Uma palavra resume os quatro anos de 2018 a 2022 no Brasil: Morte. Tudo o que ronda o período cheira a matéria pútrida e sem vida. Foram 1.460 dias no desespero da fome, da doença, da negação do conhecimento, do desprezo por tudo o que o engenho humanos pode produzir em prol da arte, educação, saúde, prosperidade, felicidade e vida de um povo.
Morte é a palavra que resume as 272 páginas da denúncia apresentada pela Procuradoria Geral da República contra os investigados Alexandre Ramagem, Almir Garnier, Anderson Torres, Augusto Heleno, Mauro Cid, Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira e… Jair Messias Bolsonaro. Uma denúncia contra a tentativa de assassinato de uma senhora altiva chamada Democracia.
A cronologia robusta e minuciosa traçada pela denúncia da PGR, conta a saga dos tristíssimos quatro anos que nos fizeram querer grafar a palavra Democracia com letra maiúscula, personificando-a, dando corpo, rosto e humanidade a um sistema de governo, um jeito de conduzir uma nação que, no Brasil, parece sempre estar marcado para morrer.
As 272 páginas vão nos contando como inventaram mais uma maneira de alimentar o gosto secular pela ditadura de uma parcela significativa do povo brasileiro, de forma cuidadosa, proposital e histórica, pois de golpe em golpe fomos construindo uma maneira peculiar de existir mudando as regras no meio do jogo e de forma sangrenta, violenta e traumatizante.
Um governante que se catapultou elogiando torturadores em pleno Congresso Nacional, incentivando a tortura e o assassinato em praça pública, o extermínio de opositores e desejando uma volta ao pior dos séculos que passaram, criou uma legião de seguidores que demonstram um adoecimento ainda não nomeado. Um ódio entranhado em cada poro que dividiu famílias, amizades e amores, fez apagar memórias e sim, matar um pedaço de Brasil.
Uma pandemia pegou pelo meio todo esse tristíssimo quadriênio e ela, a volúpia pela morte, fez com que fossem desprezadas ofertas de vacinas, oxigênio, pesquisas, meios de sobrevivência. As profecias anunciadas pelos cientistas na época se cumpriram, pois não há ninguém neste país que não tenha conhecido alguém que perdeu a vida sem ar.
A autora deste texto perdeu um primo de apenas 29 anos e teve o marido internado com um dos pulmões completamente tomado. Pais de amigos faleceram quando faltava dias para o início da vacinação. Caso as ofertas não tivessem sido ignoradas ao longo de meses por um presidente irresponsável, cruel e que debochou da dor e do sofrimento pela asfixia, poderiam estar aqui.
Ainda não criaram artificialmente nenhuma inteligência capaz de assegurar sem risco de erro que alguém estará vivo daqui meia hora, quanto mais em anos. Não sabemos se os que se foram na pandemia estriam vivos em 2025, mas sabemos que caso não estivessem em corpo, seriam lembrados pelo que fizeram, criaram e sonharam. Ainda estariam aqui em nossas memórias por eles mesmos e sem o estigma de integrantes da estatística mórbida da covid-9.
Agora, denúncia feita, vemos que tentaram organizadamente matar dona Democracia, encontraram planos para assassinar o presidente eleito e outras autoridades, mas há corpos reais em um número para lá de assustador: 700 mil cadáveres.
Um povo que não honra seus entes queridos mortos, está morto e não sabe. É hora de inundar o país com memória. É hora de não esquecer, para não correr o tenebroso risco de ver tudo começar outra vez.