Pedro Chê*
Embora a ‘boa’ colocação não seja uma novidade, duas pesquisas nacionais recentes (Quaest e Atlas) puseram a segurança pública como o principal problema contemporâneo para os brasileiros. E o trágico, e nada cômico, foi observar como o ‘debate político’ recebeu essa notícia.
Ao ser lançada a Quaest, seus dados foram recebidos quase como um terremoto, afinal ‘nunca antes o Presidente Lula teve uma popularidade tão baixa’. Em resposta aos dados tivemos matérias, entrevistas, reunião ministerial, e como produto desse ‘quociente político’ foram apontados como causas principais a alta dos alimentos e do dólar, a crise do Pix, e problemas comunicacionais do governo.
Dias depois, foi divulgada a pesquisa Atlas, que apresentou uma realidade ainda mais difícil para o governo e para a esquerda, mas por apresentar um cenário semelhante ao da Quaest não gerou tanto impacto, exceto pela pesquisa presidencial, que foi comemorada por governistas e militantes, pois deu uma vitória de Lula nos diversos cenários, ainda que com uma margem de apenas 1% sobre o Tarcísio. Mas onde esta a segurança? Lamento informar que ela não está incluída no debate político central.
Tratar de segurança é muito incômodo para certos grupos, e me deparo com isso em todas as entrevistas que dou sobre o tema. Frequentemente, recebo a mesma e mal-humorada resposta: ‘Não é culpa do governo federal, mas dos governadores.’ Embora haja razão nesse argumento, já que 65% do efetivo policial realmente está sob o comando destes, essa saída retórica, que funcionou há 10 anos, não cola mais.
Acho necessário situar o momento em que nos encontramos: o problema se alastrou de tal forma que não há mais espaço para ‘jogar no colo dos outros’, a lógica se tornou a do ‘salve-se quem puder’. Prefeitos, pletorizam suas Guardas Municipais, e assim esperam fugir da ‘culpa’. Governadores — com mais recursos e responsabilidades — investem em duas estratégias: [1] operações pirotécnicas e midiáticas — caras e com efeitos de curtíssimo prazo, [2] e a divulgação maciça de números ‘positivos’ — cujos efeitos são pouco palpáveis já que ninguém consegue se sentir 5% mais seguro.
Quanto a União, vemos a divulgação de agendas ‘positivas’ de baixo impacto — normalmente por meio de projetos e programas executivos —, o anúncio de novos concursos e repasses de recursos milionários para os Estados e Prefeituras para a aquisição de armas e viaturas. A população, em grande parte, entende que este conjunto de ações tem pouca ou nenhuma capacidade para mudar a sua realidade, ou seja, um estado de insegurança.
Neste ambiente de desilusão o governo federal se encontra na posição mais desafiadora, pois tem pouca margem para pirotecnia e políticas marqueteiras. O reclame social é conhecido e já notório (Queremos Segurança), cabe não só ao Estado Brasileiro, mas a todos aqueles que integram e valorizam a democracia no país, formular — de forma inédita — propostas que efetivamente ataquem a questão, sob a pena de serem devoradas por um futuro governo policialesco e autoritário, que se avizinha… infelizmente.
*Policial civil e historiador