Noruega e Brasil: dois navios, um só oceano de esquecimento

A remada norueguesa é, no fim das contas, um espelho. Ela nos convida a questionar quais histórias escolhemos contar sobre nós mesmos
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Há um fascínio quase hipnótico na sincronia de uma multidão, e os movimentos de massa do século XX o comprovam. Não à toa a Copa do Mundo nasceu durante a ascensão do fascismo italiano em 1930. Em todo caso, quando os torcedores noruegueses – liderados pelo meio-campista Martin Ødegaard desde o gramado –  e inspirados no “Senhor Row Row” (“Senhor Remada”, Ole Frøystad), sentam-se nas arquibancadas e simulam uma remada coletiva, o estádio deixa de ser um mero palco esportivo para se transformar no convés de um drakkar (navio de guerra viking) imaginário. A “remada viking” é plástica, contagiante e inegavelmente épica. Mas o que exatamente estamos aplaudindo quando celebramos o compasso desses remos invisíveis?

A imagem popular do viking – o homem loiro, destemido, adornado por capacetes de chifres (um equívoco arqueológico já desmentido) – é uma construção higienizada de um passado complexo. A Noruega, ao abraçar essa estética como marketing e orgulho nacional, escolhe a dedo qual parte da história deseja lembrar. Exalta-se a tecnologia naval incomparável que permitiu a expansão pelo Atlântico Norte, a coragem dos exploradores e a força dos guerreiros. Esquece-se, porém, que a mesma proa que desbravava mares também aportava para o saque, a pilhagem, o estupro e, de forma central, a escravização.

O ataque ao mosteiro de Lindisfarne (norte da Inglaterra medieval) em 793, marco simbólico da Era Viking, além de uma batalha por território, foi um ato de terror que resultou em mortes e na captura de pessoas que se tornariam thralls, os escravizados da Escandinávia medieval. A remada que hoje embala a festa nos estádios era a mesma que impulsionava o comércio humano nas Ilhas Britânicas e na Europa Oriental.

É aqui que a história da Noruega, congelada nos fiordes do norte, encontra um eco incômodo nas águas quentes do Atlântico Sul. Quando pensamos em Brasil e Noruega – que vão se enfrentar no próximo domingo – imaginamos antípodas culturais. De um lado, o mito do homem cordial e a miscigenação; do outro, o Estado de bem-estar social e a suposta homogeneidade nórdica. No entanto, se despirmos essas nações de seus mitos fundadores, encontraremos um denominador comum brutal: a violência, o navio e a escravidão.

No Brasil, o navio não é o drakkar heroico, mas o tumbeiro sombrio. A nossa “remada” não é celebrada em estádios, mas agoniza no fundo do mar, onde repousam os ossos daqueles que não sobreviveram à Travessia do Atlântico. Enquanto a Noruega folcloriza seu passado marítimo violento, transformando escravizadores em mascotes de pelúcia e campanhas publicitárias, o Brasil ainda lida com as cicatrizes abertas de um sistema escravista que moldou nossa estrutura social.

O incômodo que a remada norueguesa gera em vizinhos como a Suécia e a Dinamarca é revelador. Os suecos, que preferem tratar os vikings como parte de uma história comercial e não como um épico fundacional, entendem o perigo de romantizar a barbárie. Mais ainda, reconhecem que a apropriação desses símbolos por grupos supremacistas brancos não é um acidente, mas uma consequência direta da exaltação de uma masculinidade guerreira e de uma suposta pureza racial.

Quando o Brasil e a Noruega se encontram – seja em um campo de futebol, seja na reflexão histórica -, o contraste é pedagógico. A torcida norueguesa não está, obviamente, celebrando abusos ou massacres ao remar nas arquibancadas. Trata-se de uma memória seletiva, um recorte nostálgico que serve à coesão nacional. Mas a memória é um campo de disputa. Ao romantizar o navio viking, a Noruega apaga os thralls (escravos) que remavam nos porões. Ao esquecer os navios negreiros, o Brasil tenta apagar o racismo estrutural que ainda dita quem vive e quem morre em nossas periferias.

A remada norueguesa é, no fim das contas, um espelho. Ela nos convida a questionar quais histórias escolhemos contar sobre nós mesmos. Se a Noruega precisa lidar com o peso do machado viking que ainda reverbera em discursos de extrema-direita, o Brasil precisa encarar o chicote que nunca foi totalmente abolido. Duas nações, mares diferentes, duas histórias distintas, mas unidas pela constatação de que, no fundo de cada mito nacional glorioso, há sempre um porão sombrio onde a história dos escravizados foi silenciada ou romantizada. Cedo ou tarde, a maré sempre volta, trazendo à tona vozes que cantam em uníssono nos porões de todos os navios dos tempos do mundo: liberdade!

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