Por Cleber Lourenço
A nova rodada da pesquisa Atlas/Bloomberg, divulgada nesta terça-feira (19), mostra que os áudios e mensagens entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, produziram um efeito político claro: o senador perdeu força no eleitorado geral, mas não foi abandonado pela base de Jair Bolsonaro.
O dado central é esse. O caso não tira Flávio do jogo, mas muda a qualidade de sua candidatura. Antes, ele vinha crescendo como principal herdeiro eleitoral do bolsonarismo. Agora, segue competitivo dentro da direita, mas mais difícil de vender ao eleitorado de centro, moderado ou antipetista não radicalizado.
Segundo a pesquisa, 64,1% dos entrevistados dizem que a divulgação das conversas enfraqueceu a candidatura de Flávio. Dentro desse grupo, 45,1% afirmam que enfraqueceu muito e 19% dizem que enfraqueceu um pouco. Só 13,4% avaliam que o episódio fortaleceu o senador, enquanto 15% dizem que não houve impacto.
O episódio também não ficou restrito à bolha política. A pesquisa mostra que 95,6% dos entrevistados souberam dos áudios e mensagens vazadas. Entre eles, 93,9% afirmaram ter ouvido o áudio. Na prática, a crise virou fato nacional.
Master passa a pesar mais contra Bolsonaro
Um dos dados mais importantes está na percepção sobre quem está mais envolvido no esquema de fraudes financeiras do Banco Master. Em maio, 43,3% apontam principalmente aliados de Bolsonaro. Outros 32,8% citam aliados de Lula, 16,1% dizem que todos estão igualmente implicados e 7,1% apontam o Centrão.
A mudança em relação a março é expressiva. Na rodada anterior, 28,3% apontavam aliados de Bolsonaro. Agora, são 43,3%. No mesmo período, a associação aos aliados de Lula caiu de 39,5% para 32,8%. A menção ao Centrão também recuou, de 12,9% para 7,1%.
Esse movimento ajuda a explicar o desgaste de Flávio. Depois dos áudios, o escândalo do Banco Master passou a ser mais associado ao campo bolsonarista. O problema deixou de ser apenas uma crise pessoal do senador e passou a contaminar o campo político que ele pretende representar.
Maioria vê indício, mas há espaço para defesa
A pergunta mais sensível da pesquisa trata da interpretação sobre a conversa entre Flávio e Vorcaro. Para 51,7% dos entrevistados que souberam do vazamento, o diálogo retrata evidências de envolvimento direto do senador com o escândalo do Banco Master.
Mas há um segundo dado importante. Outros 33,3% veem a conversa como uma tentativa legítima de conseguir apoio financeiro para o filme sobre Jair Bolsonaro. Além disso, 12,1% enxergam apenas uma relação de proximidade entre Flávio e o dono do Master, mas sem comprovação de ilegalidade.
Somados, esses dois grupos chegam a 45,4%. Esse é o espaço de sobrevivência eleitoral de Flávio. A maioria vê algo grave, mas quase metade dos entrevistados que conhecem o caso não enxerga ilegalidade direta na conversa.
Esse número se aproxima do desempenho do senador no segundo turno. Na pesquisa, Lula aparece com 48,9% contra 41,8% de Flávio. Não dá para afirmar que são exatamente os mesmos eleitores, porque a pesquisa não apresenta esse cruzamento individual. Mas os tamanhos ajudam a entender a viabilidade da candidatura: Flávio ainda respira no eleitorado que relativiza os áudios ou aceita a explicação do filme.
Tese de perseguição segura a base
A pesquisa também perguntou o que o vazamento representa. Para 54,9%, são evidências obtidas em uma investigação legítima sobre possíveis irregularidades. Já 33% veem uma tentativa de prejudicar politicamente Flávio Bolsonaro. Outros 9,7% dizem que as duas coisas ocorreram por igual.
Aqui está a diferença entre base e eleitorado geral. A tese de perseguição política tem força, mas não é majoritária. Ela ajuda a manter mobilizado o eleitor bolsonarista, que tende a ler investigações contra a família Bolsonaro como ataque político. Mas, fora desse núcleo, prevalece a leitura de que o vazamento está ligado a uma investigação legítima.
Em uma disputa presidencial, essa diferença pesa. A narrativa que segura a base nem sempre ajuda a conquistar o centro.
Flávio perde tração contra Lula
O impacto aparece nos cenários eleitorais. No primeiro turno com Lula, Flávio tem 34,3%, contra 47% do presidente. O mais importante, porém, é a série histórica.
Flávio vinha crescendo: 23,1% em novembro, 29,3% em dezembro, 35% em janeiro, 37,9% em fevereiro, 40,1% em março e 39,7% em abril. Agora, cai para 34,3%.
Lula, por outro lado, fica praticamente estável. Tinha 46,6% em abril e aparece com 47% em maio. Isso indica que o movimento principal da rodada não é uma alta de Lula, mas uma perda de tração de Flávio.
No segundo turno, o recuo é ainda mais claro. Em abril, Flávio havia chegado a 47,7% contra Lula. Em maio, cai para 41,8%. Lula aparece com 48,9%. Brancos, nulos e indecisos somam 9,3%.
A hipótese mais provável é que parte do eleitor antipetista que estava com Flávio não migrou diretamente para Lula. Foi para a dúvida, para o branco, para o nulo ou para uma posição de espera. É um eleitor desconfortável com o escândalo, mas ainda não convertido ao lulismo.
Lula está vulnerável, mas Flávio também
A pesquisa não mostra um Lula confortável. O presidente tem 51,3% de desaprovação e 47,4% de aprovação. Na avaliação do governo, 48,4% consideram a gestão ruim ou péssima, contra 42,9% que avaliam como ótima ou boa.
Ou seja, havia espaço para a oposição crescer. O problema para a direita é que Flávio, que vinha ocupando esse espaço, passou a carregar uma crise de grande repercussão e leitura majoritariamente negativa.
A pesquisa mostra uma situação incômoda para os dois lados: Lula segue vulnerável, mas Flávio ficou mais vulnerável do que estava.
Medo de Flávio passa medo de Lula
Outro dado ajuda a entender o tamanho do desgaste. Em maio, 47,4% dizem que a eleição de Flávio Bolsonaro causa mais medo ou preocupação. Já 40,5% apontam a reeleição de Lula. Outros 11% dizem que ambos preocupam igualmente.
Houve uma virada. Em abril, 47,3% temiam mais a reeleição de Lula, contra 45,4% que temiam mais a eleição de Flávio. Agora, o medo de Flávio sobe para 47,4%, enquanto o medo de Lula cai para 40,5%.
Esse dado conversa diretamente com os áudios. Flávio deixou de aparecer apenas como o nome competitivo da família Bolsonaro e passou a ser visto por parte maior do eleitorado como risco político. Em segundo turno, isso limita o crescimento, porque a disputa também é feita de rejeição e percepção de perigo.
Base bolsonarista não larga Flávio
Apesar do desgaste, Flávio segue forte dentro da base de Jair Bolsonaro. Entre eleitores do ex-presidente, 84,2% defendem que o senador mantenha a candidatura à Presidência. Apenas 12,6% acham que ele deveria retirar o nome e apoiar outro candidato.
A pergunta sobre disposição de voto reforça essa leitura. Depois de conhecer as conversas, 47,1% dizem que já não votariam em Flávio de qualquer forma. Outros 21% afirmam que o caso não muda sua disposição de voto. Entre os demais, 18,8% ficaram mais dispostos a votar nele, enquanto 13% ficaram menos dispostos.
Esse dado precisa ser lido com cuidado. Ele não significa que o caso ajudou Flávio. Significa que quase metade do eleitorado já estava fora do alcance dele, enquanto uma parte da base reagiu ao escândalo fechando trincheira. O episódio mobiliza convertidos, mas dificulta a conquista dos moderados.
Família Bolsonaro fica sem plano B maduro
O levantamento também mostra o dilema da família Bolsonaro. Em cenário de primeiro turno com Michelle Bolsonaro, Lula aparece com 47%, enquanto a ex-primeira-dama marca 23,4%. Romeu Zema tem 10%, Renan Santos aparece com 7,8% e Ronaldo Caiado com 6%.
A comparação com Flávio é direta. Mesmo enfraquecido pelo caso Vorcaro, o senador tem 34,3% no cenário em que é testado contra Lula. Michelle fica mais de dez pontos abaixo.
Esse é o ponto de não retorno do clã. Flávio ficou mais tóxico para o eleitorado geral, mas continua sendo o nome familiar mais competitivo. Michelle é menos atingida diretamente pelo caso, mas aparece em patamar mais baixo. Outros nomes da direita também não mostram força suficiente para herdar automaticamente o voto bolsonarista.
Trocar Flávio agora teria custo alto. A família Bolsonaro poderia perder tempo, densidade eleitoral e capacidade de unificar a direita. Em um cenário fragmentado, uma mudança para Michelle ou outro nome poderia até ameaçar a presença do bolsonarismo no segundo turno.
O dilema é simples de entender e difícil de resolver: manter Flávio significa carregar o peso do Master e dos áudios com Vorcaro; trocá-lo significa abrir mão do nome que, apesar do desgaste, ainda concentra o maior potencial eleitoral do grupo.
A pesquisa mostra que Flávio sobrevive dentro do bolsonarismo, mas o caso Vorcaro encurtou seu caminho até o centro.