O governo de Luiz Inácio Lula da Silva chama a declaração de Donald Trump colocando dúvidas sobre o resultado no Brasil como “choro de perdedor” e aponta que a virada do petista é uma derrota para a estratégia dos EUA de controle e influência na América Latina.
A esperança do Palácio do Planalto é a de criar uma “relação pragmática” com a Casa Branca e espera que mesmo a fuga de Flávio Bolsonaro não seja um obstáculo nessa estratégia.
O governo considera que a família Bolsonaro já está “entrincheirada” nos EUA e que um pedido de extradição do senador sequer será aceito, como tantos outros casos.
Mas, ainda assim, o governo espera construir uma relação que vá além do grupo bolsonarista.
Governo considera que conseguiu anular uma ação mais explícita de Trump na eleição e que a blindagem do processo democrático nacional criou um constrangimento para que ele fizesse qualquer tipo de declaração mais enfática.
O caminho dos EUA foi, na avaliação de Brasília, o uso da influência das redes sociais, como a Meta.
Na segunda-feira, depois que Trump colocou em dúvida o resultado eleitoral no país, o Palácio do Planalto avaliou se deveria responder oficialmente ou não. A decisão foi a de ficar em silêncio para não alimentar a tese de conspiração. O governo apenas vai responder se Trump insistir em repetir a desinformação de uma suposta fraude e indica que irá usar os relatórios do Carter Center e da OEA para desmontar a narrativa da extrema direita. Em ambos os informes, a eleição no Brasil foi amplamente elogiada.
O Palácio do Planalto, ainda assim, admite que o grande desafio para os próximos anos é o de construir uma relação “pragmática” com o governo de Donald Trump. Mas a aposta é de que Lula sai fortalecido nas urnas em, ao mesmo tempo, o americano pode ser enfraquecido por derrotas nas eleições Legislativas em novembro.
A correlação de forças, assim, seria modificada. Há ainda uma sinalização que a ala mais ideológica dentro do governo dos EUA, liderada por Marco Rubio, tenha sido enfraquecida com a vitória de Lula e que os grupos que querem trabalhar com o Brasil podem ganhar espaço.
O primeiro passo será retomar a negociação de um acordo comercial, tentando superar meses de crise diplomática. O governo espera que o Escritório de Comércio da Casa Branca (USTR) devolva a ideia da criação de um cronograma para solucionar as tarifas ainda pendentes entre os dois países.
Outro passo será a retomada do processo de autorização para que o embaixador de Trump possa assumir o cargo em Brasília. Mas o Brasil já indicou que vai tratar o nome escolhido pela Casa Branca – Daniel Perez – da mesma forma que a embaixadora do país em Washington, Maria Luiza Viotti, vem recebendo.
O que vai prevalecer é a reciprocidade e o Brasil não pode dar melhor tratamento ao americano que o status de Viotti em Washington.
Nos últimos meses, a diplomata teve seu visto modificado. Se ela sair dos EUA, não pode retornar, sem pedir uma nova autorização.
Segurança e vizinhos
De uma forma mais geral, o governo vê a blindagem da eleição como uma vitória também da política externa brasileira.
Um destaque foi a rápida reação de governos de extrema direita, como o Chile, e aliados de Trump, como Peru, Equador e Paraguai, nas parabenizações ao presidente Lula.
Observadores apontam que isso não ocorreu por acaso. O Brasil tentou reconstruir a relação com cada um desses governos, inclusive enviado emissários para suas respectivas posses.
Os gestos foram, segundo observadores, “medidas dissuasivas”, justamente pensando em uma reciprocidade. O objetivo do governo era o de impedir que a família Bolsonaro e a extrema direita criassem uma “cinturão de isolamento” ao Brasil.
Agora, com vários países, Lula tentará restabelecer uma agenda de cooperação, inclusive no setor de segurança.