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Exército mentiu sobre assassinato de líder do PCdoB, mostram documentos

Exército mentiu sobre assassinato de líder do PCdoB, mostram documentos

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Um procedimento disciplinar aberto no âmbito do Centro de Informações do Exército (CIE) mostra que a ditadura militar mentiu e fabricou uma versão para encobrir a tortura e execução do líder comunista Lincoln Cordeiro Oest, em 1972. A documentação ainda aponta que os militares encontraram muito dinheiro no esconderijo do opositor, mas não há informação sobre o que foi feito com os valores encontrados. No mesmo relatório, são descritos vários roubos cometidos por integrantes do CIE.

Um dos principais dirigentes do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) e ex-deputado estadual pelo Rio de Janeiro, Oest foi preso por agentes do CIE na noite do dia 20 de dezembro de 1972 e, posteriormente, levado ao DOI-Codi (Destacamento de Operações de Informação – Centro de Operações de Defesa Interna) do Rio de Janeiro. O seu corpo só foi entregue à família 17 dias depois, após não conseguir mais esconder a morte de Oest.

Ao mesmo tempo que entregou o corpo de Oest aos seus familiares, a ditadura iniciou uma campanha de desinformação para atribuir o assassinato a uma tentativa de fuga.

O ICL Notícias mostrou o teor do novo documento para Monica Oest, neta de Lincoln Cordeiro Oest. Emocionada, ela afirmou que o relatório ajuda a recuperar a imagem de seu avô, que foi atacada pela ditadura.

“Foi muito bom ver isso, sabe? Porque a gente [ela e os irmãos] cresceu a vida inteira escutando que o meu avô era um assassino e que trocou tiro com a polícia. A gente sabia que não era verdade. Mas eu escutei muito isso, até no colégio”, afirmou ela com a voz embargada.

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Monica Oest, neta de Lincoln, com a certidão de óbito do avô (imagens: Igor Mello)

“Eu estou falando agora da minha posição. Às vezes eu achava que as pessoas tinham nojo de mim, entendeu? Como se eu fosse uma assassina, sabe? Como se eu viesse de uma família de bandidos, sei lá o quê. Porque muitas vezes eu me sentia assim porque me colocavam assim”, acrescenta ela.

A menção à prisão de Oest faz parte de um dos documentos do coronel Cyro Etchegoyen, chefe de contrainformação do CIE,  que estão sendo publicados no projeto “Bandidos de farda”, do ICL Notícias, produzido nos últimos sete meses com uma série de reportagens e um documentário que estreará no dia 17 de maio. O projeto revela os crimes que o coronel Cyro escondeu em um imenso arquivo mantido por ele até sua morte. São 23 pastas e 3 mil páginas de documentos públicos inéditos, que pertenciam ao acervo do Exército brasileiro, mas que foram levados ilegalmente pelo coronel Cyro e que ficaram guardados com um outro militar após a sua morte.

Em outubro do ano passado, uma fonte, que terá sua identidade mantida em sigilo por segurança, entregou uma primeira parte ao Instituto Fernando Santa Cruz, idealizado pelo ex-presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, Felipe Santa Cruz. Fernando era militante da Ação Popular (AP) e está desaparecido desde 23 de fevereiro de 1974. Uma segunda parte foi entregue pela mesma fonte em fevereiro deste ano à jornalista Juliana Dal Piva, repórter do ICL Notícias.

 

Lincoln ‘caiu’

A menção ao caso de Lincoln Cordeiro Oest ocorre em um procedimento disciplinar contra um agente do CIE, acusado de praticar crimes como roubos durante operações contra integrantes de organizações de esquerda.

A ação que resultou na prisão de Oest, em uma casa na Zona Norte do Rio, é uma das apontadas como palco de possíveis irregularidades. Segundo o relatório, “Dois elementos (o preso e um agente) cobriram os dois locais prováveis. Lincoln ‘caiu'”, diz o texto, referindo-se à prisão do líder comunista.

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No momento da prisão de Oest, o PCdoB era o grande foco do aparato de repressão da ditadura militar. O partido organizava desde o fim da década de 1960 um foco de guerrilha no sul do Pará, às margens do Rio Araguaia.

A ditadura iniciou o combate à Guerrilha do Araguaia, como o foco do PCdoB ficou conhecido, em abril de 1972. Embora não tivesse se engajado diretamente na luta armada, Oest era um dos principais dirigentes do partido e, por isso, participava da logística ligada ao conflito, como o recrutamento de novos guerrilheiros e o financiamento do foco de luta armada.

O próprio documento do CIE indica isso, ao mencionar a apreensão de valores no local onde ele se escondia. “Quando do ‘estouro’ do aparelho de LINCOLN CORDEIRO OESTE foram encontrados, entre outras coisas, muito dinheiro”, diz outro trecho do relatório..

Os documentos oficiais deixam claro que Lincoln foi detido com vida por agentes do DOI-Codi. A última foto tirada dele em vida exibe, inclusive, o número da cela onde ele teria sido detido na unidade, sediada na Rua Barão de Mesquita, na Tijuca, Zona Norte do Rio: 175.451.

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Versão fabricada

A família suspeita que o intuito dos militares, possivelmente, era desaparecer com o corpo de Oest – como os órgãos de repressão faziam sistematicamente no início da década de 1970. O plano teria sido alterado diante do vazamento da informação de que a liderança do PCdoB tinha sido presa.

“A tia Lilita [irmã de Lincoln] recebeu um telefonema no dia seguinte [21 de dezembro de 1972]. Um fotógrafo do jornal Última Hora ligou para ela e avisou que tinham matado o vovô”, relembra a neta do líder comunista.

Ainda segundo ela, outro irmão de Lincoln, o ex-deputado federal Henrique Cordeiro Oest, usou sua influência como general de três estrelas para impedir que os agentes da repressão desaparecessem com o corpo do líder comunista.

“O tio Henrique era da mesma turma do Golbery [do Couto e Silva]. E ele ameaçou o Golbery: se não devolvessem o corpo do irmão, ele iria para a Europa e para o mundo inteiro denunciar o que estava acontecendo no Brasil. Por isso, que ele não é desaparecido político”, conta Monica Oest.

Na época da prisão de Lincoln Cordeiro Oest, Golbery não tinha cargo formal no governo, mas seguia sendo um dos homens mais influentes do país. Fundador do Serviço Nacional de Informações (SNI), ele era muito próximo do general Orlando Geisel, então ministro do Exército.

O corpo de Lincoln só foi entregue à família 17 dias depois de sua prisão, em 6 de janeiro de 1973. A mãe de Monica, Vania Oest, foi a responsável por reconhecer o pai, que havia dado entrada no Instituto Médico-Legal do Rio de Janeiro como indigente. No mesmo dia em que houve a devolução dos restos mortais para a família, a ditadura fez uma ação de contrainformação nos jornais do Rio de Janeiro para encobrir a execução.

Tanto o Jornal do Brasil quanto O Globo publicaram em suas edições daquele 6 de janeiro reportagens atribuindo a morte de Lincoln e de outro integrante da cúpula do PCdoB, Luiz Ghilardini, como parte de uma grande operação realizada para desbaratar o partido. A versão falsa criada pela ditadura ainda tentou desmoralizar Lincoln perante os companheiros. Segundo os textos divulgados nos jornais, ele teria entregue Ghilardini, revelando que tinha um encontro marcado com ele.

“Na hora marcada, já no local, o terrorista Lincoln Cordeiro Oest foi deixado só e vigiado a uma distância segura para impedir sua fuga, que comprometeria toda a operação das autoridades de segurança. Sentindo-se livre e protegido pela escuridão da área, o terrorista não aguardou a chegada de “Gustavo” [codinome de Ghilardini]: correu para um pequeno bosque próximo e seguiu por uma rua paralela à Rua Garcia Redondo, onde foi  pelos tiros de cobertura dos agentes de segurança”, diz trecho da matéria em O Globo, afirmando ainda que Luis Ghilardini conseguiu fugir.

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A versão, contudo, não para em pé. O atestado de óbito elaborado pela ditadura afirma que Lincoln Cordeiro Oest morreu em 21 de dezembro de 1972, às 2h50 da manhã, em um terreno baldio na Rua Garcia Redondo, no Cachambi, Zona Norte do Rio. A causa mortis foi “ferimento penetrante do crânio, com destruição parcial do tecido nervoso central”.

A mãe de Monica, Vânia Oest, relatou que o corpo de Lincoln tinha diversas marcas de tiros por toda a extensão do tronco –indicando que ele havia sido metralhado– além do ferimento na cabeça relatado no laudo.

Contudo, dois presos políticos que estavam detidos do DOI-Codi em 20 de dezembro de 1972 relataram uma história diferente. José Auri Pinheiro e José Francisco dos Santos Rufino afirmaram em depoimentos em juízo em auditorias militares que Lincoln foi torturado no quartel da Rua Barão de Mesquita. Ambos ouviram de torturadores que Oest havia sido executado.

A versão dos militares tinha outro furo. Ghilardini só foi preso no dia 4 de janeiro, juntamente com sua esposa, Orandina Ghilardini, e o filho de apenas 8 anos, segundo ela relatou em carta ao grupo Tortura Nunca Mais, anos depois. A família foi levada para o DOI-Codi e Luis teria sido morto após sessões de tortura no dia seguinte.

As reportagens plantadas pela ditadura, entretanto, reproduzem uma versão muito parecida com a usada no caso de Oest. Afirmam que, em interrogatório, Ghilardini teria confessado que tinha um encontro marcado com o militante Lincoln Bicalho Roque, o Mário, e teria se prontificado a facilitar a prisão dos ocupantes do aparelho onde o colega estava.

“Quando o carro que conduzia “Mário” e os agentes de segurança se aproximava do aparelho, em Vila Valqueire, o terrorista pediu que o carro parasse para ele descer. Agrediu o motorista e em seguida saltou e saiu correndo pela rua. O carro se descontrolou e foi chocar-se com a calçada. Os agentes de segurança, para impedir a fuga, atiraram em “Mário”, que caiu morto na rua”, completa a reportagem de O Globo.

Perseguição à família

Monica Oest conta que a execução de seu avô teve pesadas consequências para toda sua família. A avó, Erlita, sofreu de depressão profunda e adoeceu pouco depois da morte do marido. A família convivia com o medo e a discriminação de ter um parente perseguido e morto pela ditadura.

“Eu tive uma professora que dizia para as mães de todas as minhas amigas que meu avô era um terrorista, um assassino”, diz ela.

“A Simone, minha irmã mais velha, foi seguida várias vezes. Realmente foi seguida, a ponto de o meu pai na época surtar, pegar uma arma e andar atrás da Simone com medo que fizessem alguma coisa com ela”.

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Descubra os crimes que os militares esconderam por 5 décadas

17/05, domingo às 20h

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