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A semelhança entre Gaza e favelas do RJ, por um brasileiro de origem palestina

"Tem também a mídia, que constrói um imaginário na sociedade de desumanização dos palestinos e dos moradores da favela", diz Feres
29 de novembro de 2023

Por Chico Alves

Foi o cotidiano de violência e problemas sociais que inspirou os moradores da favela da Maré, no Rio de Janeiro, a batizar um dos trechos da comunidade como “Faixa de Gaza”. Brasileiro de origem palestina, Marcos Feres, de 28 anos, concorda que são muitas as semelhanças entre territórios como as comunidades pobres do Rio de Janeiro e a terra de seus avós.

Formado em Rádio e TV na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Feres é atualmente coordenador de comunicação da Federação Árabe Palestina do Brasil (Fepal).

“Sou um palestino de terceira geração, neto de uma refugiada da Nakba, da catástrofe, a limpeza de mais de 750 mil palestinos realizada pelos sionistas, por Israel, entre 1947 e 1951”, conta ele. “No caso da minha avó, especificamente, ela era da cidade de Haifa, que hoje é território de Israel. Foi expulsa junto a outros 70 mil dos 75 mil que faziam parte da população total da cidade”. Depois de passar um tempo no Líbano e na Síria, os avós de Feres chegaram ao Brasil.

Em entrevista ao ICL Notícias, ele aponta as muitas semelhanças e a principal diferença entre a Faixa de Gaza original, na Palestina, que está há décadas sob ataque de Israel, e a “Faixa de Gaza” da Maré, cuja população sofre também há décadas com problemas sociais e a violência de Estado.

ROTINA DE VIOLÊNCIA

A principal semelhança é a violência, a violência de berço, a violência como uma realidade posta para todos. Para toda a população de Gaza, para toda a população da Maré, para toda a população de comunidades do Rio, para toda a população palestina também na Cisjordânia. É a desumanização. Tem também a desumanização por parte da mídia, que constrói um imaginário na sociedade de desumanização dos palestinos e dos moradores da favela, de comunidades no Rio de Janeiro.

FALTA DE PERTENCIMENTO

Outra semelhança com as comunidades do Rio é a privação. Privação de itens básicos de vida. Eu falo de itens de saúde, de higiene, de acessos fundamentais, mas também falo de privação de acesso a itens culturais, a um pertencimento ao próprio território. Os palestinos em Gaza vivem num campo de concentração há 17 anos. Os palestinos da Cisjordânia vivem em um regime de apartheid, uma ocupação militar ilegal que já dura mais de 50 anos, 56 anos para ser mais preciso. Eu discordo desse termo, mas mesmo os ditos árabes israelenses que residem e têm cidadania dentro do que se considera território de Israel são cidadãos de segunda classe, também vivem sobre o regime de apartheid. Vivem reprimidos de diversas maneiras por esse Estado, até porque Israel tem uma legislação supremacista que privilegia os judeus israelenses e os demais cidadãos de Israel.

HISTÓRIAS NEGADAS

A principal semelhança talvez seja o fato de que ambas as populações não têm uma chance de prosperar, de serem vistas como seres humanos, como pessoas dignas de terem as histórias contadas, de florescerem como indivíduos, de contribuírem com a sociedade, de desenvolverem o potencial. Eu acho que talvez essa seja a grande semelhança. Ambos os grupos são privados desenvolverem o próprio potencial. As barreiras, sejam elas físicas, sejam elas subjetivas, sejam elas sociais, racistas, de qualquer ordem, elas são feitas pra impedir que essas populações floresçam, se desenvolvam, que uma juventude surja. Que essas populações, em última instância, existam. Existam como membros da sociedade, como seres que contribuem para a sociedade e que vivam como seres humanos dignos.

DIFERENÇA

E eu penso que a principal diferença é a forma como se dá essa opressão, em como se dá a violência, em como se dá a matança. Porque há um genocídio contínuo, um genocídio continuado, um contexto de apartheid estabelecido nos dois territórios, tanto em Gaza, quanto na Maré e em outras comunidades do Rio. Mas eu acho que a principal diferença talvez sejam os mecanismos usados. Aqui no Brasil a gente tem, pelo menos no imaginário ideal, na forma da lei, princípios elementares de igualdade, todos são iguais perante a lei, direitos e deveres estabelecidos. Há ,pelo menos na lei, na Constituição e nos princípios que regem o Brasil, igualdade entre todos. É lógico que isso não acontece, isso não se dá. Justamente pelas barreiras que eu falei nas semelhanças, através do extermínio, da violência, da desumanização. Enfim, não faltam termos e mecanismos pra isso.

LEIS DE APARTHEID

Na Palestina, em qualquer parte da Palestina ocupada, não há igualdade nem na forma de texto. Não há igualdade, nem como princípio, não há igualdade nem como preceito universal. É isso que constitui o apartheid em sua forma legal. A população palestina em Gaza ou em qualquer um dos territórios palestinos é privada da universalidade dos direitos, pela lei. São desumanizados, são violentados, não só por práticas, não só por uma subjetividade da violência. Mas por registro, pela falta de igualdade que não aparece nem como um princípio constitucional, nem como princípio universal de direitos humanos.

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