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Existência dos palestinos não faz parte do ‘Show da Vida’

Desencavaram o garoto-propaganda e trouxeram para o Brasil no momento em que as manifestações pró-Palestina começam a engrossar
28 de novembro de 2023

Por Heloísa Villela

O encontro marcado na frente de um chafariz, em uma praça pública de Los Angeles, tinha um ar de filme de espionagem. Filme B. Nada parecido com as superproduções de Holywood. Ainda assim, fui adiante com a missão “secreta” que me foi passada pela direção da Rede Record. Na época, era Correspondente em Nova York. E na Califórnia, ia entrevistar um ex-ativista do Hamas. Na verdade, o filho de um dirigente do grupo político com a maior representatividade na Faixa de Gaza e crescente apoio na Cisjordânia. Resistência nos territórios ocupados, o Hamas é considerado um grupo terrorista por Israel e pelos Estados Unidos. Mas não é chamado assim na ONU.

Mosab Hassan Yousef chegou acompanhado de um outro rapaz que não explicou quem era. Esclarecer dúvidas não é o forte desse espião, considerado um grande traidor entre os palestinos. O pai de Mossab está preso até hoje. Mas ele não traiu apenas a própria família mas acabou com a vida de um incontável número de pessoas quando decidiu dar nomes ao governo de Israel e até se converter ao judaísmo. Já tinha esquecido dessa figura até o último domingo, 26 de novembro, quando, incrédula, vi a entrevista do Fantástico com o mesmo sujeito. Contando a mesma lenga-lenga. Lobby requentado, pensei.

Os caras devem estar desesperados, procurando alguma maneira de recuperar a credibilidade perdida ao longo desses quase 50 dias de massacre na Faixa de Gaza. Israel sabe que já perdeu o apoio da opinião pública mundial. Mas ainda encontra espaço para fazer a propaganda do regime de apartheid que mantém nos territórios ocupados, o cerco e o genocídio que promove aos olhos do mundo, com apoio de algumas chamadas potências.

A entrevista, em si, já deu ânsia de vômito. Propaganda pura e simples e, como disse, requentada. Desencavaram o garoto propaganda e trouxeram para o Brasil no momento em que as manifestações pró-Palestina começam a engrossar. Quanta coincidência… Mas o pior, na minha opinião, foi a matéria que antecedeu a tal da entrevista. Ao descrever a troca de reféns do domingo, o Fantástico da TV Globo repetiu o erro da sexta-feira. Donde se concluiu que não foi erro algum, mas decisão editorial.

A reportagem se dedicou a contar quem são os israelenses que foram trocados pelos palestinos. Mostraram as vidas, os parentes, a comoção e aquela alegria do reencontro. Mas se “esqueceram” de mostrar as várias imagens emocionantes de crianças reencontrando seus pais. Não porque os pais foram libertados, mas porque as crianças deixaram as celas israelenses e voltaram para casa. Ao menos por enquanto.

E as mães que voltaram para rever os filhos? Sobre as palestinas, nada. Espaço somente para as israelenses. Afinal, só existe vida, família e sentimento entre os israelenses. Os palestinos, “animais humanos”, como um representante de Israel disse logo no começo da ofensiva militar genocida, esses não merecem uma linha. E olha que não eram poucas as imagens. As histórias, então, nem se fala.

Israa Jaashin é uma dessas. Ela foi presa no dia 11 de outubro de 2015, com queimaduras de terceiro grau em todo o corpo. Na época, estava com o filho de oito anos que só reencontrou agora, quando o rapaz já tem 16. Como 99% dos palestinos levados a um tribunal militar de Israel, ela foi condenada. Teria que cumprir 10 anos de cadeia. Por que? Estava se mudando de Jerichó para Jerusalém com o menino. Levava alguns pertences, mobílias e um botijão de gás no carro, que morreu duas vezes no caminho. Na terceira vez em que o motor decidiu se calar, ela estava muito próxima de um posto policial. O militar israelense se aproximou, pediu os documentos. Ela entregou e avisou que o carro tinha um odor forte. Estava preocupada com um possível vazamento do botijão. O militar não deixou ela sair do casso que, em seguida, pegou fogo. Ainda assim, Israa foi obrigada a permanecer no automóvel enquanto o militar observava ela ser queimada viva.

Bem, no julgamento, a única testemunha do caso foi justamente esse militar que quase a matou. Hoje Israa não tem nem um dos dez dedos das mãos. O rosto está cheio de cicatrizes das queimaduras que sofreu. Ainda assim, ao deixar o presídio e abraçar os parentes, ela lamentou estar celebrando a liberdade no momento em que a Palestina sofre tanto. Também falou com carinho e saudade das meninas que deixou para trás, nas celas.

Enquanto isso, no Canal 13 de Israel, Alon Ben David, analista de defesa senior da empresa, relatava aos telespectadores israelenses que de tudo que ouviu, vindo das famílias e dos reféns que ficaram sob a guarda do Hamas durante todos esses mais de 40 dias, ele constatou que ninguém foi torturado, todos foram medicados sempre que possível, a comida não era muita mas era distribuída e eles puderam ficar todos juntos, conversando, fazendo atividades, para manterem a calma e os espíritos confortados. Não se pode dizer o mesmo do tratamento recebido pelos palestinos nas cadeias de Israel.

Mas nada disso importa. Esses relatos e as vidas palestinas não fazem parte dos roteiros bem cuidados do show da vida.

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