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Militantes presos em protesto contra venda da Sabesp relatam momentos de medo

Advogado que representa grupo de manifestantes diz que não foi informado sobre motivos da prisão
14 de dezembro de 2023

Felipe Mendes — Brasil de Fato

Os quatro militantes que foram presos há exatamente uma semana em manifestação na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) voltaram a se reunir ontem já em liberdade. Em entrevista coletiva, Lucas Carvente e Hendryll Silva, que receberam habeas corpus na noite de terça-feira (12), se juntaram a Vivian Mendes e Ricardo Senese, que tinham sido liberados em audiência de custódia no dia seguinte às detenções.

À imprensa, os quatro detalharam momentos vividos dentro do prédio da Alesp, com repressão policial a protestos contra o projeto de privatização da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), e também durante os dias em que estiveram detidos.

Hendryll Silva, que é estudante da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), relatou ter sentido medo durante os momentos de ataques de policiais às pessoas que tentavam se manifestar enquanto deputados debatiam a possibilidade de privatização no plenário da Alesp no dia 6 de dezembro. A votação aconteceria naquela mesma noite.

“O que senti foi medo. Aquele caos se instaurou porque eles foram covardes. A gente de braço dado, eles descendo a marreta em todo mundo”, disse Silva, que afirmou ter visto outros militantes com “a cabeça rachada” devido a golpes de cassetetes.

Em nota, a Secretaria da Segurança Pública de São Paulo disse que “policiais militares atuaram na ocasião para conter um ato de depredação ao patrimônio durante a votação da proposta de desestatização da Sabesp, quando os quatro indiciados agrediram os policiais, além de danificar o mobiliário da Alesp”.

‘HUMILHAÇÃO’

O advogado João Gilberto Abreu, que representa o grupo, também participou da entrevista coletiva online. Ele lembrou que o grupo sequer foi informado dos motivos que os levaram à prisão na noite de 6 de dezembro, e essa foi apenas uma de uma série de violações.

“Todo cidadão tem o direito de saber do que está sendo acusado, qual o crime. Desde o início houve essa ilegalidade. Na audiência de custódia também tivemos uma série de ilegalidades, quando enquadra os quatro por associação criminosa, como se tivessem ido até a Alesp com o intuito de praticar crimes, sendo que são militantes de movimentos e partidos políticos”, apontou.

Silva agradeceu o apoio das pessoas que se mobilizaram pela soltura dele e a de Lucas Carvente. Ele afirmou ter passado por dificuldades na prisão, inclusive com racionamento de água – e alertou que o problema pode se tornar mais comum caso os planos de privatização da Sabesp vá à frente.

“Essa mobilização não foi qualquer assunto. Esse não é qualquer assunto. O que aconteceu na Alesp não foi uma selvageria, e sim um ato heróico de militantes que balançavam seus cartazes e em questão de minutos corriam por suas vidas”, relatou.

Carvente, que também ficou preso por quase uma semana, disse que sequer passou por exame de corpo de delito, e que sentiu “medo e humilhação”. Ele é professor e mora no extremo sul da capital paulista, e comparou o projeto de privatização da Sabesp com outras concessões de serviços públicos à iniciativa privada.

Lucas Carvente (em primeiro plano) foi um dos militantes solto após habeas corpus (Lucas Porto/Jornalistas Livres)

“Onde eu moro, passa a linha [de trens de passageiros] Esmeralda, privatizada. Tem falhas todos os dias, a população fica revoltada. A gente sabe que privatização vai piorar a situação de falta de água. A Sabesp atua nessas regiões rurais da cidade de São Paulo, onde não há lucro. A empresa privatizada vai até lá?”, indagou.

APOIO POPULAR

Ao decidir pela liberação de Carvente e Silva, o desembargador Otávio de Almeida Toledo, do Tribunal de Justiça de São Paulo, que assinou o alvará de soltura, destacou o histórico de ambos, que não tinham tido qualquer passagem pela polícia antes das prisões.

“Trata-se de dois homens jovens e que ostentam prontuários imaculados, sem registro de um inquérito policial sequer. Parecem nunca terem se envolvido em situações de violência e, decerto, não há dados concretos que sugiram risco à ordem pública caso sejam autorizados a responder ao processo em liberdade, especialmente com a medida cautelar requerida pelos próprios impetrantes”, escreveu.

Vivian Mendes, que é presidente do diretório paulista do partido Unidade Popular (UP), disse que a detenção dela e dos três outros militantes não vai tirar do grupo a determinação de lutar contra o processo de privatização da companhia de saneamento.

“Esse processo de tentativa de venda da Sabesp foi totalmente ilegal, e vamos fazer denúncia. Os trâmites na Alesp não respeitaram os ritos, o governo não ouviu as demandas do povo. Esse processo foi feito a um altíssimo custo para o bolso do povo de São Paulo”, pontuou.

Na última segunda (11), Mendes esteve em Brasília acompanhada de Ricardo Senese e do presidente da UP, Leonardo Péricles. Eles foram recebidos pelo ministro dos Direitos Humanos e da Cidadania, Silvio Almeida, que se comprometeu a acompanhar o caso de perto.

“Nós fizemos um processo coletivo, de diversos movimentos e sindicatos. Fizemos duas greves importantes, em 3 de outubro e 28 de novembro, e a população demonstrou seu apoio. Entendemos que esse processo tem que crescer, fazer uma nova greve da classe trabalhadora”, destacou Senese, que é metroviário.

 

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