Por Camila Pizzolotto*
Na exata semana em que um levante contra o extermínio sistemático de mulheres foi às ruas de todo país, a revista Veja publicou uma entrevista com Francisco Bosco, ensaísta e escritor, sobre assuntos diversos, mas que tinha como mote principal a análise sobre a “nova masculinidade”. Bosco nos revela que “há uma confusão entre a crítica ao machismo e a crítica aos homens” e ainda que “é preciso entender que os homens estão passando por uma crise e que ajudá-los a atravessar essa crise não significa minimamente relativizar a força do discurso feminista”.
Poderíamos começar a conversar a partir daqui, mas Chico, alvo de dezenas de críticas nas redes sociais, resolveu gravar um vídeo em que, calmamente, à frente de sua gigantesca estante de livros, sem levantar a voz, explica o seu ponto de vista àqueles (ou àquelas?) que, segundo ele, não o escutam.
Ele diz que quando deu a entrevista ainda não havia ocorrido a série de feminicídios que assolou o país na última semana.
Localizado na famigerada esquerda progressista, que prefiro chamar de progressismo difuso, Francisco explica, sempre calmamente, que poucas pessoas leem as entrevistas, assim como não veem vídeos até o final. Poderia aqui dar todo o relatório, já que eu, desafortunadamente, li a entrevista e vi o vídeo todo, além de outras dezenas de falas do comentarista do “Papo de Segunda”, um programa do GNT. Mas vou poupar a leitora.
A calma é um luxo, não é?
Se por acaso a entrevista tivesse sido publicada semanas antes, suas falas seriam igualmente ruins. Não pelo fato de os argumentos serem completamente esvaziados de sentido, já que a ideia de uma estrutura social (o machismo) sem aqueles que a produzem (os homens) é só um monstro abstrato, algo contra o qual ninguém sabe para onde direcionar a luta.
As falas e a entrevista de Chico seriam ruins, na verdade, em qualquer momento, já que segundo o Relatório Anual Socioeconômico da Mulher (Raseam), do Ministério das Mulheres, uma média de quatro mulheres foram assassinadas por dia em 2024. Nesse mesmo ano, o Brasil registrou 196 estupros por dia e 3,7 milhões de mulheres viveram um ou mais episódios de violência doméstica no país.
Um dado do Geledés chama atenção: 62% das vítimas de violência doméstica no país são mulheres negras.
Mas calma, gente. Imagina se o debate público fosse feito de xingamentos, o que seria de intelectuais como Chico?
Na semana em que duas trabalhadoras da educação, Allane Pedrotti e Layse Costa Pinheiro foram mortas por um homem que não suportava ser chefiado por mulheres e que uma mulher foi arrastada por seu ex-namorado até ter as duas pernas amputadas, a Veja, a que Francisco confiou suas frases de efeito sobre a confusão que as mulheres fazem, resolveu publicar a entrevista.
Poderia aqui argumentar calma e longamente que pensar estruturas e modos de produzir a vida sem localizar a classe, o gênero, a raça e sexualidade dos grupos sociais de quem oprime é não ter compromisso político nenhum com minorias sociais.
Poderia discutir sobre como intelectuais do progressismo difuso falam sobre igualdade, mas não identificam quem deve perder poder para que essa igualdade seja alcançada. Poderia debater sobre como a ideia de “identitarismo” por si só é problemática, já que coloca quem fala na posição do “não-identitário”, ou seja, do universal.
Poderia pensar sobre como parte da esquerda midiática dorme muito tranquila dizendo platitudes, achando que faz movimento social.
Mas vou te falar: a calma tem sido um artigo em falta por aqui. É um artigo de luxo para quem pode estar distante.
Nos queremos vivas, mas queremos mais: queremos existir sem nos sentirmos cidadãs de segunda classe. Queremos viver sem medo de morrer dentro e fora de casa. Queremos ter filhas, sobrinhas e netas sem que elas levem nas costas o peso do abuso sexual, a herança que a geração anterior de mulheres não conseguiu se livrar.
Nos queremos vivas e tranquilas na convicção de que os homens estão de fato preocupados com a nossa existência e liberdade objetiva e subjetiva. Queremos um mundo onde os homens se organizem coletivamente, não para nos expor, mas para curar as próprias feridas.
Nos queremos vivas e livres da culpa e do peso de sermos as únicas responsáveis pelo cuidado das crianças, idosos e muitas vezes dos homens de nossas famílias. Nos queremos vivas e com muita raiva para combater a calma de quem pode falar o que quiser de nós, sem sofrer um arranhão em sua imagem pública.
Eu quero estar viva, com raiva e gritando bastante, porque intelectual que não incomoda o status quo –não aquele da bolha “progressista”, mas o status quo que oprime a maioria gigantesca da nossa população — e só vive de abstração, não serve para nada.
*Doutora em História pela Universidade Federal Fluminense