Com o argumento de supostamente lutar contra o narcotráfico, o governo de Donald Trump está enviando para a América Latina centenas de soldados. Oficialmente, os militares vão participar de exercícios com outros governos da região. Mas o gesto ocorre num momento em que o Pentágono fala abertamente na militarização de sua presença no continente e no envio de drones para a região.
As informações estão sendo reveladas pelo jornal The New York Times e confirmam a tendência já mostrada pelo ICL Notícias de uma proliferação de ações militares dos EUA em locais como Equador, Peru e Colômbia, além de pactos militares com a Argentina de Javier Milei, Bolívia e Chile.
Uma das bandeiras da política externa de Trump é o Escudo das Américas, aliança militar com governos de extrema direita da região e que abre a possibilidade de um controle efetivo dos EUA sobre porções dos territórios do continente, além de garantir o acesso americano à inteligência militar da região. Flávio Bolsonaro já anunciou que, se vencer a eleição, pedirá a adesão do Brasil ao bloco criado pela Casa Branca, um gesto aplaudido por Marco Rubio, o chefe da diplomacia de Trump.
Desta vez, os 600 soldados terão sua base no Panamá e a perspectiva é de que essa unidade possa ser mobilizada e transferida para a Colômbia, Honduras e outros países da região nos próximos meses. Não se descarta que o grupo formado a partir da 10ª Divisão de Fort Drum seja destacado para operações específicas no continente ou para dar apoio a helicópteros americanos em missões no continente.
Enquanto isso, outros centenas de militares irão reforça, nos próximos meses, o Comando do Hemisfério Ocidental, com base em Miami.
A militarização da América Latina passou a ser uma das prioridades da política de defesa dos EUA. O governo Trump já realizou operações em diferentes países e fechou um acordo para o estabelecimento de uma base militar no Paraguai. Acordos bilaterais para dar maior acesso aos americanos foram fechados com pelo menos 18 países da região.
Em agosto, o principal comandante militar dos EUA para a maior parte da América Latina, o general Francis L. Donovan, afirmou que os Estados Unidos planejam expandir suas operações, passando de ataques a embarcações para ataques em terra.
Naquele mês, a Casa Branca anunciou a criação de uma central de inteligência que, sob o comando dos EUA, poderia atuar em toda a região.
Os países ainda seriam submetidos a entregar inteligência de pessoas e organizações, numa espécie de ofensiva regional contra qualquer ator que possa ser considerado como uma “ameaça” aos interesses dos EUA.
Hoje, o discurso é de que a ameaça vem dos cartéis. Mas há quem tema que a estrutura montada permitirá que os EUA se dêem todos os meios para frear qualquer tipo de ator que possa representar algum desafio para seus interesses.

Recuperar terreno da China
O acesso aos recursos naturais, por exemplo, seria um desses cenários futuros, principalmente com a concorrência da China. Num documento que circulou em setembro entre os países do Escudo das Américas, o governo norte-americana fala abertamente na “salvaguarda do acesso a minerais críticos da região” como parte da missão.
Segundo o New York Times, no início desta semana, o general Joseph A. Ryan, que chefia o Comando do Hemisfério Ocidental do Exército, descreveu os desafios complexos que as forças armadas dos EUA enfrentam ao retornar a uma região que, por décadas, não foi seu foco principal. “Trata-se de uma parte do mundo onde a China exerce uma influência econômica crescente e onde cartéis de drogas estabeleceram redes globais sofisticadas para a venda de seus produtos ilícitos, disse ele.
“Cedemos o domínio econômico na região a um adversário; isso é um fato”, declarou o general Ryan na segunda-feira, durante a conferência anual da Associação do Exército dos EUA, em Washington. “Estamos lutando agora para recuperar terreno — marítimo e terrestre, terreno humano, terreno cognitivo — que, em muitos casos, havíamos abandonado anteriormente.”
Plano Condor 2.0
O ICL Notícias apurou que membros de forças de oposição em países latino-americanos que optaram por entrar no projeto falam da repetição da lógica do Plano Condor, criado nos anos 70 para coordenar ações contra atores subversivos na região. A diferença é que, naquele momento, a operação era sigilosa.
Dias antes do anúncio da construção concreta da aliança, o Comando Sul dos EUA ativou a Força-Tarefa Conjunta do Hemisfério Ocidental (JTF-WHEM). A estrutura, segundo nota do Pentágono, foi “criada especificamente para sincronizar as operações militares dos EUA com aliados e parceiros, a fim de combater ameaças, fortalecer a segurança regional e responder rapidamente a crises em todo o Hemisfério Ocidental”.
“O Comandante do SOUTHCOM, General Francis L. Donovan, ordenou a ativação da JTF-WHEM, que fornece comando e controle unificados nos níveis tático e operacional, integrando capacidades militares com as 18 nações parceiras da Coalizão Anticartel das Américas (A3C) para aumentar a eficácia operacional contra ameaças que prejudicam a segurança regional e impactam os Estados Unidos e as nações parceiras”, explicou.
De acordo com a nota, o órgão também fortalece a capacidade do SOUTHCOM de responder rapidamente a “contingências e crises humanitárias em toda a região”.
“A JTF-WHEM fortalece nossa capacidade de trabalhar ao lado de aliados e parceiros confiáveis, sincronizar capacidades militares e aplicar pressão sustentada contra as redes que ameaçam nossa segurança coletiva”, disse Donovan. “Juntos, estamos aumentando a segurança em todo o hemisfério e protegendo nossa pátria.”
Donovan selecionou o major-general do Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA, Kevin Jarrard, para comandar a nova força-tarefa. Jarrard foi quem liderou recentemente o apoio militar dos EUA às operações de socorro após os terremotos de junho de 2026 na Venezuela.
Troca de inteligência
O que chamou a atenção de diplomatas estrangeiros e brasileiros é que a nova força-tarefa afirma que integra inteligência, vigilância e reconhecimento, planejamento operacional e coordenação multinacional para “aumentar a pressão sobre organizações nefastas que operam em todo o Hemisfério Ocidental”.
Um dos pontos centrais é o o fato de que “força-tarefa fortalecerá o compartilhamento de informações, expandirá o treinamento combinado, aprimorará a interoperabilidade, apoiará os esforços de interdição marítima, desenvolverá a capacidade dos parceiros e permanecerá preparada para fornecer assistência humanitária e resposta a desastres quando solicitada”.
“A Força-Tarefa Conjunta do Hemisfério Ocidental é o braço de ação do SOUTHCOM para enfrentar ameaças em todo o hemisfério”, disse Donovan. “Construído especificamente para esse fim e organizado para tarefas específicas, este quartel-general reúne capacidades militares personalizadas e parcerias de confiança para aumentar a fricção sistêmica total, o ritmo operacional, impor pressão sustentada sobre organizações criminosas e fortalecer a segurança dos Estados Unidos e de nossos parceiros. Juntamente com as 18 nações, estamos mudando a forma como enfrentamos essas ameaças”, completou.
