Por André Uzêda e Cleber Lourenço
O deputado estadual Léo Siqueira, do Partido Novo de São Paulo, usou as redes sociais para patrocinar um vídeo em que dissemina fake news contra a candidatura à reeleição do presidente Lula (PT). O vídeo, de 2 minutos e 59 segundos, foi impulsionado pela conta oficial do deputado no dia 8 de outubro deste ano, três dias após a realização do primeiro turno.
A publicação faz parte de um conjunto de 15 anúncios pagos contra Lula identificados em levantamento realizado a partir da Biblioteca de Anúncios da Meta, entre os dias 5 e 10 de outubro. As peças movimentaram entre R$ 7,9 mil e R$ 10,7 mil em impulsionamento, segundo os valores disponibilizados pela própria plataforma.
Com trilha sonora de suspense, Siqueira pinta um cenário apocalíptico caso Lula vença as eleições, desenhando um modelo de governo autoritário alcançado já a partir de dois anos de mandato do petista. O deputado diz que Lula ocupou as quatro indicações de ministros do Supremo como nomes como “Gleisi Hoffmann, Dilma Rousseff, Jorge Messias e Fernando Haddad”.
Citada no grupo, ex-presidente Dilma não possui formação em direito. Apesar de a Constituição não exigir diploma nessa área para integrar o Supremo, estabelece como requisito de indicação o notável saber jurídico.

Siqueira ainda diz que, com a maioria dos ministros no STF, Lula vai alterar a Constituição para concorrer a um quinto mandato, em 2030. O deputado cria um cenário em que o inquérito das fake news passa a promover prisões de opositores, silenciar a imprensa, o que abre caminho para o governo distorcer dados econômicos e sociais. “Os problemas não desaparecem. Apenas mudam de nome”, diz Siqueira.
No vídeo, o deputado do Novo mente ao dizer que, no próximo governo Lula, José Dirceu será o próximo presidente da Câmara dos Deputados. Dado que o vídeo foi impulsionado depois do resultado do primeiro turno, já estava disponível a informação que Dirceu não conseguiu os votos necessários para ser eleito deputado federal, ficando de fora da bancada composta pela Federação PT, PV e PCdoB.
Outra informação ignorada por Siqueira é que o PL, de Flávio Bolsonaro, fez a maior bancada da Casa em 2026 – o que amplia as chances de eleger um presidente do partido na próxima legislatura.
Ou seja, a escolha do próximo presidente da Câmara depende de votação entre os parlamentares eleitos, e não de uma decisão unilateral do presidente da República. Além disso, qualquer alteração nas regras constitucionais de reeleição exigiria a aprovação de uma emenda constitucional pelo Congresso Nacional, com apoio de três quintos dos integrantes de cada Casa, em dois turnos de votação. Além de ter feito maioria na Câmara, o PL também elegeu 28 senadores, formando a maior bancada no Senado Federal.
“Peça de ficção”
Depois de abertamente promover o terrorismo eleitoral, nos últimos 20 segundos da gravação, Léo Siqueira diz que o vídeo é uma peça de ficção. Na sequência, deixa uma dúvida no ar, ao completar dizendo que “pergunte a si mesmo qual destas coisas você tem certeza de que é impossível acontecer? Se a resposta for todas, se você acha que é tudo exagero, vote no PT”.
Segundo dados da Biblioteca de Anúncios da Meta, a peça tinha alcance estimado para 1 milhão de pessoas, mas até o momento do registro impactou entre 10 mil e 15 mil pessoas. O dinheiro para o impulsionamento (R$100) partiu diretamente da conta oficial do deputado do Novo.
O patrocínio ocorre em meio a decisões da Justiça Eleitoral sobre os limites da propaganda negativa paga. No domingo (11), o ministro André Mendonça, do Tribunal Superior Eleitoral, determinou a suspensão do impulsionamento de publicações da campanha de Lula contra Flávio Bolsonaro. A decisão considerou que os conteúdos patrocinados tinham como finalidade desqualificar o adversário.
A legislação eleitoral restringe o impulsionamento de propaganda predominantemente negativa. Nesse contexto, as publicações financiadas por Siqueira também podem ser examinadas à luz dos critérios adotados pela Justiça Eleitoral, embora não haja, nos documentos analisados, decisão que reconheça irregularidade nos anúncios do deputado.
Ironicamente, nas eleições de 2022, Léo Siqueira lançou um quadro nas redes sociais que se chamava “Fiscal de Fake News”, em que analisava discursos de políticos – a maioria de esquerda – para encontrar erros, mentiras, imprecisões ou inconsistências.
A reportagem procurou a assessoria do deputado Léo Siqueira, mas não houve resposta até o fechamento desta reportagem. O espaço segue aberto para novos posicionamentos.

Outro vídeo
No levantamento feito a partir dos dados da Biblioteca de Anúncios da Meta, entre os dias 5 e 10 de outubro, Siqueira ainda aparece patrocinando outra peça publicitária com forte teor de desinformação. Nessa segunda publicação, o deputado acusa o campo governista de descumprir promessas e menciona corrupção, orçamento secreto e sigilo de 100 anos.
Segundo os dados da Biblioteca de Anúncios da Meta reproduzidos no monitoramento, a publicidade registrou entre 25 mil e 30 mil impressões, número superior ao identificado na peça sobre a suposta transformação autoritária do país. O deputado acumula cerca de 1,1 milhão de seguidores no Instagram e ganhou aproximadamente 14 mil novos seguidores entre os dias 8 e 12 de outubro.
Uma página chamada PontoCom patrocinou uma publicação que acusa o PT de ser responsável por desordem, pobreza e corrupção e pede votos para Flávio Bolsonaro. O material utiliza inteligência artificial sem identificação e não permite reconhecer claramente quem está por trás da página.
A legislação eleitoral estabelece restrições ao impulsionamento de propaganda negativa na internet. O Tribunal Superior Eleitoral também regulamentou o uso de inteligência artificial nas eleições de 2026, exigindo transparência sobre conteúdos sintéticos em situações previstas nas regras eleitorais.