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Lindener Pareto

Professor e historiador. Mestre e Doutor pela USP. Professor de História Contemporânea e Curador Acadêmico no Instituto Conhecimento Liberta (ICL). É apresentador do “Provocação Histórica", programa semanal de divulgação científica de História e historiografia nos canais do ICL.

Napoleão ou não? Eis a questão.

A vida é muito curta para não vermos o gênio de Joaquin Phoenix encarnando a loucura de Napoleão!
1 de dezembro de 2023

“A fotografia é sem graça e sem cor”, “Napoleão nunca mandou bombardear as Pirâmides de Gizé”, “a trama é muito didática”, “o filme não explica por que Napoleão e Josefina se amavam”; “Ridley Scott dirigiu mais uma fracasso.” Essas são algumas das críticas que tomaram as redes e mídias sociais diante da estreia, no Brasil, do esperado “Napoleão”, novo filme do aclamado diretor britânico Ridley Scott. Mais do que o normalmente esperado pelo público em relação a um filme de super orçamento e de um consagrado diretor de cinema, “Napoleão”, de Scott, mobiliza um dos imaginários mais disputados de toda a história contemporânea (1789-2023). Afinal, Napoleão Bonaparte (1769-1821) não foi apenas o Imperador dos Franceses. Foi o filho vitorioso da “Revolução Francesa”, o sujeito que inventou o Estado-Nacional como o conhecemos, que governou a Europa e parte dos rumos do mundo por praticamente 15 anos seguidos, que reinventou a arte da guerra e que de maneira brutal conduziu a “Grande Armée” à carnificina de batalhas épicas jamais vistas. O filósofo Hegel, em sua obsessão, chegou a dizer: “Napoleão: o espírito do mundo a cavalo.”

Parte do fascínio por Napoleão vem exatamente disso: o conquistador, o gênio militar, o estrategista metódico e leitor de Maquiavel, enfim, todo tipo de epíteto que enaltece a fixação que as pessoas têm por…Tiranos! Tiranos? Sim. Líderes ilegítimos e golpistas, diriam alguns. Lembremos dos fatos: Napoleão não representa os jacobinos e a efetiva virtude do “terror” popular no poder. A ascensão de Bonaparte se deu diante do domínio dos girondinos e do Diretório, que entregou a um general a força política para massacrar os anseios populares. Em outras palavras, Napoleão no poder representou a consolidação dos anseios da alta burguesia, da propriedade privada, do militarismo e da força bruta. Não à toa, em 1799, já com enorme poder e prestígio militar, Napoleão articula um golpe de Estado – o 18 Brumário –  e se torna não apenas o único cônsul da França, mas em 1804 se auto coroou Imperador dos Franceses, desprezando o Papa e se comparando a Carlos Magno.

Tudo que acabei de narrar foi brilhantemente encenado, numa linguagem cinematográfica, pelo fascínio e pelo desprezo que Ridley Scott tem pelos tiranos. Ora, um dos pontos altos da trama é exatamente conseguir fazer o público rir com Napoleão, admirá-lo, mas ao mesmo tempo desconfiar dele e rir de Napoleão. Por isso a escolha de Joaquin Phoenix para o papel do famigerado Imperador foi tão acertada. Há quem diga que Joaquin Phoenix não encontra o personagem, que vacila nos caminhos interpretativos. Mas não. Phoenix vacila na medida da síntese das próprias contradições vividas pela trajetória impressionante de um homem que fez o mundo – ou pelo menos tentou – se curvar diante dele. A confiança altiva e megalomaníaca do Napoleão de Phoenix vai se tornando sisudez e melancolia na medida em que as derrotas começam, seja na vida pessoal ou no campo de batalha. Algumas cenas – contém spoiler – são impagáveis. Bonaparte sendo quase linchado pelos membros do Diretório, apavorado e voltando faceiro com a força das armas. Napoleão no Egito medindo sua “imortalidade” diante das múmias imortais do Cairo, face a face, encostando o rosto no milenar defunto, mas sentindo o sopro da morte. Napoleão ninando o filho no colo, num quase choro patético ou Napoleão desesperado ao saber que o Czar Alexandre I, da Rússia, não quis encará-lo de frente e deixou Moscou às traças e às chamas, decretando a grande derrota do emblemático conquistador.

Enfim, fatos que não necessariamente se deram dessa forma ou nem mesmo aconteceram, mas que nas escolhas de Ridley Scott e nas caras e bocas de Joaquin Phoenix se tornam retratos contundentes de como os tiranos são, no fim das contas, risíveis, ridículos. Tal é o brilhantismo de Phoenix no papel. Um gênio, um tolo, um amante apatetado, um líder decidido e soberbo, um filho inseguro, um Estadista temido e ao mesmo tempo amado pelos seus comandados. De muitas maneiras, Phoenix sabe interpretar brilhantemente sujeitos divididos, cindidos, atormentados. E o faz muito antes de “Napoleão” ou “Coringa”. Digamos que Joaquin é um tipo de ator que encarna muito bem a loucura dos sujeitos nisso que chamamos de mundo moderno.

O filme tem seus vícios e suas preferências. Ridley Scott tira sarro dos franceses, caricaturiza a maior parte dos grandes nomes da política revolucionária francesa. Bufões, afetados, perdulários, enfim, risíveis franceses. Exagero? Certamente uma patriotada de um diretor britânico diante da história da França. Mas há algo em Scott que os historiadores deveriam apreciar mais: ele consegue pôr na tela a permanência do passado no presente. Um exemplo impressionante é como ele demonstra – quase que despretensiosamente – que a burguesia não queria apenas o poder político, mas os privilégios, o prestígio e o glamour da nobreza milenar, tão afeita às pompas e rituais.

Outro ponto alto do filme é conseguir narrar as disputas amorosas entre Bonaparte e sua amada Josefina, vivida no filme pela impressionante Vanessa Kirby. Josefina não é colocada como menor, mas como aliada fundamental na aceitação de Napoleão na sociedade parisiense. Talvez a forma de retratar o casal tenha mais relação com o presente e os anseios de hoje do que com as condições daquele momento. Contudo, Scott não deixa de apontar as brutalidades do patriarcado. Em todo caso, a vida íntima, o cotidiano do casal escancara o que qualquer relação amorosa contém: segredos, medos, sexo, desejo, confissões, pequenas tiranias, insegurança, traição, perdão. Teriam Napoleão e Josefina também inventado as formas clássicas das relações amorosas burguesas e suas intrigas?

O fato é que “Napoleão” nos ensina algumas coisas: o personagem histórico ensina como nosso mundo foi forjado no imperialismo e na força bruta. O filme ensina como podemos e devemos rir dos tiranos. Em outras palavras: não passem pano ou estendam tapetes para tiranos, eles certamente vão te atropelar. E não pensem vocês que tiranos são apenas os “grandes” personagens políticos e militares da História.Tiranos e tiranetes estão em toda parte, muitos deles travestidos de “salvadores da pátria” e “novos messias”, os tiranetes do cotidiano serão os primeiros a levar a sério a loucura dos ditadores. Olhe para os lados, observe, há um tirano perto de você ou até mesmo em você. Entendeu agora o fascínio pela figura de Napoleão?

Mas lembremos de uma básica lição de História: trata-se de um filme e filmes épicos falam muito mais do presente do que do passado. São representações que encarnam mais as angústias do mundo de hoje e das mentalidades de hoje do que aquelas do século XIX. Isso significa dizer, por dever de ofício, que os historiadores não devemos tomar o filme como um testemunho do século XIX e da Era Napoleônica (1799-1815), mas como um testemunho da Era Americana e do domínio de Hollywood. Sacaram? De qualquer forma, deixemos a chatice metodológica de lado agora. Se o filme ou a história não servirem para nada, servirão ao menos para nos entreter. E garanto a vocês que numa grande tela, a fotografia, as cores, o figurino, a trama, os amores, as batalhas épicas, as caras, gestos e bocas de Joaquin Phoenix e Vanessa Kirby vão te fazer sair do cinema querendo saber mais, muito mais sobre Napoleão e o mundo na época de Napoleão. Que livro de história teria um alcance tão poderoso

Napoleão em Fontainebleu, 1814.

Napoleão em Fontainebleu, 1814.
Pintor: Paul Delaroche

assim? Finalmente, aproveitem, a vida é muito curta para não vermos o gênio de Phoenix encarnando a loucura de Napoleão! Rir dos tiranos, esse é o propósito. Acabar com os tiranos. O riso ou a guilhotina, eis a questão.

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