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Eliana Alves Cruz

Eliana Alves Cruz é carioca, escritora, roteirista e jornalista. Foi a ganhadora do Prêmio Jabuti 2022 na categoria Contos, pelo livro “A vestida”. É autora dos também premiados romances Água de barrela, O crime do cais do Valongo; Nada digo de ti, que em ti não veja; e Solitária. Tem ainda dois livros infantis e está em cerca de 20 antologias. Foi colunista do The Intercept Brasil, UOL e atuou como chefe de imprensa da Confederação Brasileira de Natação.

O direito inegociável à felicidade

A população negra brasileira clama pelo direto à vida plena
30 de novembro de 2023

Foto recriada de Lima Barreto sorrindo / Adriano Moreira

“Um sorriso negro/ Um abraço negro… traz felicidade”
(Dona Ivone Lara)

Findamos hoje, neste 30 de novembro, o famoso “Mês da Consciência Negra” e quero ver a risada com gosto de todo mundo que não vi sorrir… em fotos, em filmes, na imaginação de uma nação que acreditou piamente na máxima do Tim Maia de que “na vida a gente tem que entender que uns nascem pra sofrer, enquanto o outro ri”.

Antecipando, sei a história da letra desta música e ela não vem ao caso agora, não está relacionada com o nosso estado de coisas histórico, mas esta frase pode facilmente ser usada como metáfora de uma certa gente que não só criou riquezas subindo nas costas e bebendo o sangue de outros, como convencendo estes “outros” de que esta é a ordem natural das coisas. Não é.

Se decidir ficar neste texto, saiba que neste ponto ele azeda, depois piora e por fim melhora, pois foram mais 30 dias das nossas vidas em que vimos o costumeiro desfile de clichês (pró e contra), muito oba-oba para conseguir engajamento e blá, blá, blá… O pouco entusiasmo desta colunista não é por conta da data em si – muito necessária, pois é luta do movimento negro de mais de duas décadas para pensar, afinal, um país em outras bases para a maioria que na época nem se via assim – mas porque em meio a tantos lugares comuns, em meio a tantas pautas, me falta ver uma busca visceral pelo inegociável direito à felicidade.

Para ser extremamente justa, há anos os movimentos de mulheres negras têm como lema “Mulheres negras unidas contra o racismo, todas as opressões, violências, e pelo bem viver”. Esta última parte seria exatamente o quê? Estão aí os conceitos de justiça social, bem estar social, etc. Coisas que nem temos espaço suficiente para aprofundar aqui, mas que são essenciais para começarmos a pensar sobre uma vida em que não seja natural “lata d’água na cabeça (…) sobe o morro e não se cansa, pela mão leva a criança…”.

Alguém tem dúvida da cor da mulher que leva o peso descomunal no alto do crânio, subindo uma ladeira e ainda conduzindo uma criança pequena pela mão? E notem: mulher negra é tão vista como alguém que não tem um corpo humano, que a canção diz que ela NÃO SE CANSA. Como?!

O fato inegável e chocante é que em pleno mês de novembro de 2023, ainda não nos vemos na maioria dos espaços poderosos que de fato decidem os rumos do lugar em que vivemos, das vidas que aqui habitam e das quais somos maioria. Não somos sequer cogitadas e cogitados. Ainda acham que subimos a ladeira e não nos cansamos.

Para além da letra da lei, tem a letra das nossas cabeças. O Brasil precisaria desejar com a alma todos os seus cidadãos e todas as suas cidadãs mais vezes sorrindo. É este anseio por vida plena democratizada que força a aplicação e efetividade da legislação, das políticas, enfim…

O sofrimento está aí, faz parte das caminhadas, não deve e não pode ser ignorado, mas principalmente não pode ser a baliza das existências. O que vemos nas redes sociais e no noticiário é um vício, um gosto mórbido pela dor de qualquer pessoa, mas quando esta pessoa não é branca, tudo é elevado exponencialmente. Estão aí os realities shows e a hard news que não deixam mentir.

A foto que ilustra este texto foi criada pelo fotógrafo, editor de áudio, cinema e música, Adriano Moreira. Ele usou I.A (Inteligência Artificial) e Photoshop na famosa imagem do escritor Lima Barreto, quando estava internado como doente mental. Os estudiosos revelam que o Lima detestava aquela foto. Um rosto e uma expressão que, para quem tem olhos de ver, estampam toda a dor, todo o sofrimento da vida de alguém simplesmente brilhante, genial, culto, perspicaz…, mas que se foi olhado com pouca dignidade pelos do seu tempo. Sobrepuseram suas dores à sua alegria.

Não precisa ir muito longe no que Lima Barreto escreveu para ver que sim, ele era crítico, duro e ácido com o que (e com quem) entendia como erro, mas é fácil notar o alto grau de humor, ironia, deboche, inteligência, coragem e LUCIDEZ daquele homem. Aqui, no elástico do tempo, enfim alguma justiça na beleza de um sorriso negro que traz felicidade.

Ninguém nasceu para sofrer enquanto o outro ri. Esta não é a ordem natural das coisas. Não é e não será.

 

 

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