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Xico Sá

Escritor e jornalista, faz parte da equipe de apresentadores do ICL Notícias. Com passagem por diversas redações e emissoras de tv, ganhou os prêmios Esso, Folha, Abril e Comunique-se. Participou de programas como Notícias MTV, Cartão Verde (Cultura), Redação Sportv, Papo de Segunda (GNT) e Amor & Sexo (Globo). É autor de Big Jato (Companhia das Letras) e A Falta (Planeta), entre outros livros. O colunista nasceu no Crato, na região do Cariri cearense, e iniciou sua trajetória profissional no Recife.

Quem é melhor: Lula ou FHC? A volta de uma disputa civilizada no Brasil

Diante da pergunta e da nostalgia dos tucanos, fica patente a irrelevância da gestão de Jair Bolsonaro
7 de março de 2024

O mais importante dessa pergunta é o que ela revela de mais urgente: a irrelevância da administração do ex-presidente Jair Bolsonaro. Não há quase nada que o coloque em um possível embate com as gestões dos líderes políticos do PSDB ou do PT.

Quem provocou a interrogação, é bom que se diga, foi a turma de Fernando Henrique Cardoso.

É que bateu a nostalgia nos últimos tucanos que habitam o planeta da política brasileira. Impulsionados, óbvio, pela efeméride dos 30 anos do Plano Real, e também por um texto, quase uma ode, sob o título “Quanto mais o tempo passa, mais saudades de FHC na Presidência” — publicado no Estadão pela economista e advogada Elena Landau.

Os lulistas rebateram com as conquistas sociais dos mandatos anteriores do líder do PT, renovando as estatísticas com o “Pibão” ainda fresco e surpreendente (para o mercado) e a volta do país (9º) entre as dez maiores economias do mundo, uma conquista do atual presidente.

Não ficou só nesse tom ameno a resposta ao samba-exaltação do ex-presidente do tucanato.

Qual o quê. Colegas à esquerda e à direita se avexaram em questionar o romantismo em torno das duas gestões do “príncipe dos sociólogos”, entre 1995 e 2003. As primeiras manifestações exibiam capas e mais capas de livro “A privataria tucana” (Geração Editorial), do repórter Amaury Ribeiro Jr., o livro que desvendou os esquemas de corrupção nas privatizações brasileiras.

Muita gente lembrou também como a gestão tucana segurou de forma irresponsável — estratégia eleitoral de vida ou morte em 1998 — a paridade entre o real e o dólar. Apareceu até quem lembrasse do sofrido cardápio familiar, com ausência de proteína, dessa temporada. “Haja broa de milho com Q-Suco”, recordou outro camarada.

Os mais venenosos sacaram uma figura célebre da época, o ex-deputado federal Ronivon Santiago, do PFL do Acre, xará do cantor da Jovem Guarda. Em um dos furos jornalísticos extraordinários dos anos 90, o repórter Fernando Rodrigues revelou, na Folha, que Ronivon e o seu conterrâneo João Maia, colega de bancada no Congresso, venderam por R$ 200 mil os votos a favor da emenda da reeleição que beneficiou FHC.

Não há como negar, porém, o legado do Plano Real para debelar a maldita hiperinflação do país. É algo histórico na vida dos brasileiros.

Assim como não há como negar, óbvio, que havia uma disputa política civilizada entre o PT de Lula e o PSDB de Fernando Henrique, José Serra e Geraldo Alckmin — este agora um eufórico “companheiro” no PSB, na vice-presidência e na arte de criar memes “comunistas” nas redes digitais.

Os embates eram tão cordiais que vale até ouvir aqui um João Gilberto, cante comigo essa trilha:

“Só tenho medo da falseta
Mas adoro a Julieta como adoro a Papai do céu
Quero seu amor, minha santinha
Mas só não quero que me faça de bolinha de papel”.

O máximo que acontecia, daí o clima Bossa Nova dessa crônica, era um militante petista, em um dia de fúria, atirar uma bolinha de papel no candidato Serra, como em um episódio de 2010, em Campo Grande, na zona oeste carioca.

O tucano perderia a eleição daquele ano para Dilma Rousseff. Valeu a saudável disputa democrática. Serra parabenizou a vencedora, não tentou golpe para virar a mesa, não pediu recontagem de votos. Repetia o comportamento normal de Lula nas eleições que perdeu para FHC.

Antes do inferno implantado com o bolsonarismo, o único tucano que pisou na jaca democrática foi Aécio Neves, ao questionar a derrota para Dilma em 2014. O ex-governador mineiro duvidou do resultado das urnas, atitude nada ética que viraria rotina na extrema-direita dali por diante.

Não sou portador da mesma nostalgia frenética que contamina a tucanada nas redes sociais, embora reconheça alguns avanços reais e simbólicos do governo do “príncipe” iluminista da USP e da Sorbonne.

O que não podemos esquecer de exaltar, na carona dessa resenha, são as boas lembranças das pelejas civilizadas, civilizadíssimas, mesmo nos momentos mais nervosos das contendas entre o PT e o PSDB.

Como era gostoso nosso Fla-Flu. Era uma beleza.

Sem essa de estuprar adversária (como Jair Bolsonaro ameaçou a deputada federal petista Maria do Rosário no Congresso), sem promessa de fuzilamento da “petralhada” ou juras de morte ao próprio Fernando Henrique Cardoso, durante a sua estadia no Palácio do Planalto.

Confesso, caríssimo João Gilberto, meu querido baiano de Juazeiro, que a bolinha de papel me pega de jeito, me acerta na parte da anatomia (cuidado frágil!) mais nostálgica.

E chega de saudade. O que temos na vida real é o jogo bruto dos extremistas da direita, nos embates parlamentares e no “esquenta” que já começou para as eleições municipais de outubro. Puro punk rock hardcore, sem direito a Bossa Nova.

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