ICL Notícias
País

‘Estavam rendidos’: família nega confronto após PM matar três homens em Guarulhos

Familiares das vítimas afirmam que os agentes optaram pela execução em vez da prisão em flagrante
20/03/2025 | 13h26
ouça este conteúdo

Por Paulo Batistella — Ponte Jornalismo

Uma equipe da Polícia Militar matou a tiros três homens em Guarulhos, na Grande São Paulo, nesta terça-feira (18). Um quarto envolvido foi baleado e levado a um hospital. Todos eles estavam em um carro que foi perseguido pelos policiais, segundo os quais houve tiroteio. No entanto, familiares dos mortos negam que tenha havido confronto e afirmam que os agentes optaram pela execução, em vez da prisão em flagrante.

Um vídeo do incidente mostra dois homens deitados em aparente rendição.

O episódio ocorreu por volta das 15h, na avenida Natalia Zarif, em trecho próximo à estação de trem Aeroporto-Guarulhos, no Jardim Marilena. Os corpos das vítimas fatais foram mantidos no local até por volta das 4h da madrugada desta quarta (19), em parte debaixo de chuva, enquanto familiares e vizinhos eram impedidos de se aproximar por policiais — sob a alegação de que seria feita perícia.

“A gente queria identificar os mortos, mas não deixavam. Para mim, fizeram isso para deixar o corpo lá por mais tempo, com as famílias sem saber o que estava acontecendo”, disse Beatriz Souza, que é familiar de Cauê Iago, de 27 anos, um dos homens mortos pela PM na ocorrência. “A gente mostrou uma foto do meu primo, e o policial debochou: ‘Esse já foi, já tá morto, tomou um monte de tiro’.”

Em protesto contra a PM, na noite de terça (18) moradores incendiaram um ônibus de linha da empresa Guarulhos Transportes, bloqueando a rua Rua Jamil João Zarif. Nenhum passageiro ou funcionário ficou ferido, segundo a Empresa Metropolitana de Transportes Urbanos (EMTU). No início da manhã seguinte ao ocorrido, a circulação do transporte público na região ainda estava comprometida. A carcaça do ônibus queimado foi retirada do local por volta das 7h, segundo a prefeitura de Guarulhos.

Moradores incendiaram ônibus de linha, bloqueando rua de Guarulhos, após ocorrência com quatro mortes pela PM (Foto: Reprodução)

‘Polícia não foi feita para executar ninguém’

A PM divulgou que os quatro seriam suspeitos de assaltos a casas. Em um desses roubos, eles teriam utilizado o mesmo carro com o qual foram interceptados agora na ocorrência em Guarulhos. Os policiais teriam dado ordem de parada após identificá-los com o veículo em meio a um patrulhamento de rotina. Ainda na versão dos agentes, os quatro teriam se negado a parar e iniciado um tiroteio. Com eles, teriam sido apreendidas três armas de fogo ao final do suposto confronto.

Beatriz diz que o primo e os outros três envolvidos trafegavam em um carro roubado. Eles teriam negado a ordem de parada da PM, provavelmente, pela condição do veículo e por terem antecedentes criminais. Ela diz ainda que, na sexta anterior (14), os quatro teriam invadido uma casa em uma tentativa de assalto que não se cumpriu.

A familiar pondera, no entanto, que, na ocasião em que foram mortos, Cauê e os amigos não faziam outra coisa que não fosse transitar com o carro — ou seja, não haviam colocado os policiais ou qualquer outra pessoa sob risco, a ponto de justificar a ação policial. Ela também diz que, segundo os familiares ouviram de testemunhas, foram os policiais que chegaram atirando, após bloquearem a passagem com a viatura, sem tempo para qualquer reação dos ocupantes do carro.

É nesse momento em que duas das vítimas fatais são filmadas ao lado do veículo deitadas no chão, em aparente rendição. Para Beatriz, a PM quis matá-los. “Independentemente dos erros, do que eles estavam fazendo, a polícia não foi feita para executar ninguém, ainda mais uma pessoa que já estava rendida. Não houve troca de tiros, nenhum policial ficou ferido, não tem nenhuma marca de tiro na viatura”, afirma a prima de Cauê.

Família relata humilhação nas redes sociais

Beatriz diz que o corpo de Cauê tem mais de 30 perfurações de bala, o que, segundo ela, reforça a desproporcionalidade da conduta da PM. A família ainda lamenta a forma como o caso tem sido tratado nas redes sociais, em que a morte dos quatro é justificada com base no histórico criminal deles.

“O meu primo não era nenhum santo, em momento algum dissemos que ele não fez nada de errado. Mas ele tem uma família: tem filhas, uma avó, uma prima, uma sobrinha. Se ele foi rendido, põe dentro da viatura e leva para a delegacia. Faz o depoimento, a ocorrência, puxa a placa do carro. Viu que os quatro estão errados? Manda descer, e vai preso. É melhor preso do que morto. Preso você ainda pode fazer uma ligação, levar uma foto, uma carta. A pessoa pode mudar dentro da cadeia. Ela pode sair ruim, sim, mas também pode sair boa, pode não querer saber mais dessa vida, querer mudar para melhor.”

“Todo mundo vê a gente como família de bandido. Dizem que uma hora estavam roubando cargas, depois casas. Daqui a pouco vão dizer que estavam roubando celular ou que tinha drogas no carro. Não sabem o que estão dizendo, mas cada vez fica pior, porque aí parece que a polícia fez a coisa certa, que eram cidadãos de bem que foram lá e executaram bandidos que estavam roubando. Mas não é assim, não foi dessa forma. Vão inventar coisas para a gente passar por mais humilhação”, lamenta.

A reportagem questionou a Secretaria da Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP) sobre por que os policiais militares atiraram em vez de prender os envolvidos. Também perguntou se a PM entendeu que os dois homens filmados já no chão estavam rendidos, se algum policial foi ferido no suposto confronto e se alguma viatura foi danificada.

Não houve retorno até esta publicação.

Leia a íntegra da nota da EMTU

Segundo a empresa Guarulhos Transportes, um ônibus que trafegava pela rua Jamil João Zarif, no bairro Jardim Malvinas, estava a caminho da garagem quando foi abordado por um grupo de pessoas, que ordenaram que o condutor desembarcasse. Na sequência jogaram gasolina no veículo, atearam fogo e fugiram do local. Não houve vítimas. A operação das linhas também não foi afetada e a empresa registrou um boletim de ocorrência.

Relacionados

Carregar Comentários

Mais Lidas

Assine nossa newsletter
Receba nossos informativos diretamente em seu e-mail