O Império contra-ataca de chuteiras? Futebol, História e Racismo

Nas semifinais da Copa de 2026, a Argentina de Messi enfrenta seleções europeias profundamente multirraciais. Entre a solidariedade hermana e o orgulho afro que veste as camisas dos velhos impérios europeus, torcer deixou de ser um gesto inocente
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Julho de 2026. A primeira Copa do Mundo de quarenta e oito seleções, espalhada pela América do Norte de Donald Trump — que restringiu vistos a mais de vinte nações africanas às vésperas do torneio  —, afunilou-se num desfecho que parece desenhado por um roteirista com formação em História Colonial. Restam quatro campeãs mundiais: a Argentina de Lionel Messi, aos 39 anos em sua despedida, e três potências europeias — França, Espanha e Inglaterra. Nesta quarta-feira, a Argentina entra em campo contra a Inglaterra vestindo, com autorização especial da FIFA, a camisa azul-escura de 1986, aquela da mano de Dios e do gol do século, quatro anos depois das Malvinas. O simbolismo é explícito: o duelo não é apenas futebolístico, é a periferia contra o império, Buenos Aires contra Londres, San Martín contra a Coroa.

E aqui, do lado de cá do continente, muito se fala em solidariedade entre os hermanos latino-americanos. Eliminado o Brasil, restaria a nós o dever afetivo e geopolítico de abraçar a causa argentina. Contudo, o que isso de fato significa? O que exatamente estamos abraçando quando abraçamos essa torcida?

Observemos as quatro semifinalistas com olhos de historiador, não de torcedor. As três seleções europeias são equipes profundamente multirraciais, forjadas pelo talento de europeus de ascendência africana — da África negra e da África árabe. A França leva a campo vinte e um jogadores de ascendência africana; a Inglaterra, quinze. A Espanha, que por décadas escapou desse retrato, hoje tem como joia maior Lamine Yamal, filho de pai marroquino e mãe guinéu-equatoriana, neto de uma mulher que cruzou de balsa o estreito entre Tânger e a Andaluzia em 1990. Quando comemora seus gols, Yamal desenha com os dedos o número 304 — o código postal de Rocafonda, bairro operário e imigrante de Mataró. Ao seu lado corre Nico Williams, cujos pais ganeses atravessaram o Saara a pé e pularam a cerca de Melilla; o irmão mais velho, Iñaki, escolheu jogar pela seleção de Gana em homenagem às raízes da família. A semifinal entre França e Espanha, disputada em Dallas, foi também isto: Mbappé contra Yamal, dois filhos da diáspora africana decidindo qual pedaço da Europa chega à final.

O caso francês, o mais emblemático, mobiliza o debate étnico-racial europeu há três décadas. Já na Eurocopa de 1996, Jean-Marie Le Pen declarava ser “artificial convocar jogadores de outros países e batizar de seleção francesa”, escandalizado porque Zidane, Karembeu e Loko não cantavam a Marselhesa. Dois anos depois, a França black-blanc-beur — negra, branca e árabe, no trocadilho com o bleu-blanc-rouge da bandeira — venceu a Copa em casa, e por uma semana projetou-se “Zidane président” no Arco do Triunfo. Em 2006, Le Pen voltou à carga: a França “não se reconhece na seleção”, o técnico “exagerou na proporção de jogadores de cor”. A resposta veio de Lilian Thuram, filho de Guadalupe e o jogador com mais partidas pela França: “Há franceses negros, franceses brancos, franceses mestiços. Vive la France — mas a França verdadeira, não a que ele quer”. A extrema direita, hoje sob Marine Le Pen — recém-liberada pela justiça para concorrer em 2027 —, nunca abandonou a tese de que a seleção majoritariamente afro seria ilegítima. Como se a nação fosse uma essência racial, e não uma construção histórica; como se os sociólogos não tivessem já demonstrado que o próprio mito integracionista de 1998 ruiu nas revoltas das banlieues de 2005, no escândalo das cotas raciais da federação francesa em 2011 e no ostracismo de Karim Benzema, que acusou o técnico de ceder “à parte racista da França”.

O debate fica ainda mais candente quando adicionamos o ingrediente geopolítico. Por que torcer pelas seleções “imperialistas” europeias se podemos apoiar o genial argentino Messi e sua seleção campeã? Confesso de partida: sou daqueles que amam a cultura argentina em toda a sua plenitude. Amo a literatura labiríntica de Borges — que, ironicamente, detestava futebol e peronismo com igual fervor —, o tango de Gardel e Piazzolla, a arquitetura portenha que sonha ser Paris à beira do Rio da Prata, a épica plebeia de Perón e Evita com seus descamisados. E amo, sobretudo, a seleção argentina desde a genialidade de um Maradona — esse sim, um mestiço assumido, que se orgulhava de ser chamado de cabecita negra, o termo com que a elite branca portenha desprezava os provincianos de pele escura que desciam às fábricas de Buenos Aires. Diego, aliás, descendia de Luis Maradona, homem escravizado que conquistou a liberdade lutando no exército libertador de San Martín — aquele mesmo exército sobre o qual o general teria dito que um dia se saberia que a pátria foi libertada “pelos pobres, pelos filhos dos pobres e pelos negros”. Em Maradona, o pibe de Villa Fiorito de sangue guarani, a Argentina profunda — mestiça, provinciana, apagada — vingava-se simbolicamente da Argentina oficial.

Contudo, me parece que torcer pela Argentina contra os “imperialistas brancos” já não é uma realidade concreta — se é que algum dia foi. O feitiço inverteu-se: são as seleções de proa da Europa que hoje comandam elencos multirraciais e reafirmam, a cada convocação, um certo orgulho afro-diaspórico. E a Argentina que enfrentam carrega um problema que a paixão hermana prefere não ver. Foi da torcida argentina, na Copa do Catar, que nasceu o canto que zombava dos franceses: “jogam pela França, mas são todos de Angola… a mãe é nigeriana, o pai é camaronês, mas no passaporte: francês”. Em 2024, após o título da Copa América, foi a própria delegação campeã — não um punhado de anônimos na arquibancada — que entoou a mesma cantiga, transmitida ao vivo, com involuntária candura digital, pelo meia Enzo Fernández, levando a federação francesa a acionar a FIFA e o Chelsea a abrir processo disciplinar contra o próprio jogador. E nesta Copa de 2026, a FIFA investiga novamente cantos racistas de jogadores argentinos, além de denúncias de torcedores cabo-verdianos e egípcios contra a violência racista de parte da torcida albiceleste. Que fique claro, sem generalizar: não se trata de “o argentino”, esse fantasma essencializado, mas de uma corrente real, audível e reincidente — e do que ela revela.

O que ela revela é história. A Argentina é o país que fez do branqueamento um projeto constitucional: Juan Bautista Alberdi cunhou o “governar é povoar”, e o artigo 25 da Constituição de 1853, sobrevivente a todas as reformas, ordena ao Estado fomentar a imigração europeia. No início do século XIX, cerca de um terço da população de Buenos Aires era negra ou parda; o censo de 2010 registrou 0,37% de afro-argentinos. Esse “enigma do desaparecimento”, como o chamou o historiador George Reid Andrews, não foi obra do acaso, mas de guerras que usaram batalhões negros como bucha de canhão, de epidemias que devastaram os bairros pobres e, sobretudo, de um apagamento estatístico, escolar e simbólico deliberado — aquilo que Aníbal Quijano chamaria de colonialidade do poder operando dentro da própria nação pós-colonial. O mito de que “os argentinos descem dos navios” (imigracao europeia) segue vivo e atuante: o governo Milei fechou o instituto nacional contra a discriminação e, em março de 2026, a Argentina foi um dos três únicos países do mundo — ao lado de Estados Unidos e Israel — a votar contra a resolução da ONU que reconhece o tráfico negreiro como crime contra a humanidade. Eis o paradoxo que nenhum canto de arquibancada resolve: a nação latino-americana que reivindicamos como trincheira anti-imperialista é também a que mais fundo internalizou o ideal racial do próprio império europeu. A negrofobia argentina, como notou um analista, tem um traço revelador: ninguém jamais questionou a francesidade de Zidane, o árabe-berbere — o alvo do escrutínio é sempre o negro.

Mas cuidado com o espelho que conforta. Se a Argentina (e também o Brasil) precisa se olhar, a Europa não sai absolvida do outro lado do Atlântico. Afinal, como fica o imperialismo nessa história? Foi por conta dele que os descendentes de migrantes das ex-colônias africanas foram parar na Europa e lá fizeram suas vidas como cidadãos europeus. Os pais de Saka saíram da Nigéria para Londres pela rota que o próprio império britânico pavimentou; a família de Mbappé chegou a Bondy vinda de Camarões e da Argélia cabila porque antes a França havia chegado a Camarões e à Argélia. Como ensina Paul Gilroy, o Atlântico negro é isso: uma modernidade construída sobre o navio negreiro, na qual a diáspora não é acidente, mas fundação. Eusébio veio de Moçambique para dar uma chuteira de ouro a Portugal em 1966; Raoul Diagne, de raízes senegalesas, já vestia o azul da França nos anos 1930. O talento das seleções europeias não é generosidade multicultural: é, num sentido brutalmente material, a colheita tardia da exploração colonial — o império que voltou para casa vestindo o uniforme da metrópole.

Estaria então a Europa tentando limpar a barra dos genocídios que cometeu, exibindo seus craques racializados como atestado de redenção? Em parte, sim — e o mecanismo tem nome. Achille Mbembe descreve como o capitalismo contemporâneo aprendeu a converter a negritude em mercadoria e emblema, sem tocar nas estruturas que a subordinam. A incorporação multiétnica europeia é concreta para Mbappé, Bellingham e Yamal; é bem menos concreta para seus primos e vizinhos. O mesmo Estado francês que processa uma senadora paraguaia por racismo contra seu capitão é o que deixou Zyed Benna e Bouna Traoré morrerem eletrocutados fugindo da polícia em 2005, o que chama os meninos das banlieues de racaille, o que ergue a Europa-fortaleza onde botes afundam no Mediterrâneo com os que não driblam como Dembélé. Frantz Fanon já havia descrito essa armadilha: ao negro é oferecido um lugar no universal — desde que excepcional, desde que útil, desde que vença. Vale a velha aritmética verificada a cada torneio: quando ganha, é francês; quando perde um pênalti, é africano — que o digam Tchouaméni e Coman, cobertos de injúrias após a final de 2022, ou Saka, Rashford e Sancho, linchados digitalmente após a final da Eurocopa de 2020. A cidadania do craque negro europeu é uma cidadania condicional, renovável a cada partida, com cláusula de rescisão por pênalti perdido.

E no entanto — e aqui façamos justiça ao presente — algo novo se move, e tem a face do capitão francês. Nesta Copa, depois que a França eliminou o Paraguai, uma senadora paraguaia despejou nas redes um repertório colonial completo: chamou Mbappé de “camaronês colonizado que tenta desesperadamente se passar por francês” e de “bruto que não aprendeu a escrever”. Note-se a geografia do insulto: veio da América Latina, dos hermanos, ecoando Chilavert, que às vésperas do jogo chamara a França de “um time da África”. A resposta de Mbappé foi um manifesto de uma linha: “A senhora é uma mulher desprezível e indigna do seu cargo. Não representa o Paraguai, esse país que suou paixão e honra durante toda a competição”. Macron celebrou “mais um gol, desta vez contra o racismo”; a ONU se pronunciou; a promotoria de Paris abriu inquérito. O menino de Bondy que em 2024 subiu ao púlpito para pedir votos contra a extrema direita não pede licença para ser francês: exige a França como sua por direito, não por concessão. Se Thuram, em 2006, ainda precisava explicar a Le Pen que existiam franceses negros, Mbappé já não explica nada — julga, sentencia e segue para a semifinal. Há aí, sim, o tom de uma nova França possível, que a velha França das urnas insiste em desmentir a cada eleição. O capitão está à frente do seu país: resta saber se o país o alcança.

Então, por quem torcer no domingo, em Nova Jersey? A honestidade intelectual obriga a admitir que não há camisa limpa no varal. Torcer pela Argentina de Messi — e como não se comover com o último ato do maior de todos? — exige carregar junto o incômodo do canto de Angola e do voto solitário na ONU. Torcer pela França de Mbappé, pela Espanha de Yamal ou pela Inglaterra de Bellingham e Saka exige saber que se aplaude a face luminosa de um sistema cuja face sombria segue deportando, encarcerando e afogando os irmãos “menos talentosos” dos titulares. A solidariedade latino-americana é um valor que prezo; só não aceito mais que ela funcione como salvo-conduto para não discutir o racismo de casa — o deles e o nosso, que de Copa em Copa fingimos não ver no espelho brasileiro.

Talvez a torcida mais lúcida seja outra: torcer pelos talentos negros e mestiços que, dos dois lados do Atlântico, floresceram nas rachaduras do império — de Luis Maradona, o escravizado que lutou pela independência de uma pátria que depois o apagou, ao seu tetraneto simbólico Diego; da avó de Yamal na balsa de Tânger ao 304 desenhado nos dedos de um estádio lotado no Texas. O futebol não redime a História, e uma taça não repara genocídio algum. Mas há algo de subversivo em ver o império obrigado a se reconhecer, a cada quatro anos, no rosto daqueles que tentou reduzir a mercadoria. A pergunta que fica, depois do apito final, é a única que importa: a Europa que se enxerga em Mbappé, hoje e eventualmente no domingo, estará disposta a se enxergar, na segunda-feira, em outros meninos de Bondy que não sabem fazer gols?

O capitão francês Mbappé comemora gol da França contra o Paraguai na Copa do Mundo FIFA 2026. Foto: DAN MULLAN /Getty Images via AFP.
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