Flávio Bolsonaro advogou para dono de instituto de pesquisa que aponta vitória de aliados

Senador e candidato a presidente atuou para empresa de José Carlos Cademartori; Brasmarket recebeu R$ 1,6 milhão do PL em 2024 
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Por Juliana Dal Piva e Cleber Lourenço

O candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) atuou, a partir de junho de 2023, como advogado de uma empresa de José Carlos Nogueira Cademartori, empresário dono da Brasmarket, instituto que divulga pesquisas em que o senador e aliados aparecem com ampla vantagem de intenção de votos em relação a adversários. Alguns levantamentos, porém, destoam muito dos realizados pelos demais institutos.

Documento do Superior Tribunal de Justiça (STJ) registra Flávio entre os advogados da Tocantins Market – Análise e Investigação de Mercado Ltda., empresa da qual Cademartori é sócio-administrador. Flávio entrou como advogado no caso em junho de 2023 em um recurso no STJ para atuar pela empresa em um processo que tratava de cobrança por serviços eleitorais: pesquisas diárias de intenção de voto por telefone e telemarketing realizadas durante uma campanha municipal de Palmas, em 2012.

O ministro relator do caso é José Otavio de Noronha, o mesmo que também foi o relator do caso das rachadinhas de Flávio no STJ. O senador obteve êxito no recurso apresentado por ele para a empresa em uma decisão monocrática de Noronha que fez o processo voltar para nova decisão no Tribunal de Justiça de Tocantins.

No entanto, essa não é a primeira vez que Cademartori e Flávio Bolsonaro se cruzam. Em janeiro de 2022, a revista Veja revelou que Flávio havia recebido um levantamento da Brasmarket que colocava Jair Bolsonaro à frente de Lula na corrida presidencial. Na matéria que foi intitulada “A única pesquisa em que a família Bolsonaro acredita”, Flávio defendeu os números em entrevista. Na ocasião, a reportagem identificou Cademartori como responsável pela realização da pesquisa sob a marca Brasmarket.

Questionado na ocasião sobre como o levantamento havia chegado à família Bolsonaro, Cademartori afirmou não saber e declarou que não conhecia Jair Bolsonaro nem possuía vínculo com grupos políticos. Negou, à época, manipulação de resultados.

A relação de Cademartori com o entorno dos Bolsonaro, porém, não se resume ao processo em que Flávio aparece como advogado. Em 2024, o PL declarou à Justiça Eleitoral R$ 1,6 milhão em pagamentos à Brasmarket, distribuídos em seis desembolsos entre junho e outubro. O instituto terminou aquele ano como o quinto maior fornecedor do partido em 2024. Em abril deste ano, uma pesquisa da empresa, restrita ao Rio Grande do Sul, foi amplamente compartilhada nas redes sociais por apoiadores de Flávio porque mostrava o candidato do PL com 42% das intenções de voto e Lula com 28%. No entanto, não informava que o levantamento era só no Rio Grande do Sul.

Levantamentos destoantes em 2026

Na pesquisa da Brasmarket mais recente no Rio Grande do Sul, realizada em 17 e 18 de setembro, Flávio aparece com 43,6% das intenções de voto para presidente, contra 28,2% de Lula — diferença de 15,4 pontos percentuais. O levantamento disse que ouviu 1.200 eleitores e foi registrado na Justiça Eleitoral sob os números RS-07417/2026 e BR-04086/2026.

O cenário do Rio Grande do Sul chama bastante atenção. A pesquisa eleitoral mais recente da Brasmarket para o governo do RS mostra Zucco (PL) com 40,5% das intenções de voto, enquanto Juliana Brizola (PDT) aparece com 25,6%. O estudo foi feito entre 17 e 18 de setembro. Foram ouvidos 1.200 eleitores do RS. A margem de erro é de 2,84 pontos percentuais, para mais ou para menos. O levantamento foi registrado na Justiça Eleitoral sob os números RS-07417/2026 e BR-04086/2026, em 15 de setembro.

Na Paraná Pesquisas, por exemplo, no levantamento feito entre 16 e 18 de setembro, o cenário estimulado de primeiro turno mostra Zucco (PL) liderando numericamente com 36,4% das intenções de voto. No segundo lugar, está Juliana Brizola (PDT), com 31,3%. Eles estão empatados dentro da margem de erro da pesquisa de 2,7 pontos percentuais para mais ou para menos. O levantamento foi contratado pelo Partido Liberal (PL). A margem de erro é de 2,7 pontos percentuais. O levantamento foi registrado no TSE pelo número RS-00319/2026.

Mulher de Cademartori trabalhou para Dorinha
Rosa Cristina de Brito Jardim Fontes, companheira de José Carlos Cademartori, também é sua sócia na Tocantins Market. Ela integra a sociedade desde agosto de 2000; Cademartori aparece como sócio-administrador desde novembro de 2003.

No entanto, entre 2023 e 2025, Rosa passou a trabalhar no gabinete da senadora Professora Dorinha (União-TO), atual candidata ao governo do Tocantins. O Portal da Transparência do Senado registra Rosa como auxiliar parlamentar sênior, nível AP-08.

A Brasmarket também realiza pesquisas sobre a própria Dorinha. Em levantamento realizado entre 29 e 31 de julho deste ano, o instituto colocou a senadora na liderança da disputa pelo governo do Tocantins, com 36,3%, contra 24,1% de Vicentinho Júnior (PSDB) — vantagem de 12,2 pontos. A pesquisa disse que ouviu 1.200 eleitores e foi registrada sob o número TO-02848/2026.

Além de aparecer nos levantamentos do instituto, Dorinha tornou-se cliente da Brasmarket na campanha deste ano. Dados da prestação parcial de contas eleitorais, extraídos dos dados abertos do TSE, registram despesa de R$ 250 mil da campanha com a Brasmarket.

Procurados pela reportagem, Flávio Bolsonaro, José Carlos Cademartori, Rosa Cristina, a Brasmarket e o PL não responderam aos questionamentos.

Por sua vez, a senadora Dorinha mandou a seguinte nota: “O Instituto Brasmarket tem 44 anos de atuação no Brasil e, pelo menos, três décadas trabalhando no Tocantins. Nos últimos anos, teve serviços prestados ao PP, ao PL e União Brasil no Estado. Este último, presidido pela Professora Dorinha, contratou o instituto antes mesmo dela ser senadora.

Assim, a contratação do instituto, que é muito conhecido no Tocantins, em especial pela precisão dos levantamentos internos diários (trackings), nada tem a ver com Rosa Cristina.

Rosa Cristina é aposentada do TST (Tribunal Superior do Trabalho) com cedência a vários parlamentares ao longo de décadas. Ela só foi cedida ao gabinete da senadora nesta legislatura e saiu em julho de 2025. O referido contrato deste ano foi assinado em agosto de 2026, bem depois de sua saída do gabinete. Portanto, está claro que não houve nenhuma influência dela. Ela já trabalhou em vários gabinetes parlamentares, tendo experiência nesse tipo de atuação.”

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