Flávio Bolsonaro, pré-candidato à presidência, passou mais tempo dando entrevistas sobre sua participação da audiência pública em Washington sobre as tarifas contra o Brasil que propriamente dando seus depoimento diante da Representação dos EUA para o Comércio, o USTR.
Nos últimos dias, a presença nos EUA do filho de um ex-presidente condenado por tentativa de golpe de estado passou a ser noticiada como um fato extraordinário e como “decisiva” nas deliberações da Casa Branca sobre o destino das tarifas contra o Brasil.
O bolsonarismo, depois de ter apoiado as barreiras, se deu conta de que isso ajudou a afundar a candidatura de Flávio. A campanha, assim, optou por transformar o candidato em um suposto defensor da economia brasileira, pedindo que o governo Trump não aplique as tarifas.
Mas o que ele fez, na prática, foi transformar um mecanismo rotineiro da estrutura administrativa dos EUA num palanque eleitoral. A manipulação foi notada inclusive por experientes diplomatas e negociadores comerciais. Entre as empresas brasileiras que tinham mandado seus representantes para a reunião, a presença do senador foi criticada e sua fala considerada como “inoportuna” por politizar o debate.
O governo dos EUA tem uma tradição de mais de 30 anos realizando audiências sobre qualquer decisão que esteja sendo considerada. Como um projeto de democracia, o estado norte-americano abre esse canal para ouvir todos os interessados no tema e permitir que sociedade civil, empresas ou consumidores possam se manifestar.
Isso ocorre praticamente todas as semanas, sobre os mais diferentes temas. Mas há um aspecto quase permanente em todas as audiências: as participações dos interlocutores são técnicas, com a apresentação de argumentos comerciais e econômicos em defesa de uma barreira ou não.
Em 2012, por exemplo, o USTR explicava que o canal de diálogo era um instrumento para “ajudar a facilitar avaliações sólidas e equilibradas” na adoção de medidas comerciais. Em dezenas de disputas comerciais, o mesmo mecanismo foi estabelecido para permitir que todos na sociedade americana pudessem apresentar suas considerações.
Em muitos deles, são os consumidores que tomam a palavra. Em outras, são as empresas afetadas ou beneficiadas. Importadores e exportadores, assim como agricultores também fazem parte.
No caso da participação de Flávio, ela ocorreu dentro de uma longa lista de participantes da audiência. No total, o governo dos EUA ouviu cerca de 80 pessoas em apenas dois dias.
Estavam inscritos para falar na audiência pessoas e entidades como a Abiarroz, Montgomery, Sociedade Rural Brasileira, Associação Americana de Comércio de Sementes, FN USA Inc., Associação dos Pecuaristas dos Estados Unidos, Confederação Brasileira da Agricultura e Pecuária (CNA), Conselho Brasileiro de Exportadores de Café (CECAFÉ), Associação Brasileira de Café Solúvel (ABICS), Associação Brasileira de Exportadores de Mel. Associação Americana de Vestuário e Calçados, Obelisk Tech Systems, Bauducco Foods Inc, Public Citizen, Associação Nacional de Produtores de Milho, União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (UNICA), Crayola LLC, Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), Taurus Holdings Inc e tantas outras.
O candidato da extrema direita, portanto, foi apenas um deles, e falou por menos de 5 minutos. Bem menos que sua exposição na imprensa brasileira ou nas redes sociais.