Quem acredita que a derrota e a fuga de Flávio Bolsonaro representam o fim da extrema direita brasileira não entendeu o tamanho do problema que temos pela frente. A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva foi extraordinária, mas seria um erro histórico confundir o resultado das urnas com o desaparecimento das forças políticas que ameaçam a democracia brasileira.
Afinal, nossa luta nunca foi apenas contra Jair Bolsonaro, Flávio Bolsonaro ou qualquer outro integrante da família. O bolsonarismo é uma expressão particularmente poderosa de um fenômeno político muito maior, que antecede a ascensão do ex-presidente, possui outras lideranças e certamente sobreviverá à derrocada de sua família.
E há uma dimensão adicional desse problema que considero fundamental compreender: a extrema direita brasileira não está sozinha. Ela integra uma rede transnacional de movimentos, partidos, empresários, influenciadores e lideranças políticas que compartilham estratégias, recursos, discursos e, em determinadas circunstâncias, mecanismos de proteção mútua.
Mas isso não significa que Jair Bolsonaro seja simplesmente uma versão brasileira de Donald Trump ou que nossa extrema direita seja uma cópia importada dos Estados Unidos. Pelo contrário. O Brasil tem uma longa e particular história de autoritarismo, violência política e experiências antidemocráticas.
Somos o país do samba, do futebol e de uma extraordinária diversidade cultural. Mas somos também o país de mais de três séculos de escravidão, de uma abolição que não foi acompanhada pela reparação das desigualdades e de uma tradição de violência contra aqueles que ousam desafiar as estruturas de poder.
Nos anos 1930, a Ação Integralista Brasileira se tornou uma das maiores experiências de mobilização fascista fora da Europa. Décadas depois, o país atravessou 21 anos de ditadura militar, com censura, perseguições, tortura e assassinatos políticos. E, já no século XXI, elegemos um presidente que homenageava torturadores, defendia publicamente a ditadura e tentou subverter o resultado de uma eleição que havia perdido.
Portanto, não somos apenas importadores do autoritarismo. O Brasil também produz, desenvolve e exporta suas próprias experiências antidemocráticas. Em determinados momentos, fomos inclusive pioneiros na organização de movimentos extremistas de massa.
É precisamente essa combinação entre uma tradição autoritária nacional e uma rede internacional de apoio que torna o cenário atual tão preocupante.
As noites húngaras e a fuga de Flávio
A fuga de Flávio Bolsonaro não deve ser interpretada apenas como um ato individual de covardia diante da derrota eleitoral. Ela também precisa ser compreendida dentro de uma dinâmica política internacional que oferece aos extremistas oportunidades de abrigo, articulação e projeção mesmo quando perdem poder em seus próprios países.
Foi pensando nessa dimensão do problema que decidi batizar meu projeto de jornalismo independente de Noites Húngaras. Em março de 2024, revelei, ao lado de meus então colegas do jornal americano The New York Times, que Jair Bolsonaro havia passado duas noites escondido na Embaixada da Hungria, em Brasília, poucos dias depois de ter seu passaporte apreendido pela Polícia Federal.
Não se tratava de uma representação diplomática qualquer. A Hungria era governada por Viktor Orbán, um dos principais expoentes da direita nacionalista europeia e aliado político declarado de Bolsonaro. Seu governo se tornou referência internacional para movimentos que defendem a concentração de poder, confrontam instituições independentes e apresentam o pluralismo democrático como uma ameaça.
Aquelas duas noites na embaixada, portanto, representavam muito mais do que um episódio curioso da vida de um ex-presidente investigado. Eram uma janela para compreender o funcionamento de uma rede internacional de solidariedade entre lideranças autoritárias.
O episódio não demonstrava, por si só, a existência de um plano de fuga. Mas revelava a proximidade entre Bolsonaro e um governo estrangeiro disposto a recebê-lo em sua representação diplomática num momento particularmente delicado de sua situação jurídica.
A fuga de Flávio, agora, reforça a importância de investigar essas conexões. Para compreender o futuro da extrema direita brasileira, será necessário olhar cada vez mais para além das nossas fronteiras.
Quem oferece apoio político a essas lideranças? Quais interesses econômicos sustentam suas articulações? Como circulam os recursos, as estratégias de comunicação e os instrumentos de influência? De que maneira alianças internacionais podem ser utilizadas para proteger personagens envolvidos em ataques às instituições democráticas?
Essas são perguntas que o jornalismo brasileiro precisa continuar fazendo.
A vitória não pode ser sequestrada
Mas há outra dimensão dessa história que me preocupa ainda mais. Em apenas dois dias, a extrema direita conseguiu deslocar parte do debate público da extraordinária vitória de Lula para mais um episódio protagonizado pela família Bolsonaro.
É evidente que a fuga de um senador derrotado na disputa presidencial merece cobertura jornalística, investigação e responsabilização pelas autoridades competentes. O problema surge quando a agenda dos derrotados passa a determinar, mais uma vez, os termos de toda a discussão política nacional.
A vitória de Lula não foi um acontecimento trivial. Foi uma demonstração da capacidade de resistência da sociedade brasileira diante de um movimento que tentou desacreditar as eleições, enfraquecer as instituições e naturalizar a violência política.
Essa vitória precisa ser celebrada, compreendida e, sobretudo, consolidada. Não podemos permitir que a sucessão de escândalos produzidos pela extrema direita nos impeça de discutir o que fazer com a oportunidade política aberta pelo resultado das urnas.
O país precisa debater o fortalecimento das instituições democráticas, a responsabilização dos envolvidos em tentativas de ruptura institucional, a regulação das plataformas digitais, o combate à desinformação e a construção de uma comunicação política capaz de alcançar milhões de brasileiros.
Também precisa enfrentar as condições sociais, econômicas e culturais que permitiram à extrema direita conquistar tamanha influência. Nada disso será resolvido simplesmente porque um candidato perdeu uma eleição.
O bolsonarismo não surgiu do nada, tampouco desaparecerá espontaneamente. Suas ideias encontram terreno fértil em setores da sociedade brasileira, suas lideranças ocupam espaços institucionais e suas redes de comunicação continuam operando.
E mesmo que a família Bolsonaro perca definitivamente sua centralidade política, outras figuras estarão prontas para ocupar esse espaço. É por isso que considero tão perigosa a ideia de que a democracia brasileira finalmente pode descansar. Não pode.
A trincheira não pode ficar vazia
A história recente demonstrou que a extrema direita não depende exclusivamente do controle do governo federal para exercer influência sobre a sociedade. Ela atua nas redes sociais, nas instituições, nos parlamentos, nas organizações religiosas, nos movimentos empresariais e nas estruturas de comunicação. E continuará atuando.
A resposta democrática precisa estar à altura desse desafio. Isso significa produzir informação de qualidade, investigar os centros de poder, revelar conexões internacionais, combater a violência política e disputar permanentemente o debate público. Significa também compreender que defender a democracia não é uma tarefa restrita aos períodos eleitorais.
Não basta derrotar um candidato nas urnas se, no dia seguinte, abandonamos os espaços em que suas ideias continuam circulando e conquistando adeptos. A eleição terminou, mas a disputa sobre que país queremos construir está longe de acabar.
A vitória de Lula oferece uma oportunidade histórica para avançar na reconstrução democrática do Brasil. Desperdiçá-la seria permitir que aqueles que perderam nas urnas continuassem determinando os limites do nosso horizonte político.
Não tenho dúvidas de que ainda teremos muita dor de cabeça com a extrema direita brasileira. Ela tem raízes profundas, recursos, capacidade de reorganização e aliados poderosos dentro e fora do país. Por isso, a conclusão que tiro da fuga de Flávio Bolsonaro é exatamente a oposta à de quem acredita que tudo terminou.
A eleição acabou. O golpismo, não. E a trincheira democrática não pode ficar desocupada.