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Jessé Souza

Escritor, pesquisador e professor universitário. Autor de mais de 30 livros dentre eles os bestsellers “A elite do Atraso”, “A classe média no espelho”, “A ralé brasileira” e “Como o racismo criou o Brasil”. Doutor em sociologia pela universidade Heidelberg, Alemanha, e pós doutor em filosofia e psicanálise pela New School for Social Research, Nova Iorque, EUA

O caso Milei e a consolidação de uma extrema direita global

O que falta é mostrar aos trabalhadores e aos pobres quem são seus verdadeiros inimigos
24 de novembro de 2023

A eleição de Milei na Argentina, uma figura caricata, histriônica e até ridícula, não chegou a ser uma surpresa. Repetindo no caso brasileiro de Bolsonaro o incômodo com a política tradicional, no caso argentino o Peronismo e a hiperinflação explicam, efetivamente, as causas mais imediatas para tornar esse fato possível e compreensível. Mas essas causas mais superficiais e imediatas não explicam por que os Bolsonaro e os Milei se multiplicam pelo mundo como moscas. As causas mais profundas e decisivas não são “nacionais”, mas sim “globais”. Elas implicam numa nova forma de relação entre a economia e a política no mundo todo.

Dois passos são decisivos para a compreensão deste processo. Na dimensão econômica, muda radicalmente a forma de apropriação do excedente social. A forma lucro, que contrapunha o empresário pessoalmente aos seus trabalhadores de modo direto e visível, perde espaço para a forma juro, muito mais impessoal e abstrata. Os trabalhadores não reconhecem mais tão facilmente quanto antes quem é o seu algoz. Isso abre espaço para a superexploração do trabalho uberizado, sem que se saiba quem é o culpado pela situação. A impessoalidade e abstração dessa forma de exploração passa a não ter sujeito e ser percebida como tão inexorável quanto a chuva e o nascer do Sol. Por conta disso, ela é experenciada como fracasso pessoal.

Mas não foi apenas a economia que mudou. A inteligência demoníaca do neoliberalismo foi ter provocado uma “revolução cultural” regressiva, renomeando, manipulando e ressignificando todas as ideias clássicas de liberdade, igualdade e fraternidade de modo a quebrar qualquer forma de solidariedade social. O combate sistemático aos sindicatos e movimentos sociais vem daí. Isso porque a extrema direita se apossou da cultura e não apenas da economia. Os anos 90 viram um esforço dirigido e consciente para a compra dos principais veículos de imprensa no mundo todo. A Itália, Brasil e os EUA foram casos típicos. Mas a investida atingiu todos os países sem exceção. Também a indústria cultural, cinema, internet, literatura popular, novelas, todos passam a agora a bombardear o público com uma mesma visão em um mesmo sentido.

Como toda a imprensa pertence aos bancos, então todos iremos ouvir que os juros altos são imprescindíveis para controlar a inflação, ou seja, é bom para o trabalhador e não para o especulador improdutivo. Nenhuma palavra sobre a ausência de auditoria da dívida e o saque organizado, repetindo moldes pré-capitalistas, que ela significa. É esse contexto que explica a extrema direita global e esse sentimento difuso que sentimos de regressão das formas políticas e sociais. A principal causa é o desconhecimento tornado estrutural, pelo controle pelo dinheiro de todas as dimensões da vida, das razões do empobrecimento geral e da ausência de perspectivas de futuro. Como não temos mais sindicatos e imprensa plural, quem vai explicar para os trabalhadores que seu fracasso não é culpa pessoal, mas fruto de uma dominação política intencional e planejada?

O sentimento de fracasso e de humilhação vivido sem ser compreendido nas suas causas, oferece duas possibilidades ao trabalhador: a primeira é dirigir a frustração contra si mesmo, levando às doenças contemporâneas da depressão, do burnout, do alcoolismo e do crack. O fracasso é vivido como culpa pessoal dado que a explicação meritocrática dominante, que é mais forte quanto mais vulnerável e pobre é o sujeito, passa a formar a concepção de mundo do próprio trabalhador oprimido per esta falácia social. A segunda saída é canalizar a frustração não como culpa pessoal, mas sim de outros grupos sociais já marginalizados, no caso do Brasil os negros criminalizados como bandidos, o receptor do bolsa família, os LGBT +, etc., que passam a ser vistos como o povo do almoço grátis que torna todo mundo mais pobre.

É nesse contexto que a extrema direita global nada de braçada. Já que os que serão estigmatizados podem variar imensamente e se adaptar a qualquer contexto nacional específico: muçulmanos, negros, imigrantes etc. O algoritmo cuida para que a melhor escolha nesse sentido seja feita pelos donos do dinheiro. O que falta, portanto, é mostrar aos trabalhadores e aos pobres quem são seus verdadeiros inimigos. Disputar a narrativa dominante na esfera pública teria que ser a política principal de qualquer partido ou movimento progressista de modo a resgatar a inteligência popular.

O que vemos no Brasil, por exemplo, é o contrário disso, o que preocupa muito para as eleições de 2026. A entrega do Ministério das Comunicações ao centrão, mostra com toda a clareza como o PT e a esquerda em geral são incapazes de distinguir as demandas do dia e separar o que é principal do secundário. Uma falta de compreensão primária do papel decisivo das ideias para qualquer mudança no comportamento social. Nesse sentido, ao perceber a centralidade do domínio das formas culturais pelas ideias, a direita global foi demoniacamente muito mais inteligente. É isso que explica o seu sucesso.

 

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