Líderes franceses se unem contra Flávio: eleição seria ‘vitória decisiva’ para Trump

Em tribuna publicada com exclusividade pelo jornal Le Monde e pelo ICL Notícias, mundo político francês lança alerta sobre ameaça à democracia brasileira
ouça este conteúdo
00:00 / 00:00
1x

Alguns dos principais líderes políticos da França e candidato à eleição presidencial no país europeu em 2027 alertam para o risco de uma vitória de Flávio Bolsonaro, no Brasil.

Em uma tribuna publicada com exclusividade no Le Monde e no ICL Notícias, o grupo alerta para a ameaça à democracia brasileira.

O texto é assinado por personalidades como Bally Bagayoko (prefeito de Saint-Denis, LFI), Elsa Faucillon (deputada, PCF), Olivier Faure (primeiro-secretário do Partido Socialista), Céline Hervieu (deputada, PS), Jean-Luc Mélenchon, candidato à eleição presidencial de 2027, Fabien Roussel, candidato à eleição presidencial de 2027, Christiane Taubira, ex-ministra da Justiça, e Marine Tondelier, candidata à eleição presidencial de 2027, além de dezenas de outros nomes do cenário político francês.

Para eles, Flávio Bolsonaro “representaria uma vitória decisiva para Donald Trump e sua doutrina “Donroe” de controle do Hemisfério Ocidental”.

“A eleição do filho de Bolsonaro acrescentaria mais um elo à cadeia de vitórias da extrema-direita em escala global”, alertam.

“Não podemos permanecer indiferentes a essa perspectiva sombria”, constatam. “Defender a democracia brasileira é, também, defender a nossa”, insistem.

No texto, os franceses pedem que o brasileiros “compareçam às urnas no dia 25 de outubro e votarem em Lula, a fim de barrar a extrema-direita e trabalhar pela democracia no Brasil”.

Leia a declaração completa:

No último dia 4 de outubro, o primeiro turno das eleições gerais no Brasil trouxe um veredito terrível. Na disputa presidencial, Flávio Bolsonaro ficou em primeiro lugar com 47% dos votos, contra 45% de Lula — uma vantagem de mais de dois milhões de votos —, contrariando as previsões da maioria das pesquisas. No mesmo dia, o Partido Liberal (PL), da família Bolsonaro, elegeu 121 deputados de um total de 513 (contra 99 em 2022) e 28 senadores de um total de 81 (contra 15 anteriormente). O partido tornou-se a principal força em ambas as casas legislativas, com a maior bancada já conquistada por uma única legenda desde a promulgação da Constituição de 1988. O PL e seus aliados ocuparão 49 das 81 cadeiras no Senado, contra 27 da esquerda, e, muito provavelmente, deterão a maioria na Câmara dos Deputados. O saldo deste 4 de outubro é um Congresso dominado, como nunca antes, pela extrema-direita aliada à direita, com Flávio Bolsonaro à frente de Lula na corrida presidencial.

Assim, mesmo antes do segundo turno da eleição presidencial, marcado para domingo, 25 de outubro, o cenário aponta para um mandato ainda mais preocupante do que o da presidência de Bolsonaro pai (2019-2022). Este último promoveu um desmantelamento sistemático dos avanços alcançados pelos governos de esquerda — em áreas como políticas sociais, meio ambiente, direitos de minorias e povos indígenas, economia e relações internacionais, entre outras —, ao mesmo tempo em que o desmatamento da Amazônia se acelerou drasticamente. Se ele chegar ao poder, seu filho terá uma margem de manobra que o pai não tinha: um Congresso amplamente alinhado à sua causa e a possibilidade de atacar os últimos contrapesos ao poder que resistiram ao Executivo, notadamente o Supremo Tribunal Federal (STF).

As consequências de uma eleição de Flávio Bolsonaro — totalmente alinhado à ideologia de seu pai — são, infelizmente, previsíveis, uma vez que ele declarou claramente suas intenções. Ele promete libertar o pai, condenado a vinte e sete anos de prisão por tentativa de golpe de Estado, e colocar nele, pessoalmente, a faixa presidencial; parlamentares do PL já anunciam a intenção de votar uma anistia, inclusive para os envolvidos nos atos de 8 de janeiro de 2023, que depredaram o Palácio do Planalto, o Congresso e o Supremo Tribunal Federal. Ele também deseja reformular o STF, cujos ministros ousaram processar os golpistas. No campo social, ele empunha uma tesoura em seus vídeos de campanha e anuncia o retorno dos cortes orçamentários em programas sociais. Somam-se a isso a pilhagem da Amazônia, a caçada generalizada ao “woke” (ou “wokismo”), a estigmatização da diversidade — de gênero, racial e cultural — e alterações na Constituição, como o retrocesso nos direitos dos povos indígenas e das comunidades quilombolas, além da extensão do mandato presidencial. A essa lista, já desesperadoramente longa, deve-se acrescentar a submissão do Supremo Tribunal Federal — com o Senado ganhando poder para destituir ministros de inclinação à esquerda —, a perseguição a opositores e o incentivo para “se livrar” deles…

Estamos tão preocupados quanto as brasileiras e os brasileiros. O Brasil nas mãos da família Bolsonaro — a potência da América do Sul, com 214 milhões de habitantes e a maior economia do subcontinente — faz com que a quase totalidade da região se incline para a extrema-direita, seguindo os passos da Argentina, da Colômbia e do Peru. Isso terá um impacto significativo nas relações da França e da União Europeia com a América Latina, tanto na questão climática quanto na comercial.

Isso representaria também uma vitória decisiva para Donald Trump e sua doutrina “Donroe” de controle do Hemisfério Ocidental. Sem ter apoiado formalmente Flávio Bolsonaro, o presidente americano exerceu influência sobre a campanha: tarifas alfandegárias punitivas — justificadas com base no processo contra Jair Bolsonaro, classificado como uma “caça às bruxas” — e sanções contra o juiz Alexandre de Moraes, que conduziu o referido processo. O irmão de Flávio, Eduardo, foi, inclusive, condenado em junho a quatro anos e dois meses de prisão por ter pressionado a administração Trump a aplicar tais sanções. Por sua vez, Flávio Bolsonaro alinha-se totalmente às ambições de Washington: ele pretende integrar o Brasil ao “Shield of the Americas” (Escudo das Américas), coalizão lançada pela administração Trump para combater o “terrorismo” na América Latina — iniciativa à qual Lula se recusou a aderir, em nome da defesa da soberania brasileira. Por fim, a eleição do filho de Bolsonaro acrescentaria mais um elo à cadeia de vitórias da extrema-direita em escala global.

Não podemos permanecer indiferentes a essa perspectiva sombria, sobretudo porque ela poderia favorecer a trajetória do *Rassemblement National* (Reagrupamento Nacional) rumo à conquista do poder na França, em 2027. As mesmas estratégias — guerra cultural, discurso focado na segurança e desprezo pelos contrapesos ao poder — estão em curso, e cada vitória da extrema-direita no exterior torna essa possibilidade mais “normal” em nosso próprio país. Defender a democracia brasileira é, também, defender a nossa.

Nada está decidido. A diferença entre os dois candidatos é inferior a dois pontos percentuais, e mais de trinta milhões de eleitores não compareceram às urnas no dia 4 de outubro. Esse contingente de votos, que Lula pode mobilizar até o dia 25 de outubro, tem o potencial de definir o resultado da eleição. Por isso, nós, signatários deste manifesto, conclamamos todas as brasileiras e todos os brasileiros que rejeitam este cenário sombrio — especialmente aqueles e aquelas que não se manifestaram no primeiro turno, incluindo os eleitores e eleitoras de nacionalidade brasileira na França — a comparecerem às urnas no dia 25 de outubro e votarem em Lula, a fim de barrar a extrema-direita e trabalhar pela democracia no Brasil. Quaisquer que sejam as nossas diferenças, compartilhamos a mesma exigência: que a democracia, os direitos fundamentais e o Estado de Direito não retrocedam em lugar algum.

Carregar Comentários
Assine nossa newsletter
Receba nossos informativos diretamente em seu e-mail