, mas como método: defende mandatos com controle social e campanhas financiadas coletivamente. O êxito de sua trajetória desafia o cinismo dominante e demonstra que, mesmo em tempos de antipolítica, ainda é possível construir alternativas populares com credibilidade e esperança.
O que está em jogo
As eleições legislativas argentinas, que deveriam ser uma disputa de cadeiras, tornaram-se um plebiscito sobre o futuro do país. Para Milei, o resultado será medido em força parlamentar. Para Caren Tepp, será medido em esperança.
Se o Ciudad Futura confirmar o favoritismo em Santa Fe, o impacto será profundo. Não apenas porque derrotará as máquinas locais, mas porque simbolizará o início de um novo ciclo político: o ciclo das periferias contra os centros, das redes contra as estruturas, da solidariedade contra o individualismo.
E é por isso que, nas próximas semanas, enquanto os analistas discutem a governabilidade de Milei e os mercados medem o risco-país, talvez o verdadeiro sinal de mudança venha de um lugar que poucos estão observando: as urnas de Santa Fe.
Caren Tepp chegará à Câmara dos Deputados e não mudará a Argentina, ninguém muda sozinho. Mas sua trajetória indica que há um país subterrâneo, teimoso e criativo, disposto a reconstruir a política em outro idioma. Assim como Néstor Kirchner, que surgiu como um ilustre desconhecido da longínqua província do sul, Santa Cruz, e venceu as eleições presidenciais com apenas 22% dos votos em 2003, o resto, como se sabe, é história.
Talvez o futuro do país não esteja nas elegantes avenidas de Buenos Aires e nos escritórios dos grandes políticos da capital, mas nas ruas poeirentas do interior argentino. E talvez a derrota de Milei e, por extensão, da onda ultraliberal que Trump simboliza comece exatamente ali: onde a política ainda é feita cara a cara, com o povo, e não contra ele.
* Paulo Pereira é jornalista brasileiro, graduado pela PUC-Campinas e mestre em Cinema pela Fundación Universidad del Cine de Buenos Aires, onde vive há 12 anos