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Depoimento de Freire Gomes confirma destaque de Bolsonaro na trama do golpe

Versão de ex-presidente para a minuta do golpe foi mudando no decorrer das investigações
4 de março de 2024

Apesar de todos os cuidados que Jair Bolsonaro tomou para “terceirizar” os movimentos de preparação do golpe de Estado, e assim livrar-se de ser responsabilizado por atentar contra a democracia brasileira, as investigações da Polícia Federal confirmam o papel central que desempenhou na trama. Nesse sentido, teve papel fundamental o depoimento de mais de sete horas prestado à PF na sexta-feira (1º) pelo ex-comandante do Exército, Marco Antonio Freire Gomes.

O general respondeu detalhadamente às cerca de 300 perguntas que lhe foram feitas, e o sigilo em torno do conteúdo do depoimento é tão grande que nem a defesa pôde levar uma cópia do depoimento. Mas fontes da PF contaram ao menos dois trechos do interrogatório que tornam impossível acreditar que Bolsonaro nada tinha a ver com os planos golpistas, como vem sustentando.

Em uma das respostas, Freire Gomes teria dito que os acampamentos nas portas dos quartéis, pedindo intervenção militar no Brasil, não foram desmontados por ordem pessoal do então presidente da República.

Além disso, Freire Gomes teria confirmado o que o ex-ajudante de ordens de Bolsonaro, tenente-coronel Mauro Cid, disse em delação: houve uma reunião, com a presença de Bolsonaro, onde uma minuta golpista foi apresentada aos chefes das Forças Armadas.

Apenas o comandante da Marinha, Almirante Almir Garnier, teria aderido. Isso derruba a versão inicial do ex-presidente, segundo a qual ele não conhecia e não teve participação na elaboração do documento e confirma o roteiro do golpe, que a PF já tinha apresentado ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF) para sustentar a operação que prendeu apoiadores de Bolsonaro.

Bolsonaro solicitou mudanças na minuta

Segundo a investigação da polícia, a minuta inicial previa as prisões dos ministros do STF, Alexandre de Moraes e Gilmar Mendes, e do presidente do Congresso Nacional, Rodrigo Pacheco (PSD–MG). Após receber o texto, apresentado por Filipe Martins, ex-assessor especial da Presidência para Assuntos Internacionais que foi preso preventivamente, Bolsonaro solicitou mudanças a Martins. Na nova versão, permaneceram a prisão de Moraes e a convocação de novas eleições. O advogado Amauri Saad também foi alvo da operação.

“Conforme descrito, os elementos informativos colhidos revelaram que Jair Bolsonaro recebeu uma minuta de decreto apresentado por Filipe Martins e Amauri Feres Saad para executar um golpe de Estado, detalhando supostas interferências do Poder Judiciário no Poder Executivo e, ao final, decretava a prisão de diversas autoridades, entre as quais os ministros do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes e Gilmar Mendes, além do presidente do Senado, Rodrigo Pacheco e, por fim, determinava a realização de novas eleições. Posteriormente, foram realizadas alterações a pedido do então presidente, permanecendo a determinação de prisão do ministro Alexandre de Moraes e a realização de novas eleições”, diz trecho da decisão.

Após ter concordado com o novo texto, Bolsonaro, segundo a Polícia Federal, convocou uma reunião com os comandantes das Forças Armadas — almirante Almir Garnier Santos (Marinha), general Freire Gomes (Exército) e brigadeiro Carlos de Almeida Batista Júnior (Aeronáutica) — “para apresentar a minuta e pressioná-los a aderirem ao golpe de estado”. O encontro foi realizado no dia 7 de dezembro de 2022, no Palácio da Alvorada.

O depoimento do ex-comandante confirma a informação levantada pela PF.

Versões foram mudando

As versões de Bolsonaro para a tal minuta foram mudando no decorrer das investigações. No início, quando a das minuta do golpe foi apreendida na casa do ex-ministro da Justiça, Anderson Torres, ele disse que nunca tinha visto o texto ou ouvido falar. Depois, alegou que só teve contato com a minuta quando esta passou a fazer parte do processo no STF e lhe foi enviada pelo advogado.

Mais recentemente, na manifestação realizada no dia 25 de fevereiro, na avenida Paulista, já não negou que tivesse conhecimento da minuta, apenas alegou que para a decretação do estado de sítio ou estado de defesa precisaria pedir autorização do Congresso e convocar o Conselho da República, o que não foi feito.

No depoimento de sexta-feira, a PF também questionou o general sobre uma nota conjunta assinada pelos comandantes do Exército, Marinha e Aeronáutica, em novembro de 2022, defendendo o direito de manifestação dos acampados. O militar afirmou que a declaração foi ideia do então ministro da defesa, Paulo Sergio Nogueira.

O ex-comandante admitiu ainda que no dia 29 de dezembro, mandou suspender a ordem do general Gustavo Henrique Dutra, então comandante militar do planalto, que determinou o desmonte do acampamento na porta do QG em Brasília. Justificou dizendo que Bolsonaro não tinha autorizado a ação.

Mauro Cid vai depor novamente

Apesar de não ter denunciado formalmente a trama golpista, Freire Gomes alegou aos policiais que atuou contra o golpe, se recusando a mobilizar tropas do Exército para esse fim e deixando de atender a pedidos de outros envolvidos na conspiração.

O “não” do líder do Exército irritou os militares ligados a Bolsonaro. Em uma troca de mensagens com outro militar, o general Braga Neto, ex-ministro e candidato a vice de Bolsonaro, ofende Freire Gomes e reclama que ele não quis aderir ao movimento golpista.

Nas próximas semanas, a PF deve convocar o delator Mauro Cid para mais um interrogatório. Como novos fatos foram descobertos, os investigadores acreditam que Cid possa contribuir com detalhes sobre a atuação de cada militar no suposto roteiro da tentativa de golpe e esclarecer ainda mais o papel de Bolsonaro nesse plano.

Com Agência Brasil

 

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