Por Cleber Lourenço
A investigação sobre o escândalo envolvendo o Banco Master ainda está longe de entrar em sua fase final. Nos bastidores do Supremo Tribunal Federal, a avaliação predominante é de que o caso está apenas no início e que as apurações devem se prolongar por um período significativo — possivelmente atravessando o calendário eleitoral.
Um dos elementos que demonstram o estágio ainda inicial do inquérito é a perícia nos celulares apreendidos com o banqueiro Daniel Vorcaro. Ao todo, oito aparelhos foram recolhidos durante a operação da Polícia Federal, mas apenas um teve a análise técnica concluída até agora. Os outros sete ainda aguardam a extração e o cruzamento completo dos dados.
Investigadores consideram esses aparelhos peças-chave para reconstruir a rede de relações que envolve o caso. A expectativa é que as mensagens e registros armazenados nos dispositivos revelem novas conexões e indiquem a participação de outros atores ainda não formalmente identificados.
A investigação também não concluiu a oitiva de todos os personagens mencionados nas diligências já realizadas. Parte dos nomes citados em documentos e comunicações ainda sequer foi formalmente ouvida.
Nos bastidores do STF, interlocutores que acompanham o andamento do caso afirmam que a dimensão da investigação é incomum mesmo para processos de grande porte. O inquérito reúne múltiplos núcleos de atuação, operações financeiras complexas e diferentes agentes do mercado e do setor público.
Entre integrantes da Corte existe também preocupação com a duração das apurações. Casos dessa magnitude tendem a se prolongar e podem coincidir com momentos politicamente sensíveis, como o período eleitoral.
Embora o ministro André Mendonça ainda não tenha formalizado a prorrogação do inquérito, entre interlocutores da Corte a avaliação é de que essa decisão se tornou inevitável diante da quantidade de diligências ainda pendentes. A expectativa é que o prazo seja estendido para permitir a conclusão de perícias, novos depoimentos e o aprofundamento das frentes abertas na investigação.
Nos bastidores do tribunal também há a percepção de que dificilmente o caso deixará o Supremo Tribunal Federal. A avaliação é de que a dimensão institucional e os atores envolvidos tendem a manter a investigação sob a jurisdição da Corte.
Um dos fatores que pode ampliar significativamente o alcance do caso é a possibilidade de acordos de colaboração. Investigadores avaliam que eventuais delações de personagens centrais do escândalo, como Daniel Vorcaro ou o ex-pastor Fabiano Zetter, poderiam abrir novas frentes de apuração.
No entanto, existe ceticismo sobre até onde uma eventual colaboração poderia avançar. Há dúvidas sobre até onde a defesa do ex-banqueiro estaria disposta a conduzir uma delação que possa implicar integrantes de tribunais superiores.
Tradicionalmente, criminalistas evitam conduzir acordos de colaboração que envolvam magistrados — especialmente integrantes de tribunais superiores. Advogados que assinam esse tipo de delação temem sofrer isolamento profissional nas Cortes, o que poderia comprometer sua atuação futura.
Por essa razão, entre especialistas do meio jurídico a hipótese de uma delação que envolva ministros do Supremo é considerada extremamente improvável.
Ao mesmo tempo, Vorcaro enfrenta um dilema jurídico caso opte por colaborar. Se um acordo de delação omitir fatos relevantes ou deixar de mencionar participantes importantes do esquema, o colaborador pode perder os benefícios concedidos.
Pelo modelo jurídico brasileiro, a omissão deliberada de informações pode levar à rescisão do acordo. Mesmo assim, as provas já apresentadas pelo colaborador permanecem válidas e podem ser usadas contra ele.
Esse risco ganha peso adicional no caso Master porque a investigação continua produzindo novas evidências. Entre elas estão justamente os sete celulares apreendidos que ainda passam por análise técnica.
Se o avanço das perícias ou de outras diligências revelar fatos que tenham sido omitidos em uma eventual colaboração, o acordo poderá ser questionado — ampliando ainda mais a pressão jurídica sobre os investigados e expandindo o alcance da investigação.