Por Carolina Martins
O primeiro dia do Despertar 2026 teve um dos momentos mais aguardados do evento: a roda de conversa com Maria da Penha, símbolo da luta contra a violência doméstica no Brasil. Ao lado das jornalistas Laura Kotscho, Heloisa Villela, Gabriela Varella e Roberta Garcia, a ativista falou sobre o início da sua história, a rede de proteção que ainda falta ao país e a prisão do seu agressor, recentemente detido por descumprir uma medida protetiva.
Leitura a quatro vozes
Como nada melhor que a própria pessoa para contar sua história, antes da entrada de Maria da Penha, as jornalistas fizeram um aquecimento com trechos de “Sobrevivi… Posso contar”, livro publicado por ela em 2010 pela Editora Armazém da Cultura. A obra conta como ela sobreviveu à violência doméstica, em um caso que chegou à esfera internacional e levou à criação da Lei nº 11.340/2006, a Lei Maria da Penha.
A leitura começou do meio da plateia, com Heloisa. “Como vivíamos de aparências, quem iria acreditar que as nossas desavenças eram tão profundas? Se eu tivesse morrido, quem sabe, até a minha própria honra estaria sendo maculada, já que são esses os mecanismos peculiares dos assassinos de mulheres, dos covardes que se autodenominam desonrados, mas são cruéis agressores criminosos.” Gabriela seguiu com a passagem sobre as mulheres mortas por companheiros e ex-companheiros, e Roberta escolheu o trecho que descreve o ciclo da violência doméstica:
“A violência doméstica contra a mulher obedece a um ciclo devidamente comprovado e se caracteriza pelo pedido de perdão que o agressor faz à vítima, prometendo que nunca mais aquilo vai acontecer. Nessa fase, a mulher, mimoseada pelo companheiro, passa a acreditar que a violência nunca mais vai acontecer. Foi num desses instantes de esperança que eu engravidei mais uma vez.”
Coube a Laura ler o trecho sobre a criação da lei, em 2006, e sobre as tentativas de questioná-la na Justiça. Para ela, o livro, apesar de ser de 2010, continua atual. “Estamos em 2026 e parece que tudo isso foi escrito ontem.”
A conversa passou então pelos avanços, ainda que lentos. Heloisa citou o Pacto contra o Feminicídio, programa do governo federal que busca envolver todos os poderes, o Judiciário em especial. Gabriela notou que, pela primeira vez, o feminicídio é tratado com a seriedade devida no debate eleitoral. Laura lembrou que 2025 foi um ano de recorde: mais de 1.500 mulheres foram assassinadas por serem mulheres, quatro por dia.
Os dados oficiais confirmam a dimensão do problema. Segundo o 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública (2026), que reúne os números referentes a 2025, o Brasil registrou 1.571 vítimas de feminicídio no ano, o maior número da série histórica apresentada no documento. Além disso, 44,4% dos homicídios de mulheres em 2025 foram classificados como feminicídios, o maior percentual desde 2015, quando o crime passou a integrar o Código Penal como qualificadora do homicídio.
“A gente precisa olhar para esse problema agora e tratar com a seriedade que ele merece”, disse Gabriela.
Foi com uma frase de Roberta que Maria da Penha chegou ao palco: “Em nome de todas as mulheres vivas deste país, por favor, dona Maria da Penha.”
“Eu vivia pisando em ovos”
Diante da pergunta de Gabriela sobre o que permanece da mulher que viveu duas tentativas de feminicídio nos anos 1980, Maria da Penha respondeu que é fruto do movimento de mulheres. Foram elas que a acolheram quando se descobriu que não houvera um assalto à sua casa, mas uma tentativa de homicídio. Na época, lembrou, o termo feminicídio nem existia.
Não vinha de uma família violenta e, por isso, não entendia por que vivia com medo. “Eu vivia sempre pisando em ovos”, afirmou, na tentativa de evitar qualquer motivo que irritasse o agressor. O sofrimento psicológico era intenso, também pela violência dele contra as filhas, ainda crianças pequenas. Perto da tentativa de assassinato, o marido passou a querer aparecer em público com a família e a exigir demonstrações de afeto das meninas. Para protegê-las, ela combinou um “trato”: elas o cumprimentariam quando chegasse, com direito a chocolate depois.

“São recordações muito dolorosas, mas o movimento de mulheres me deu força para que outras mulheres não passem pelo que eu passei”, disse.
Políticas públicas no interior
Ao destacar a força da rede de apoio entre mulheres, Heloisa perguntou quais avanços devem ser priorizados. A resposta de Maria da Penha começou pelo conhecimento: a mulher do interior, explicou, muitas vezes só ouve na mídia a orientação de ligar para o 180. Sua proposta é capacitar as equipes psicossociais das unidades de saúde, presentes em todos os municípios, para perceber sinais como o de mulheres que voltam com frequência com ferimentos justificados por quedas e acidentes, e para acolhê-las e orientá-las.
Esse acolhimento, segundo ela, pode fazer a mulher entender que “o que ela sofre dentro de casa não é amor”. Nas cidades pequenas, alertou, a denúncia na delegacia às vezes chega a todos antes de a vítima voltar para casa. “Ter políticas públicas só nas grandes cidades não está resolvendo. Tem que interiorizar.”
“Nenhuma criança nasce machista”
Laura, de 23 anos, faz parte de uma geração que já nasceu sob a proteção da lei, mas vê meninos e jovens se aproximarem de discursos misóginos e extremistas nas redes sociais. A pergunta que fez foi o que se pode fazer com eles.
“Nenhuma criança nasce machista, racista ou homofóbica”, respondeu Maria da Penha. A cultura, disse, é transmitida pela convivência em casa e na comunidade, e por isso as equipes de educação e de saúde precisam de capacitação periódica para acolher crianças agressivas, do ensino fundamental à universidade.
Um caso que conhece de perto ilustra o ponto: um menino ficou de castigo por empurrar uma colega que o havia empurrado antes, e a menina não foi repreendida. Chegou em casa dizendo que, quando crescesse, seria “advogado dos homens”. Para Maria da Penha, a professora deveria ter chamado os dois para conversar. “Educação é primordial. Enquanto crianças, jovens e adultos não forem educados na perspectiva da Lei Maria da Penha, vamos continuar com essa disputa entre homem e mulher.”
Medidas protetivas e a prisão do agressor
Roberta agradeceu a Maria da Penha “pela existência” e lembrou que mulheres negras, trans e indígenas são as que mais sofrem com o feminicídio no país. Ao perguntar se as medidas protetivas são o maior avanço da lei, ouviu: “Não resta a menor dúvida. Eu estou aqui porque estou com a medida protetiva.”
Desde 2021, quando começaram a circular fake news afirmando que sua história era uma farsa, Maria da Penha integra o programa de proteção a vítimas e testemunhas ameaçadas do governo do Ceará. Grupos misóginos, formados em boa parte por homens punidos pela lei, atuam contra ela nas redes. A proteção, afirmou, garante sua liberdade de ir e vir e de continuar sua missão.
A prisão recente do agressor por descumprir uma medida protetiva foi lembrada por Laura. Segundo Maria da Penha, ele estava proibido de dar publicamente a sua versão da história e cedeu ao convite de uma emissora de TV. O Ministério Público agiu, e o episódio acabou dando mais visibilidade à importância da lei e ao compromisso das instituições. “Há males que trazem o bem”, resumiu.
Gabriela criticou a emissora que abriu espaço para ele: “Não existe versão. Ele é um homem condenado pela justiça.” Foi então que Heloisa pediu um parêntese. No caso de Maria da Penha, notou, o efeito acabou sendo o contrário do esperado, e o agressor foi preso. Mas o problema, disse, é o falso documentário e a lógica dos “dois lados” que empresas de comunicação passaram a praticar, como se houvesse outro lado nessa história. “É um veneno pra sociedade”, afirmou, porque quantas pessoas ouviram aquilo e foram para casa com uma ideia equivocada de tudo o que aconteceu? “É um mal para a sociedade que esse tipo de coisa ainda aconteça.”

Laura acrescentou que, depois do documentário, Maria da Penha voltou a ser atacada nas redes e pessoalmente. Para ela, a má notícia se espalha com facilidade. “Não sei por que se espalha tanto a má notícia”, disse, e pediu que o país se preocupe com a “humanização do planeta”. Afinal, questionou, se as mulheres estão sendo assassinadas, “vai ficar só homem no país, no Brasil, no mundo? A mulher é importantíssima para o cuidado, para criar, para procriar. E o homem está se importando com isso?”
O material a que Heloisa se referiu é a série “A Investigação Paralela: o Caso Maria da Penha”, produzida pela Brasil Paralelo, que dá voz a Marco Antonio Heredia e questiona a história da ativista. Em março de 2026, a Justiça do Ceará aceitou a denúncia do Ministério Público contra quatro pessoas suspeitas de participar de uma campanha de ódio contra ela.
Segundo a denúncia, o laudo exibido no documentário é o mesmo que a perícia apontou como falso. Estão entre os acusados o ex-marido de Maria da Penha e dois profissionais ligados à produtora, o produtor Marcus Vinícius Mantovanelli e o editor e apresentador Henrique Barros Lesina Zingano, que respondem por uso de documento falso. Em 2025, a Advocacia-Geral da União já havia processado a produtora, pedindo R$ 500 mil de indenização por danos morais coletivos.
“No Judiciário também existem machistas”
Sobre o que se encontra na Justiça, Maria da Penha relembrou o próprio caso. A agressão foi em 1983, e o processo levou 20 anos para terminar. O primeiro julgamento só aconteceu oito anos depois, após sucessivos adiamentos da defesa. O agressor foi condenado por seis votos a um, mas o julgamento foi anulado. Uma segunda condenação também caiu.
Foi o movimento de mulheres que a ajudou a entender o motivo. “A resposta que eu tive foi muito simples: no Judiciário também existem machistas.” Decidiu, então, levar o processo para dentro de um livro. “Quem quiser ler vai saber que eu tenho razão.”
Roberta defendeu mais mulheres e mais diversidade no Poder Judiciário: “É só assim que se pode fazer justiça.”
A luta valeu a pena?
Para Maria da Penha, a resposta à pergunta de Roberta é sim. Por onde passa, encontra mulheres que a reconhecem e dizem que foram salvas pela lei, o que considera reconfortante. Ao lembrar a sanção, em 2006, afirmou que “não posso deixar de dizer que, sem o presidente Lula, o país não teria a lei”, e concluiu: “Mulher que se preza neste país tem que votar no Lula.”
Gabriela encerrou a conversa com um agradecimento: “Por sua causa, hoje tem uma geração de mulheres que diz: ‘Acabou, vai embora da minha casa’. Muitas mulheres estão vivas por isso.”
Sobre o Despertar 2026
O Despertar 2026 continua neste sábado e no domingo (20), no Vibra São Paulo. Em sua terceira edição, o evento reúne professores, pesquisadores, jornalistas, artistas e ativistas para debates sobre educação, cultura, democracia, direitos humanos e participação social.