Marco Aurélio Santana Rodrigues, cientista político sequer chegado aos 40 anos é uma figura afável, tem boa carreira acadêmica iniciada no bacharelado em Ciências Políticas na Universidade Federal de São Carlos (SP). Envernizou-a com o assessoramento parlamentar dado às bancadas do PT na Assembleia Legislativa de São Paulo e também na Câmara dos Deputados, em Brasília. Lustrou-a com a estruturação da agenda das Caravanas da Cidadania lideradas por um Luiz Inácio Lula da Silva que se preparava para disputar a Presidência da República entre 2107 e 2018, até ser impedido pelas sentenças fora-da-lei do ex-juiz Sérgio Moro.
Tendo comido rações de sal e de conserva de palma no período mais duro da perseguição lavajatista ao Partido dos Trabalhadores em geral, e ao ex-presidente Lula em particular, durante o recesso democrático brasileiro do período 2016-2022, Marco Aurélio revelou-se leal e astuto na vigília popular e democrática dos 580 dias de prisão injusta e ilegal do ex-sindicalista em Curitiba. A postura lhe rendeu suficientes credenciais para comandar a agenda da campanha vitoriosa de 2022 e organizar o gabinete de transição naquela esculhambada pilhagem promovida por um clã Bolsonaro em fuga do Palácio do Planalto. Dali a ser efetivado como chefe-de-gabinete do governo de reconstrução, o terceiro mandato do presidente Lula, não foi difícil.
AS RAZÕES PARA A ESCOLHA DE MARCOLA
Em verdade, era até fácil. A primeira-dama Rosângela Silva implicava com Gilberto Carvalho, chefe de gabinete das administrações passadas do marido (2003-2010) dada a larga convivência dele com a configuração original do “Casal Silva”, Lula e Marisa, desde os tempos das grandes greves do ABC paulista ainda sob o espectro da ditadura militar. Estava pactuado entre o presidente eleito em 2022 e sua nova esposa, companheira pós-viuvez de Dona Marisa, que “Gilbertinho”, como Carvalho sempre foi tratado na intimidade pelos petistas, não voltaria ao posto de cujas missões se desincumbiu tão bem: ser o fusível que desligava o circuito e desarmava o sistema ardiloso de lobbies públicos e privados, sindicais e patronais, familiares ou promovidos pelos “neoamigos” que colam ao poder qual craca nos barcos do cais do porto.
Em 2002, quando armadilhas da oposição numa articulação de facções do PSDB, da Polícia Civil e do Ministério Público paulista tentaram sabotar com a patranha do assassinato do prefeito de Santo André, Celso Daniel, aquela que viria ser a primeira campanha presidencial vitoriosa do PT, foi Gilberto Carvalho quem armou o sistema de defesa e contra-ataques para impedir que Lula fosse enredado na esteira de acusações mentirosas. Pagou um preço, até mesmo com suspeitas intrapartidárias à própria honra, mas venceu e viu o chefe e amigo vencer.
No curso das acusações do “mensalão”, o rol de falsidades escancarado à luz do dia nos gramados da Esplanada dos Ministérios, em 2005, a fim de dar início a um processo de impeachment de Lula antes mesmo da primeira reeleição do petista, foi Gilbertinho quem comandou a resistência a partir do gabinete presidencial e a resiliência dentro do Partido dos Trabalhadores. Em que pese o ar de irmão Marista ou de frade franciscano, o jeito calmo de falar, Carvalho jamais permitiu que vivandeiras espertalhonas chegassem próximo de executar a ideia que gentalha assim – gentalha assim, sim, como as Robertas Luchsinger da vida – sempre têm de açular os granadeiros da Democracia nos bivaques da República. Ou seja, que lobistas fossem bem sucedidos em seus lobbies quando eles parecessem, na largada, suspeitos de excesso de esperteza.
MARCOLA FOI INÁBIL CONSIGO MESMO
Não exatamente na mesma cadeira de Gilberto Carvalho, onde depois sentaria Marco Aurélio Santana Ribeiro, mas tendo recebido as mesmas missões palacianas, estiveram naquela função de chefe-de-gabinete de presidentes historicamente marcantes personalidades como Darcy Ribeiro, com João Goulart; Augusto Frederico Schmidt, com Juscelino Kubitscheck; Roseana Sarney, com o pai, José Sarney; Ruth Hargreaves, irmã do chefe da Casa Civil, Henrique Hargreaves, dupla de águias do centro-liberalismo brasileiro, com Itamar Franco; Luciana Cardoso, com o pai, Fernando Henrique Cardoso… se quisermos recuar ainda mais, Alzira Vargas, também com seu pai, o Getúlio Vargas do Estado Novo.
Marcola, apelido descuidadamente de mau gosto dado a Marco Aurélio Santana Ribeiro (mau gosto porque ele não tem nada que o associe sequer minimamente ao homônimo ligado à facção criminosa PCC), sentou na cadeira por designação do presidente Lula, depois de ouvidos Gilberto Carvalho e Paulo Okamotto, que chancelaram entusiasticamente a escolha. Porém, sabe-se agora que a personagem não esteve à altura da missão. Ser chefe-de-gabinete de alguém da dimensão de Luiz Inácio Lula da Silva exige foco total nas metas pretendidas e vigilância absoluta nas armadilhas espalhadas pelo caminho.
“Os escrotos nunca dormem”, advertia sempre um publicitário baiano envolvido em quase todas as grandes campanhas políticas desde a redemocratização. Falavam isso para dizer que os inimigos estavam sempre à espreita para, ao menor deslize, plantar a discórdia e a crise na cidadela que lhe cabia defender. Marco Aurélio Santana Ribeiro abriu o flanco palaciano para entrada de bichos escrotos se plantarem na antessala do presidente – e essa ingenuidade (no mínimo foi ingênuo!) é indesculpável para quem atravessou com Lula, dentro do PT, do Instituto Lula, os oceanos bíblicos de escrotidões que estavam cheios até o limite do talude imposto pelas canalhices da Lava Jato. “Bichos escrotos saiam dos esgotos/ Bichos escrotos venham enfeitar/ Meu lar/ Meu jantar/ Meu nobre paladar”, cantavam os Titãs já em 1986 num dos hinos de nossa revolta política com a transição interminável e tão parcimoniosa com os escroques da ditadura militar.
Marcola está submetido a um vazamento canalha de distorções factuais que sugerem o cometimento de crime. Por tudo o que vi e li sobre o caso, nada prova que houve crime no comportamento dele. Duvido também que tivesse se permitido tamanho desfrute com a própria biografia. Entretanto, ele era o dono da zaga palaciana e ninguém em tal posto pode se dar ao direito de ser ingênuo. O Homem do Presidente não tem esse direito e esse foi o grande erro dele. Página virada, que Marco Aurélio Santana Ribeiro volte à luta para se reconstruir como personalidade política.