Uma proteína encontrada no inhame pode abrir caminho para o desenvolvimento de novos tratamentos contra o câncer. Pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e da Universidade Estadual do Maranhão (Uema) identificaram que a substância, chamada tarina, apresentou resultados promissores contra células de câncer de mama e de glioblastoma, um dos tipos mais agressivos de tumor cerebral.
A descoberta faz parte de uma linha de pesquisa desenvolvida há mais de 15 anos pelas instituições. Segundo artigo publicado pelas pesquisadoras Patricia Ribeiro Pereira, Raiane Vieira Cardoso e Vânia Margaret Flosi Paschoalin na plataforma The Conversation, a proteína possui propriedades antitumorais e pode contribuir para a criação de medicamentos mais seletivos.
Para investigar seus efeitos, os cientistas desenvolveram uma formulação que utiliza nanotecnologia para transportar a tarina até as células tumorais. Nos experimentos, a substância conseguiu interromper a multiplicação de células cancerígenas e ativar mecanismos que provocam sua morte.
Os testes foram realizados em culturas de células de câncer de mama e glioblastoma. Além de reduzir a proliferação dos tumores, a formulação diminuiu a capacidade de migração das células, característica importante no processo de disseminação do câncer pelo organismo.
Outro resultado considerado relevante foi a ausência de toxicidade observada em culturas de células humanas saudáveis nas condições analisadas. A descoberta indica que a proteína pode apresentar maior seletividade, uma das principais dificuldades enfrentadas pelos tratamentos convencionais, que também podem atingir tecidos saudáveis.

Potencial para tratar tumores cerebrais
No caso do glioblastoma, os pesquisadores também avaliaram a capacidade da formulação de atravessar a barreira hematoencefálica, estrutura que protege o cérebro e dificulta a chegada de medicamentos.
Em testes laboratoriais, aproximadamente 20% da formulação conseguiu atravessar um modelo dessa barreira após 180 minutos. O resultado sugere a possibilidade de aperfeiçoar a tecnologia para facilitar a chegada de substâncias terapêuticas aos tumores cerebrais.
Apesar dos avanços, os cientistas ressaltam que a pesquisa ainda está na fase pré-clínica. Até o momento, os resultados da formulação antitumoral foram obtidos em culturas celulares, sendo necessários novos experimentos, incluindo estudos em animais e, posteriormente, ensaios clínicos em seres humanos.
A equipe também pretende investigar se a tarina pode ajudar a reduzir efeitos adversos da quimioterapia. Estudos anteriores com camundongos identificaram benefícios da proteína na recuperação de alterações provocadas por medicamentos quimioterápicos.
Os pesquisadores destacam, entretanto, que os resultados não significam que comer inhame previna ou cure o câncer. Os efeitos observados estão relacionados a uma proteína isolada e preparada em laboratório, e não ao consumo do alimento.