Por duas vezes, no mesmo discurso na cerimônia em que recebeu o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade Paris 8, o presidente Lula recorreu ao nome de um fabuloso nordestino muito conhecido no mundo intelectual francês e ainda pouco lembrado no Brasil.
Professor de destaque na própria Paris 8, ídolo e amigo do casal de escritores Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir, o pernambucano Josué de Castro (1908-1973) foi o médico e escritor que fez a denúncia pioneira, nos anos 1940, da fome como uma catástrofe política, não um fenômeno natural.
“Aqui grandes pensadores como Foucault, Deleuze, o cientista social brasileiro Josué de Castro e meu querido amigo Marco Aurélio Garcia ajudaram formar um pensamento crítico, que não aceita injustiça como destino e que está comprometido com a transformação social”, disse Lula.
Autor dos clássicos “Geografia da Fome” (1946, reeditado agora pela Todavia) e “Homens e Caranguejos” (1967, Civilização Brasileira), Josué teve a sua importância resgatada pela banda Chico Science & Nação Zumbi, no início dos anos 1990.
O cientista da fome é o guru dos manifestos que Fred 04 (grupo Mundo Livre S/A) escreveu para lastrear a filosofia do movimento musical Manguebeat:
“Hoje, os mangueboys e manguegirls são indivíduos interessados em hip-hop, colapso da modernidade, Caos, ataques de predadores marítimos (principalmente tubarões), moda, Jackson do Pandeiro, Josué de Castro, rádio, sexo não-virtual, sabotagem, música de rua, conflitos étnicos, midiotia, Malcom Maclaren, Os Simpsons e todos os avanços da química aplicados no terreno da alteração e expansão da consciência”.
Definido pelo sociólogo Gilberto Felisberto Vasconcellos como o “Engels pernambucano”, o homem que abriu as portas da universidade francesa para Lula precisa, urgentemente, ser mais lido e celebrado no Brasil.
Mais do que nunca, no momento em que a fome persiste em vários territórios, como em Gaza e outras geografias, soltar o soltar o grito e os tambores de Chico Science & Nação Zumbi: “Ô Josué, eu nunca vi tamanha desgraça/ Quanto mais miséria tem, mais urubu ameaça”.