Por Heloisa Villela
Oito policiais militares envolvidos em um homicídio triplo, em 2021, foram absolvidos sumariamente pela 1ª Vara Criminal de Anápolis, no estado do Goiás. O caso, apesar de antigo, foi debatido nesta quinta-feira (6) no Conselho Nacional de Direitos Humanos, em Brasília. Os conselheiros analisaram o pedido de federalização do caso Fábio Escobar, ex-coordenador de campanha de Ronaldo Caiado (União), assassinado depois de denunciar um esquema de caixa dois na candidatura do atual governador.
As três pessoas mortas naquela época eram amigas de Bruna Vitória Rabelo Tavares, assassinada na véspera. Ela era dona do celular que foi usado para atrair Fábio Escobar para a emboscada na qual ele foi assassinado. O celular de Bruna foi roubado poucos meses antes da emboscada.
Durante a reunião do Conselho Nacional de Direitos Humanos, o advogado Valério Luz, que representa o pai de Fábio Escobar, disse que oito pessoas já foram mortas no estado, todas relacionadas com o mesmo crime. “Não temos ambiente institucional para que esse caso chegue a um julgamento imparcial e justo, as instituições aqui não vão conseguir levar o caso a termo”, disse ele, ao defender a federalização da investigação e do julgamento dos acusados pela morte do ex-coordenador de campanha do governador.
Chamou a atenção do conselheiro Nicolao Dino Neto, representante da Procuradoria Geral da República no Conselho, o fato dos policiais terem sido absolvidos sumariamente. “É bastate preocupante e é necessário que o Conselho Nacional de Direitos Humanos se debruce sobre o caso de forma cautelosa”, disse durante a reunião do órgão. Ele sugeriu ainda que o conselho designe um relator para o caso e apresente um relatório a ser votado na próxima reunião do colegiado, em março. A proposta foi aprovada.

Primo de Caiado é um dos réus pela morte de Escobar
O advogado de José Escobar, pai de Fábio, a Associação de Juristas pela Democracia, o deputado estadual Mauro Rubem (PT-GO) e o vereador do PT em Goiânia, Fabrício Rosa, assinaram o pedido ao CNDH para que interceda junto à Procuradoria-Geral da República pedindo que a investigação sobre o assassinato de Escobar, e o julgamento dos culpados, seja feito na esfera federal. Em março, o conselho vota se acata ou não o pedido.
Durante a reunião da quinta-feira, Fabrício Rosa, que além de vereador é policial rodoviário, disse que os índices de violência policial no estado de Goiás estão entre os piores do país. O número de mortes provocadas por policiais do estado soma cerca de 6.000 por ano, ou 10% do total do país, quando a população de Goiás é de apenas 2 ou 3% da população brasileira. E acrescentou: “de cada 200 mortes de autoria da polícia, apenas uma vira um processo judicial”.
O deputado Mauro Rubem também participou da reunião do Conselho e classificou o assassinato de Fábio Escobar como um crime político porque ele era coordenador da campanha do atual governador. Além disso, o primo dele, Jorge Caiado, é um dos réus, apontado como mandante do crime, e teria influência na Secretaria de Segurança pública de Goiás, indicando comandantes e responsáveis pela administração carcerária.
Dois coronéis já prestaram depoimento no caso e relataram os encontros que tiveram com Jorge Caiado nos quais ele pediu que Fábio Escobar fosse eliminado por conta das denúncias que estava fazendo sobre operações de caixa dois na campanha do governador.
A conselheira Lara Estevão, advogada popular que atua junto aos movimentos do campo em Goiás, defendeu a federalização argumentando que “o caso Escobar é escandaloso, inúmeras testemunhas já morreram”. Ela disse ainda que o estado está fora do radar das autoridades e da mídia federais. Por isso, o escândalo ainda não é conhecido. E a violência em Goias só cresce, afirmou, o que aumenta a impunidade.