Por Thaísa Oliveira e José Marques
(Folhapress) – O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) atua, paralelamente à campanha presidencial, como advogado de um empresário que também tem na equipe de defesa Willer Tomaz, amigo do candidato.
A ação tramita no STJ (Superior Tribunal de Justiça), e a última petição apresentada por Flávio foi assinada no último dia 14, mesmo dia em que ele estava em um comício em Porto Alegre e que votou à distância a favor da PEC (Proposta de Emenda à Constituição) que acaba com a escala 6×1.
O candidato ingressou no caso em 2022 como representante de Mário Gadelha Simas Filho, em uma disputa entre os sócios da Simas Industrial de Alimentos, uma das maiores fábricas de balas e pirulitos do país.
À época, Willer também advogava para o empresário e não teve sua representação revogada nos autos, mas, desde então, foi Flávio quem passou a assinar as peças do caso.
Procurados pela reportagem nesta quarta-feira (21) e quinta-feira (22) respectivamente, por meio das assessorias de imprensa, Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz não se manifestaram sobre a atuação no processo. A Simas foi procurada nesta quinta por meio do formulário do site da empresa e não se posicionou.
As relações entre Willer e Flávio são investigadas em inquérito da Polícia Federal que aponta suspeitas de lavagem de dinheiro. Eles viajam juntos com as suas famílias e participam de eventos sociais.
Documentos analisados pela PF apontam ainda que Flávio tinha acesso de usuário master na conta bancária de uma das holdings de Willer, a Alcazar, o que dava elevado poder de gerenciamento sobre ela.
Em maio de 2025, foi solicitada a exclusão de Flávio da conta, “elemento que indica que o senador permanecia vinculado à conta bancária, ao menos sob a perspectiva operacional, até aquela data”, de acordo com a investigação.
No celular dele, foram encontradas fotos de Flávio, além de documentos vinculados a ele. As famílias de ambos viajavam com passagens compradas pela Cathedral Holding, única acionista da Rede Loto, dona da casa de apostas BestBet.
A atuação no mesmo caso como advogados também mostra a aproximação entre Flávio e Willer. O escritório Flávio Bolsonaro Sociedade Individual de Advocacia foi aberto pelo presidenciável em 2021 e não tem outros sócios, de acordo com o cadastro dele na OAB (Ordem dos Advogados do Brasil).
Também não há registro de que Flávio tenha funcionários formais no escritório -cujo endereço é a casa onde ele mora, em Brasília.
O escritório tem como administradora Letícia Caetano dos Reis, irmã do contador Alexandre Caetano dos Reis, que a Polícia Federal afirma ser sócio do empresário Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS, em uma offshore sediada nas Ilhas Virgens Britânicas.
O escritório emitiu ao menos R$ 13,7 milhões em notas fiscais entre janeiro de 2023 e julho deste ano, de acordo com o UOL.
A lei autoriza parlamentares a advogarem, desde que não seja contra ou a favor de entes públicos, empresas públicas, sociedades de economia mista, autarquias e concessionárias de serviços públicos.
A Simas Industrial de Alimentos aparece como o segundo maior cliente do escritório de Flávio. O escritório emitiu três notas fiscais entre janeiro de 2023 e dezembro de 2024 no valor total de R$ 3,3 milhões. A atuação de Flávio no processo foi noticiada pelo jornal O Estado de S. Paulo em 2022.
O candidato estava em um comício na capital do Rio Grande do Sul na quarta-feira da semana passada. Ele registrou presença na sessão do Senado por volta de 20h30.
Protocolou um pedido na ação, às 23h23 do dia 14, que questiona uma espécie de recurso chamado embargo de declaração apresentado pela parte contrária.
A petição, direcionada à ministra Daniela Teixeira, pede que os embargos sejam rejeitados pela magistrada, que é a relatora do caso.
Afinidade pessoal
Flávio e Willer não se manifestaram sobre a atuação no processo, mas já falaram anteriormente sobre outras ligações entre eles noticiadas.
Em relação ao acesso à conta da Alcazar, o candidato disse que “nunca manteve conta tendo como usuário master o sr. Willer Tomaz ou qualquer de suas empresas”.
Quando reportagem da Folha de S.Paulo mostrou que a Cathedral pagou voos para Flávio, a campanha do senador disse que a relação dele com Willer é exclusivamente de amizade. “Associar essa afinidade pessoal a suposições de irregularidades é mera ilação, sem qualquer fundamento nos fatos.”
Já a assessoria de Willer disse, em nota sobre o inquérito, que “todas as empresas e participações do advogado são lícitas, identificadas em registros públicos e informadas em sua declaração de imposto de renda”.
“Não há sócios ocultos, contas não declaradas nem patrimônio escondido. A Rede Loto, integralmente detida pela Cathedral, nunca lançou operação de apostas. O senador Flávio Bolsonaro jamais teve acesso ou poderes sobre conta de qualquer empresa do advogado. relação entre os dois é de amizade entre famílias, e amizade não é crime”, afirmou a nota.