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Livro sobre Adriano da Nóbrega mostra infiltração do crime na polícia do Rio

Capataz do chefão do jogo do bicho conseguiu colocar Adriano e outro pupilo, João Ferreira Martins, como “infiltrados” no Batalhão de Operações Especiais, o Bope
10 de janeiro de 2024

Por Nicolás Satriano

A vida de Adriano da Nóbrega, um dos sicários mais violentos do submundo do Rio de Janeiro, é destrinchada pelo jornalista Sérgio Ramalho no livro Decaído (Editora Matrix). Ao contar detalhes menos e mais escabrosos da vida do mercenário, um dos capítulos da obra expõe como foi a transformação de Gordo (apelido de adolescente de Adriano) em Capitão Adriano, ex-oficial do Bope.

Morto na Bahia em 2020 enquanto fugia da polícia, Adriano da Nóbrega passava incólume pela opinião pública até ser revelada a existência de um grupo de assassinos chefiado por ele: o Escritório do Crime. Mas até chegar a ser o líder dos matadores de aluguel, Adriano percorreu um caminho que se cruzou com o clã Paes Garcia, histórica família de bicheiros do Rio.

Inclusive, foi graças à influência e grana dos bicheiros que Adriano entrou para as fileiras da Polícia Militar fluminense. No livro, Sérgio Ramalho narrou conversas que teve com Rogério Mesquita, pecuarista e capataz dos Paes Garcia por anos. Mesquita, que também acabaria morto, revelou que havia muita desconfiança de Waldomiro Paes Garcia, o Maninho, com Adriano.

Livro Decaído, do jornalista Sérgio Ramalho. Foto: Reprodução

Ainda assim, o capataz dos Paes Garcia conseguiu executar o plano de ter Adriano e outro pupilo, João Ferreira Martins, como “infiltrados” no Batalhão de Operações Especiais, o Bope. A ideia de Mesquita era que, mais à frente, Adriano passasse a chefiar a segurança dos Paes Garcia, o que para Maninho era um risco à ordem do clã.

Foi Mesquita quem idealizou a formação da “guarda pretoriana”, como diz Ramalho, do clã Paes Garcia. Plano que em parte falhou após o próprio pecuarista ser preterido pelos bicheiros. Fato é que, por um tempo, havia uma relação quase paternal entre Mesquita e Adriano. O irônico (e cruel) foi que Adriano acabaria sendo suspeito de executar Mesquita em pleno bairro de Ipanema, na Zona Sul carioca.

Talvez um dos relatos mais chocantes no livro seja justamente o da passagem de Adriano pelo Bope. Financiado pelo bicho e pelo Estado, Adriano virou um especialista em matar. Certa vez, narra o jornalista, Adriano desapareceu durante uma operação da tropa de elite da PM e, quando revelou sua localização a colegas de farda, estes o encontraram com os corpos de dois traficantes decapitados.

Fica evidente no livro-reportagem que Adriano da Nóbrega espalhou medo e morte pelas favelas do Rio. Ao lado de João, parceiro desde os tempos de adolescência e que também foi ex-Bope e sicário, a dupla espalhou o terror entre inocentes e sentenciou criminosos à morte. Ambos entraram na PM com patrocínio do jogo bicho, e saíram de lá tão ou mais cruéis e sádicos do que eram antes.

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