Há três tipos de convivas que orbitam em torno dos núcleos de poder que provocam repulsa no presidente Luiz Inácio Lula da Silva:
- os arautos das más notícias;
- os profetas do apocalipse;
- e os engenheiros de obra feita.
“Se for me trazer informação ruim, proponha já uma solução”, costuma dizer o petista, de maneira proverbial, aos neófitos do convívio com ele.
Durante e depois do debate da Band, no último domingo, Lula se viu cercado dos três espécimes que detesta. Deixou os estúdios da TV Bandeirantes, no bairro do Morumbi, Zona Sul de São Paulo, irritado e determinado a ter performance bem diferente no derradeiro e decisivo. O presidente, candidato à reeleição, suspeitava ter saído vencedor no embate – o que depois foi confirmado por pesquisas qualitativas – mas, não queria tê-lo sido pelo “Teorema de Cristóvam”. Gostaria de ter tido um desempenho de tratos, o que não ocorreu.
Em 1998, candidato à reeleição ao governo do Distrito Federal pelo PT, o engenheiro e economista Cristóvam Buarque, um intelectual preparadíssimo, chegou ao último debate do segundo turno contra o fazendeiro populista e já septuagenário, Joaquim Roriz, com cinco a sete pontos percentuais à frente do antagonista nas pesquisas de intenção de voto. Surfando em todos os diferenciais competitivos que tinha, sobretudo o preparo intelectual, Cristóvam, ex-reitor da UnB, massacrou Roriz em todos os enfrentamentos no vídeo. Em dado momento, soou arrogante e até “etarista”, conceito ainda não em voga. Quatro dias depois do debate Roriz superou Cristóvam Buarque por escassa margem de 1% dos votos.
AS RECLAMAÇÕES DE LULA
No último domingo, enquanto se deslocava da Band para casa, Lula imprecava contra a própria desconcentração no embate, reclamava do media training recebido, da péssima orientação que lhe foi dada em torno das regras e exigia mudança drástica para o embate na TV Globo, dia 23 de outubro. Contudo, ele tinha certeza que, quando assentassem as imagens e os trechos – mesmo editados – do MMA ocorrido nos estúdios da Bandeirantes, o saldo seria favorável a si.
Asquerosamente agressivo, nervosamente implicante, incoerente com seu prontuário de quem tangencia as milícias e flagrantemente despreparado para falar de projetos de governo ou ideias administrativas novas, Flávio Bolsonaro não tinha como colher dividendos eleitorais do programa. Relatos parciais de grupos de pesquisas qualitativas que foram sendo passados ao presidente firmavam a tese. Aquilo o tranquilizou. Porém, exigiu mudanças profundas para a subida ao ringue no Projac.
Lula não quer sua assessoria gritando, da plateia, durante o debate. Na Band, isso ocorreu mais de uma vez, desconcentrou-o, e se deu porque não lhe havia sido explicado que apenas os candidatos pediam direito de resposta. Como o ministro Sidônio Palmeira, da Secom, e o advogado Marco Aurélio Carvalho, coordenador da campanha em São Paulo, intercederam diretamente contra a bancada de mediadores, o presidente se confundiu em relação às regras e perdeu ao menos duas oportunidades de pedir e obter direito de resposta.
O petista também ficou visivelmente irritado com a estratégia moleque, mas eficaz, adotada por Flávio Bolsonaro para desconcentrá-lo já no primeiro bloco e antes mesmo do início do programa: o desfile em bando, ou em formação de quadrilha, do adversário com o coach condenado Pablo Marçal, o ex-juiz, senador e governador eleito do Paraná, Sérgio moro, o ex-procurador Deltan Dallagnol com uma ridícula camiseta onde se lia “eu prendi o Lula” e os azougues-mirins e sempre desqualificados Nikolas Ferreira e Lucas Pavanato atuando como agentes provocadores nas franjas do palco. “Falhamos absurdamente no quesito trincheira. Fomos para a batalha sem cuidar da retaguarda, e isso é imperdoável”, penitenciou-se um deputado federal eleito pelo PT, em São Paulo, na segunda-feira.
PREPARO INTENSO E EXPECTATIVA PARA 6ª
O debate da Rede Globo será dividido em três blocos:
- No 1º deles, candidato pergunta a candidato sobre problemas das cinco regiões do país, com a ordem entre elas definidas por sorteio. Todas as regiões serão abordadas.
- No 2º bloco, sorteio de temas previamente escolhidos pela produção da emissora (Saúde/SUS; Educação/Escolas de ensino Integral; Empreendedorismo/Fomento a micro e Pequenas empresas etc) e perguntas de candidato a candidato – com réplicas e tréplicas.
- No 3º bloco, perguntas de candidato a candidato com tema livre e banco de tempo até as considerações finais.
Em razão do melancólico e criminoso desempenho de Flávio Bolsonaro na Band, tendo se recusado a responder todas as perguntas que lhe foram dirigidas e modificando o tema central das questões feitas a ele, o núcleo jurídico e de marketing da campanha do Partido dos Trabalhadores pleiteou a ação de agências de fact-checking (checagem expressa de mentiras) durante o debate. Entretanto, a turma que teve essa ideia não sabe como implementá-la sem interromper o fluxo do debate e arrastar a duração do programa – que não pode ultrapassar a meia-noite de acordo com a Lei Eleitoral. Também não se tem noção de qual das agências de checagem expressa seria usada – a maioria delas orbita em torno do núcleo conservador da mídia tradicional, o que poderá redundar em nova má estratégia.
“O que nós precisamos é a volta do Lula do Velho Testamento: rápido no gatilho, atento às perguntas, irônico, ágil como nenhum outro político da dimensão dele na história do Brasil”, diz o deputado petista que se autopenitenciou para o candidato à reeleição em razão da falha na articulação da trincheira de contenção aos extremistas que acompanharam o adversário radical à TV Bandeirantes. “Temos condição de sacramentar a virada durante o debate da sexta-feira, pois a cretinice de Flávio Bolsonaro ficou evidente ao longo de todo esse segundo turno curto e intenso”.