O embate entre o Congo e a morte

Veneno (o Brasil) e remédio (a brasilidade) moram na mesma folha: na sabedoria anunciada por Katendê nas matas da Jurema
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Certa feita, resolvi definir a patologia colonial brasileira como o ‘Mal de Neuendorf’. Explico. Kevin Neuendorf foi o chefe da delegação dos Estados Unidos durante os distantes Jogos Pan-Americanos de 2007, realizados no Rio de Janeiro, que chocou muita gente ao aparecer com um cartaz em que se lia: “Welcome to Congo”.

Alguns brasileiros se sentiram melindrados com o que disse o gringo. Escrevi na ocasião um texto em que, provocativamente, concordei com o sujeito e afirmei que somos de fato o Congo, já que vieram da região do Congo-Angola milhares de africanos para as lavouras e minas do Brasil Colonial.

Somos Congo e somos também jalofos, bamuns, mandingas, bijagós, fantes, achantis, gãs, fons, guns, baribas, gurúnsis, quetos, ondos, ijexás, ijebus, oiós, ibadãs, benins, hauçás, nupês, ibos, ijós, calabaris, teques, iacas, anzicos, andongos, songos, pendes, lenges, ovimbundos, ovambos, macuas, mangajas e cheuas. Todos são grupos de africanos que chegaram aqui com seus valores, conjuntos de crenças, costumes e línguas — culturas, enfim — para, ao lado de minhotos, beirões, alentejanos, algarvios, transmontanos, açorianos, madeirenses e centenas de comunidades ameríndias espoliadas de suas terras , inventar dolorosamente o Brasil como experiência intermitente de morte e vida.

Falo que somos o Congo e me recordo de Oliveira Vianna, que detestaria a afirmação. Vianna foi o sabichão que escreveu um livro que seduziu gerações, chamado “Evolução do povo brasileiro”.

Segundo Vianna, a chance do Brasil era a nação embranquecida: a imigração europeia, a fecundidade dos brancos, maior do que a das raças inferiores (negros e indígenas), e a preponderância de cruzamentos felizes, nos quais os filhos de casais mistos herdariam as características superiores do pai ou da mãe branca, garantiriam ao país um futuro brilhante.

Façam a soma entre o Neuendorf e o Oliveira Vianna que existem em nós e o resultado está aí: uma parte do Brasil acha que a empregada doméstica deve vestir uniforme branco e subir pelo elevador de serviço, não gosta de preto, incendeia indígenas, depreda terreiros de santo, vibra quando a polícia desce a mamona mirando na cabecinha de moradores de favelas e cria filhos enfurecidos que saem em noitadas para surrar mulheres e gays nas esquinas das cidades. Um país de justiceiros, sinhás e capatazes, em suma.

Mas somos o Congo. E temos vergonha dele. O Congo, espaço físico alargado, além do mar, maior do que o mundo e do tamanho de uma esquina, para tantos é o veneno. Para mim, é o bálsamo; remédio e possibilidade de invenção do mundo como encruzilhada, lugar de fluxo, doação e restituição de vida.

Veneno (o Brasil) e remédio (a brasilidade) moram na mesma folha: na sabedoria anunciada por Katendê nas matas da Jurema, eis o país exposto em sua dupla e inevitável dimensão de vida e morte.

Maceremos a folha.

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