Argentina: Multidão ouve pronunciamento de Cristina Kirchner após condenação judicial

Jornalista avalia que prisão e supressão de elegibilidade pode fortalecer o peronismo
ouça este conteúdo
00:00 / 00:00
1x

A ex-presidente argentina Cristina Kirchner afirmou que “peronistas não são gângsteres” e voltou a pedir maior “empatia e aproximação” em seu discurso aos ativistas que a acompanharam até a sede nacional do Partido Justicialista (PJ), após a decisão do Supremo Tribunal de Justiça que manteve a condenação da ex-presidente no caso Vialidad a seis anos de prisão e proibição perpétua de exercer cargos públicos.

“O povo argentino não se conforma em viver sem direitos, em não ter empregos dignos, em não ter seus filhos podendo ir à universidade e ter um futuro melhor ”, enfatizou.

Em decisão histórica , o Supremo Tribunal de Justiça confirmou na terça-feira a pena de seis anos de prisão contra Cristina pelo crime de “administração fraudulenta” em detrimento do Estado em licitações rodoviárias em Santa Cruz, e a proibição vitalícia de exercer cargos públicos.

No entanto, absolveu- a da acusação de “associação criminosa “, como já havia sido feito por tribunais anteriores. Assim, ela não poderá participar das eleições legislativas nas quais planejava concorrer a uma cadeira provincial.

Os juízes Horacio Rosatti, Carlos Rosenkrantz e Ricardo Lorenzetti emitiram um parecer conjunto rejeitando todos os argumentos apresentados pela defesa de Cristina para anular sua condenação. Agora, a Segunda Vara Federal de Orais deve se pronunciar sobre as condições de detenção da ex-presidente e dos outros oito condenados, incluindo Lázaro Báez e José López: eles podem ser colocados em prisão domiciliar por terem mais de 70 anos.

Em entrevista ao programa Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato, a jornalista argentina Érika Gimenez, coordenadora do meio de comunicação popular ARGMedios, classificou a condenação como “extremamente política” e cheia de irregularidades. Segundo ela, não foram apresentadas provas concretas que justificassem a responsabilização direta da ex-presidenta no caso de sobrepreço em obras públicas.

Crsitina Kirchner
Cristina Kirchner

Resposta à condenação de Cristina Kirchner

Segundo a jornalista, a resposta popular foi imediata. “Agora, a oposição que parecia morta desperta”, avalia. Há bloqueios em rodovias e manifestações nas principais praças do país. Ao mesmo tempo, ela denuncia um forte esquema de repressão nas ruas, com atuação ostensiva das forças de segurança. “Isso também é um dado preocupante, todas as forças de segurança [estão sendo mandadas] para as ruas. […] É possível que haja muita violência na rua pelas forças de segurança”, alerta.

A jornalista avalia que o episódio pode fortalecer o peronismo, movimento popular e nacionalista ligado ao ex-presidente Juan Domingo Perón, vinculado aos trabalhadores, e rearticular a oposição ao governo de Javier Milei, marcado por medidas de arrocho fiscal e autoritarismo. “O peronismo sempre é assim: precisa de uma causa, um caso, algum fato político para reviver”, aponta. No julgamento anterior de Kirchner, milhares de pessoas formaram um cordão em frente à casa da ex-presidenta.

Para Gimenez, o episódio tem semelhanças com o que ocorreu no Brasil com a prisão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em 2018, ano da eleição presidencial que elegeu o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), hoje inelegível e réu no Supremo Tribunal Federal (STF). “É interessante ver como não é uma coisa só da Argentina, [o caso] é parecido com o que aconteceu com Lula”, compara. De acordo com ela, Cristina Kirchner é “a pessoa mais importante opositora da Argentina” e sua condenação teria como objetivo impedir a sua eleição.

Carregar Comentários
Assine nossa newsletter
Receba nossos informativos diretamente em seu e-mail